Asma: a luta pelo ar

Com a chegada do inverno, 16 milhões
de doentes sofrerão ataques.
Veja como prevenir as crises

Karina Pastore

Marina, de 5 anos:
o primeiro sufoco veio
aos 4 meses de vida
Foto: Eugenio Savio  

Aos 5 anos, Marina conhece bem a angústia que ela causa. Experimentou o pavor pela primeira vez ainda recém-nascida, aos 4 meses. Uma noite de 1996 foi terrível. A menina brincava em casa quando começou a espirrar e tossir. Secreções esverdeadas escorriam-lhe do nariz. Marina ficou pálida, os olhos arregalados, sem forças. A garota tentava respirar e não conseguia — era o princípio de uma parada cardiorrespiratória. Ficou internada quatro dias. Asma, do grego, ásthma, "lutar pelo fôlego". Esse foi o diagnóstico. Como Marina, sua irmã Mariana, de 3 anos, também luta. A caçula, desde que completou o primeiro ano de vida. Por causa da doença, cada uma delas já foi parar três vezes, entre a vida e a morte, no hospital. Com medo de perder as filhas para uma crise, chega o inverno e Renata Balbino, promotora de eventos, suspende o trabalho para ficar em casa com as meninas. "Nessa época do ano, as crises tornam-se mais freqüentes", diz ela. É sempre assim. Entre junho e setembro, quando o outono vira inverno, os asmáticos do Hemisfério Sul tendem a experimentar os ataques mais violentos da doença. Aumenta em até 80% a procura pelos serviços de emergência e pelos consultórios de pneumologistas e alergistas. No balanço dessa guerra se contam anualmente no Brasil 2.500 baixas, as pessoas que morrem vítimas fatais da asma.

Do ponto de vista fisiológico, a asma é apenas uma inflamação dos brônquios (veja quadro). Mas as sensações de afogamento, sufoco e desespero que estão associadas a ela durante as crises se transformam numa tortura, experimentada por cerca de 100 milhões de pessoas em todo o mundo, 16 milhões no Brasil. O esforço que se faz para realizar a atividade essencial da respiração é tão intenso que alguns doentes, depois de anos de luta, hipertrofiam a musculatura e a cavidade torácica, produzindo uma compleição física chamada popularmente de "peito de pombo". É dramático, principalmente porque as presas são em geral crianças, que não sabem como se proteger. "Eu já morri seis vezes", disse uma paciente de apenas 12 anos à médica Anna Lúcia Cabral, diretora da Sociedade Brasileira de Pneumologia. A menina referia-se à assustadora idéia de que o minuto seguinte não acontecerá. Cerca de 60% dos asmáticos têm menos de 11 anos. Sete em cada dez não somam 19 anos.

Um mal moderno, a asma é daquelas doenças associadas à poluição das grandes cidades, à vida confinada em casas, apartamentos, escola, carros e shopping centers. O número de doentes, por isso, não pára de crescer. Pesquisas indicam: a incidência de asmáticos na população triplicou nos últimos trinta anos. "Como passamos 23 horas por dia, em média, trancados em ambientes fechados, muitas vezes ventilados por aparelhos de ar condicionado imundos, ficamos mais sujeitos à ação das substâncias tóxicas que agem como gatilhos da asma", afirma Fábio Morato Castro, médico do Serviço de Alergia e Imunologia do Hospital das Clínicas de São Paulo.

O médico explica o porquê de empregar a palavra "gatilho". Na verdade, a asma é daquele tipo de doença que os especialistas chamam de multifatorial. Tem inúmeras causas possíveis, entre as quais se contam as componentes genéticas (um pai asmático tem 35% de chance de passar essa característica à prole) e os fatores ambientais (por exemplo, a irritação causada pela fumaça do cigarro). Os fatores externos podem atuar como os tais "gatilhos", desde que encontrem um organismo "armado" para disparar a doença.

Aperto: no desenho
de uma criança asmática,
o desespero por não
conseguir respirar
  Ilustração cedida pelo
laboratório Zeneca

"Criança do não pode" — Tal qual a diabete e a hipertensão, a asma é um mal crônico. "Não tem cura, mas é controlável. O doente pode levar uma vida praticamente normal", declara o médico Clystenes Odyr Silva, coordenador do Pronto Atendimento de Pneumologia da Universidade Federal de São Paulo, Unifesp. "Não se pode neurotizar a doença", enfatiza Hélio Romaldini, professor de pneumologia da mesma escola. Apesar disso, muitos pais de crianças asmáticas parecem ter parado no tempo. "É a chamada 'criança do não pode'.", define a doutora Anna Lúcia. Seu filho tem asma? Ah, ele não pode tomar sorvete, não pode correr, não pode brincar... Pura bobagem. "O asmático não é um incapaz", afirma o imunologista mineiro Dirceu Greco, presidente da Sociedade Brasileira de Alergia e Imunopatologia.

Não é mesmo. Mas, para manter a doença sob controle, os pais têm de ajudar seus filhos a reconhecer os sintomas, aprender a lidar com eles, e se cuidar. E o brasileiro é ainda muito mal informado sobre o assunto. Em primeiro lugar, não conhece as formas de manifestação da doença, e acaba confundindo-a com gripes e infecções respiratórias, que também provocam falta de ar. Banalizados os sinais que precedem a crise, o doente pode ser tratado erradamente até que chegue o momento agudo. "E aí pode ser tarde demais", diz o professor Elmano Marques, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Seis em cada dez casos só são diagnosticados no hospital — um risco desnecessário. Conhecer os sintomas, portanto, é fundamental. E eles incluem tosse crônica, chiadeira no peito (atenção, porque esse é o mais característico da asma), falta de ar constante, problemas respiratórios durante o sono, cansaço em excesso depois de exercícios físicos (leia quadro).

O segundo erro típico na forma como a asma é tratada no país refere-se ao fato de o tratamento circunscrever-se ao momento da crise. Uma pesquisa da doutora Anna Lúcia, a ser publicada no European Respiratory Journal, da Sociedade Européia de Pneumologia, analisou cinqüenta crianças vítimas de asma moderada ou grave no Hospital Infantil Darcy Vargas, em São Paulo. Delas, apenas quinze (30%) faziam uso de métodos preventivos corretamente.

 



 


Dança — A prevenção funciona. Aos 8 anos hoje, a garota Juliana teve o primeiro ataque quando tinha 2 anos e meio. Era inverno, e a respiração começou a chiar. "Parecia que ela tinha um gato dentro do peito", lembra a bibliotecária gaúcha Jacqueline da Silva Hiehues, mãe da menina. Em seguida, veio a tosse e, depois, a luta de Juliana por ar. As narinas abriam e fechavam numa velocidade espantosa. O peito subia e descia no mesmo ritmo. Tinha início ali, bem no meio do supermercado, uma época de horror. Até completar 6 anos, a garota era internada, em média, uma vez a cada dois meses. Cada ataque significava de uma semana a dez dias em casa, Juliana não podendo freqüentar a escola. O pai, Régis, perdeu a conta das noites em claro passadas ao lado da cama da filha. A menina era tratada apenas com broncodilatadores, os remédios de alívio para os momentos de crise. Em 1996, o casal procurou outro médico para a filha. Receitados os antiinflamatórios — as drogas preventivas — e feito um extenso programa de educação sobre a asma, agora a família está mais tranqüila. Juliana aprendeu a se cuidar. Não esquece os horários da medicação. Sabe o que pode e o que não pode fazer. "Quando entro num lugar com muito pó, saio logo", conta a garota. Se ela não pode ir ao circo, por causa da poeira, ou à feira de animais de estimação, não esbraveja. Compensa nas aulas de dança moderna. Com a mudança de terapia, os gastos da família com a doença caíram de 200 para 60 reais por mês. A última crise aconteceu há um ano. E nem de longe se assemelhou aos primeiros ataques da doença. A recuperação, que antes consumia dez dias de cuidados intensos, desta vez demorou apenas três.

Atentos aos sintomas, medicados corretamente, evitando o contato com as substâncias irritantes das vias respiratórias, os asmáticos respiram bem. "De cada uma hora de consulta, eu dedico cinqüenta minutos à educação do paciente", diz o médico Romaldini. Quando todos os meninos de sua rua criavam gatos e cachorros, o mineiro Diogo Heller, de 16 anos, tinha de se contentar com peixes. Em 1990, ele foi diagnosticado como asmático. Diogo reclama das limitações. Por se cansar facilmente, só pôde praticar natação. "O que mais me incomoda é não poder correr e, às vezes, não conseguir participar das aulas de educação física da escola", afirma. Há um ano, quando passava férias em Guarapari, litoral do Espírito Santo, Diogo viveu uma de suas piores crises. A falta de ar começou à noite. "Eu tentava respirar e não conseguia: era como se tivesse um saco plástico amarrado na minha cabeça, me sufocando. Fiquei desesperado. E quanto mais nervoso ficava, mais falta de ar sentia", lembra. Medicado com drogas para dilatação dos brônquios, ele, aos poucos, voltou a respirar. "Tive a sensação de que estava nascendo de novo", conta o adolescente. Assustada, sua mãe, a bibliotecária Lau Heller, redobrou os cuidados com o ambiente doméstico — essenciais para o bem-estar de um asmático. Além das persianas de alumínio, que substituíram as cortinas de tecido, dos travesseiros e colchão forrados com material sintético, a roupa de cama do rapaz passou a ser lavada de três em três dias. Ajudou muito também o fato de ele usar drogas derivadas do hormônio cortisona, os corticóides, potentes antiinflamatórios. Há um ano, Diogo não tem crises.

Foto: Liane Neves Foto: Eugenio Savio
A gaúcha Juliana e o mineiro Diogo: driblando o
cansaço crônico graças às drogas antiinflamatórias

Asma na idade adulta — Quando se fala que atualmente o asmático pode levar uma vida quase normal, não se trata de excesso de otimismo dos médicos. É que hoje existe uma nova classe de medicamentos que servem para prevenir os sintomas, e não apenas tratá-los, como faziam e continuam fazendo as velhas bombinhas de broncodilatadores. A revolução começou há quase três décadas. "Até então, a asma era considerada uma doença mecânica, que ocorreria apenas pela contração das vias aéreas", lembra o pneumologista Ronaldo Adib Kairalla, da Universidade de São Paulo. Para esse sufocamento, havia um único remédio: os broncodilatadores. Na década de 70, descobriu-se que a doença também decorria das inflamações dos brônquios. Surgiram então as primeiras drogas à base de corticóides, administradas sob a forma de comprimidos ou, nos casos mais graves, diretamente na veia. Os efeitos colaterais eram, no entanto, bastante severos: diabete, osteoporose, hipertensão e catarata, queda generalizada nas defesas imunológicas. Foi então que, a exemplo dos broncodilatadores mais modernos, inventaram os antiinflamatórios em spray, que joga o medicamento diretamente nos pulmões. Com isso, reduziram-se os efeitos colaterais. Depois de cerca de 25 anos sem nenhuma novidade para os cuidados com os asmáticos, no começo de 1998 chegou ao mercado brasileiro uma nova classe de drogas, os chamados antileucotrienos, aplicados principalmente a asmas leves e moderadas. Os leucotrienos são substâncias envolvidas no processo inflamatório dos brônquios. Os remédios recém-lançados — o Accolate, da Zeneca, e o Singulair, da Merck Sharp & Dohme — agem como escudos, impedindo a entrada dessas substâncias nas células das vias respiratórias. Barram, assim, a inflamação.

Um consolo que sempre animou os pais de asmáticos é o fato de a doença praticamente desaparecer na vida adulta da maioria dos pacientes. Cerca de 70% das crianças, quando entram na puberdade, apresentam uma remissão da asma. Isso acontece porque, segundo o médico Carlos Roberto Carvalho, chefe da enfermaria e UTI de Pneumologia do Hospital das Clínicas de São Paulo, é só na puberdade que o sistema imunológico humano atinge a maturidade. Deixa, então, de reagir de forma exagerada a pequenas agressões do meio ambiente. Mas é bom ter cuidado com as expectativas. Há pessoas que, mesmo tendo passado anos sem os sintomas, são colhidas de repente por uma crise. Há outras em que as primeiras manifestações só aparecem na fase adulta. Foi o que aconteceu com a advogada mineira Alda Léia Silva, de 50 anos. A primeira crise só veio aos 30. Ela aprendeu a evitar cheiros fortes, ambientes empoeirados e bebidas muito frias. Percebeu, também, que o fator emocional era muito importante, quando, em fevereiro passado, cuidava dos funerais de um parente próximo e muito querido. Findo o enterro, sobreveio o ataque. Alda foi para um psicólogo, aprender a lidar com essas emoções fortes e, assim, com a própria asma. Como lembra o doutor Carlos Carvalho, "observar o paciente é o melhor caminho para a prevenção da doença. Já vimos muito ataque de asma ser deflagrado pela emoção e até pelo uso de aspirina. O médico é fundamental, mas não existe tratamento eficaz sem a participação dos pais e pacientes".

Os novos remédios

O Accolate, da Zeneca, chegou ao Brasil em maio passado. Lançada nos Estados Unidos em outubro de 1996, a droga já foi prescrita a mais de 1 milhão de asmáticos americanos. O remédio é usado em todos os tipos da doença. Mostrou-se eficaz, sobretudo, entre pacientes com asma leve e moderada. Nos casos mais graves, ajuda a reduzir o consumo dos antiinflamatórios tradicionais, que geram mais efeitos colaterais.

Até chegar à molécula do monterlucaste, a substância básica do medicamento Singulair, o laboratório farmacêutico pesquisou por cerca de vinte anos e gastou, aproximadamente, 400 milhões de dólares. Lançado no Brasil, no mês passado, o remédio pertence ao grupo dos antileucotrienos. A droga melhora a função respiratória e reduz os sintomas da asma ao impedir a entrada nas células dos brônquios de uma substância inflamatória.


Casa à prova de asma

Dicas para ajudar a controlar os sintomas da doença

Tente se manter afastado de animais domésticos, como cães, gatos, coelhos ou cobaias. Se isso for impossível, pelo menos delimite-os a áreas distantes de carpetes, cortinas e estofados

Ataque os ácaros. Não é a poeira em si que faz mal aos asmáticos, mas os ácaros que vivem nela. Cada grama de pó chega a abrigar até 1.000 espécimes desses invertebrados, que se alimentam de restos de comida e da descamação da pele humana. Evite carpetes, cortinas e bichos de pelúcia, onde eles gostam de se esconder. Forre colchões e travesseiros com tecidos especiais. Também lave a roupa de cama ao menos uma vez por semana em água quente

Limpe a casa com pano úmido e água. Vassouras e espanadores só servem para espalhar ácaros, e os aspiradores tradicionais não conseguem absorver todo o pó. Evite desinfetantes, lustra-móveis e inseticidas. O cheiro pode deflagrar uma crise

Mantenha a casa arejada. O mofo desencadeia ataques. Para evitá-lo, abra as janelas diariamente, limpe sempre a geladeira e não deixe infiltrações de água sem conserto. Se o ambiente for muito úmido, aparelhos desumidificadores podem ajudar

Fora com as baratas. Restos de barata potencializam os ataques

Jamais fume nem deixe que fumem perto de você

Com reportagem de Manuel Martínez
e Daniella Camargos, de Belo Horizonte,
e
Eduardo Salgado, de Porto Alegre




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