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Jogo perigoso
Sob a mira
da Justiça, os sorteios via 0900
engordam o caixa das principais emissoras
Ricardo
Valladares

Há cheiro de
problema no negócio que mais movimenta dinheiro na
televisão brasileira: os sorteios de prêmios por
telefone, via sistema 0900. A suspeita vem da
Procuradoria-Geral da República, que entrou com uma
ação cível pública contra esse tipo de jogo. Na
semana retrasada, foi deferida uma liminar proibindo os
sorteios. Duas outras ações, pedindo a sua suspensão,
já haviam sido ajuizadas em setembro de 1997 e janeiro
deste ano pelo deputado estadual José Carlos Tonin, do
PMDB de São Paulo. A jogatina, no entanto, promete
continuar forte. O 0900 começou na televisão brasileira
em agosto de 1996. Na época, os concursos arrecadavam,
somados, uma média de 5 milhões de reais por mês. Esse
número quase quintuplicou no ano passado entre
janeiro e dezembro, o 0900 movimentou 276 milhões de
reais, uma média de mais de 23 milhões por mês,
segundo dados levantados pela Assembléia Legislativa de
São Paulo. A Justiça ameaça brecar os sorteios na
época em que as emissoras se preparam para faturar alto
com eles. A previsão é de que, durante a Copa do Mundo,
a média mensal do ano passado quintuplique novamente.
A suspeita de
ilegalidade ocorre porque não se sabe exatamente para
onde vai o dinheiro arrecadado. Como se sabe, o jogo é
ilegal no Brasil. Há, no entanto, uma lei de 1971 que
autoriza sorteios feitos por instituições
filantrópicas que tenham recebido algum bem como
doação. Em 1997, o Ministério da Justiça criou uma
portaria autorizando as entidades beneficentes a divulgar
esses sorteios pela TV. É com esse amparo legal que as
emissoras fazem, até agora, os concursos pelo sistema
telefônico 0900. O problema é que, de acordo com a lei,
todo o dinheiro arrecadado, descontados os custos
operacionais, deveria ir para instituições de caridade.
Não é isso que vem acontecendo. De acordo com
levantamento feito pela Procuradoria-Geral, as emissoras
vêm repassando para as instituições algo em torno de
5% da arrecadação, alegando que o resto seria
"custo da promoção", um evidente absurdo.
"É propaganda enganosa. Ao ligar para o 0900, o
sujeito acha que está ajudando os necessitados",
explica André de Carvalho Ramos, procurador da
República responsável pela ação cível. "O
Ministério Público pede que a totalidade da
arrecadação vá para instituições de caridade."
Até que a
Procuradoria-Geral da República começasse a se
manifestar, era mais ou menos público que o dinheiro
arrecadado servia para engordar o contracheque dos
apresentadores e o cofre das emissoras. Quando assinou
contrato com a Manchete para apresentar o Domingo
Total, programa totalmente voltado para o 0900, o
apresentador Otávio Mesquita sabia que, de seu salário
de 100.000 reais mensais, 40.000 viriam diretamente da
participação nos sorteios. Agora que o caso foi para a
Justiça os executivos das emissoras pararam de dar
entrevista sobre o assunto. É difícil conseguir provas
de que os canais embolsam a maior parte do dinheiro, mas
o procurador André Ramos arranjou uma, justamente contra
a Rede Globo, que até pouco tempo atrás se recusava a
participar dos sorteios. No dia da luta em que Mike Tyson
mordeu a orelha de Evander Holyfield, em junho do ano
passado, a emissora do Jardim Botânico recebeu 2,9
milhões de ligações, que resultaram numa arrecadação
de 8,6 milhões de reais. Ramos conseguiu uma cópia de
um contrato segundo o qual a Globo teria embolsado 61% do
valor total, já descontado o custo operacional da
Embratel. "Isso dá algo em torno de 4
milhões", contabiliza o procurador. Na ocasião, a
totalidade do dinheiro deveria ir para 25 Associações
de Pais e Amigos dos Excepcionais, as Apaes. Mas elas
pouco viram desse dinheiro. A Apae de Poços de Caldas,
por exemplo, que autorizou a utilização de seu nome
para o concurso, mordeu apenas 18.000 dos 4 milhões de
reais arrecadados pela Globo. "Deu para comprar uma
Kombi nova e ajudar a pagar o 13º salário dos
funcionários", diz Gláucia Boaretto, diretora da
instituição.
Apesar da
evidência, a emissora carioca se defende. "A Globo
só entra nesses sorteios em casos especiais, e só leva
o dinheiro referente ao pagamento pelas inserções
comerciais no horário", diz Willi Rass,
responsável pelo 0900 da emissora. "Quem fica com o
dinheiro é a Teletv, operadora que intermedeia o
serviço, e a Embratel, que leva 25% do valor
total", afirma Rass. O procurador André Ramos
estima que outras emissoras embolsam um valor ainda mais
alto, relativamente. Segundo ele, a Record fica com 70%
da arrecadação com o 0900, o que dá, atualmente, algo
em torno de 14 milhões de reais por mês. Para ter uma
idéia do que representa esse montante, o faturamento
total da emissora no ano passado foi de 70 milhões de
reais menos do que o canal de Edir Macedo deverá
arrecadar neste ano só com a jogatina, caso escape da
proibição. Para fugir à liminar, as emissoras, que
mantêm os sorteios no ar, já começaram a fazer
piruetas jurídicas. A Record e o SBT farão seus
sorteios através da Loterj, valendo-se de uma lei
estadual do Rio de Janeiro que permite que a entidade
administre esse tipo de concurso. A Bandeirantes utiliza
a Lei Zico. Segundo essa lei, sorteios televisivos são
permitidos desde que o dinheiro vá para uma
instituição esportiva. Por isso, a emissora se associou
à Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos. Se
o dinheiro for mesmo repassado à entidade, descontado o
custo operacional, a confederação poderá comprar, por
baixo, cerca de 150.000 sungas de náilon por mês para
que os nadadores brasileiros treinem para as próximas
Olimpíadas. Com ou sem liminar, as emissoras se preparam
para ganhar os tubos com a Copa. Só a Record irá
sortear 501 carros, dez casas, dez caminhões, 1.477
televisores e até um helicóptero. "Serão 10
milhões em prêmios", vangloria-se Eduardo Lafon,
diretor de programação da emissora. Se o Brasil fizer
uma bela campanha na França, os sorteios durante o
campeonato movimentarão um total de 110 milhões de
reais. Haja beneficência.
Você
aí: se ligue djá
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O
guru Walter
Mercado, que
fatura 150 milhões
com seu vale-tudo
esotérico: bobo
para tudo |
| Foto: Divulgação |
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Envolta em capas acetinadas, a
figura andrógina do porto-riquenho Walter
Mercado faz milhões no filão esotérico do
0900. Com um jeito efeminado e o bordão em
portunhol "Ligue djá", apenas na TV
brasileira Mercado fatura 5 milhões de reais por
mês. Contando com 250 atendentes em São Paulo,
a maioria egressos do candomblé, o serviço
brasileiro de Walter Mercado se dispõe a
resolver quaisquer dificuldades: de problemas
financeiros a decepções amorosas. Hoje essa
multinacional do além faz 150 milhões de
dólares por ano em cinqüenta países. Além de
faturar pelo telefone, Mercado vende uma vasta
gama de quinquilharias, de livros a velas e kits
de incenso. Com um visual que parece um
cruzamento do pianista Liberace com Clóvis
Bornay tem mais de 3000 capas brilhantes
em suas casas de Miami, Los Angeles, Nova York e
Porto Rico , Mercado jura que não faz sexo
há duas décadas. Nos dois últimos anos, ele
veio várias vezes ao Brasil. Deve voltar nesta
semana, para lançar seu sétimo livro, Além
do Horizonte Visões do Novo
Milênio. Seu sucesso é sinal de que tem
bobo para tudo do lado de baixo do Equador.
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