O primeiro contato

Ao sobrevoar a floresta, indigenistas
encontram no Acre as malocas de uma
tribo indígena até hoje desconhecida

Klester Cavalcanti, de Jordão

Foto: Antonio Milena

Há poucos dias ocorreu na divisa do Brasil com o Peru uma dessas descobertas que alimentam o fascínio e a curiosidade a respeito da Amazônia no mundo inteiro. Depois de sobrevoar durante quatro dias uma área de floresta densa e inacessível por terra, uma equipe da Funai vislumbrou entre a copa das árvores doze construções alongadas, com cerca de 15 metros de comprimento cada. Observadas do alto, pareciam enormes casulos. Eram as malocas de uma tribo indígena até então completamente desconhecida. Por enquanto, toda a informação que se tem a respeito desses índios são as fotos aéreas de suas malocas. Estima-se que ali viva um grupo de 200 pessoas, mas ninguém sabe que nome dão à tribo, que língua falam, a que etnia pertencem e quais são seus hábitos e costumes.

Achados dessa natureza são quase inacreditáveis numa época em que satélites em órbita da Terra conseguem esquadrinhar cada metro quadrado da superfície. A Amazônia é a última região do planeta onde ainda vivem grupos humanos completamente desconhecidos. Até o começo do século era comum a descoberta de novas tribos na África, na Austrália e em ilhas do Pacífico. Hoje, muitas delas continuam bastante isoladas, mas são todas conhecidas e bem estudadas pelos antropólogos. Na Amazônia é diferente. Ali ainda existem comunidades cujo único conhecimento da chamada civilização tecnológica se limita ao ronco dos motores dos aviões que, esporadicamente, sobrevoam suas áreas. Vivem em estágio bastante primitivo, caçando, pescando e, em alguns casos, cultivando pequenas roças. As estimativas indicam que dos 270 grupos indígenas existentes no Brasil 55 nunca tiveram um contato formal com indigenistas. Essas tribos recebem da Funai a vaga denominação de "índios isolados". As poucas informações disponíveis sobre elas são relatos feitos por colonos ou caboclos ribeirinhos que vivem em áreas relativamente próximas ou por equipes da Funai que sobrevoam a área das tribos para confirmar sua existência.

Longe de tudo — A mais nova tribo descoberta no Brasil vive num dos locais mais longínquos e pouco explorados da selva amazônica. É uma região próxima ao Rio Envira, perto da divisa com o Peru, a 480 quilômetros de Rio Branco, a capital do Acre. Chegar lá de carro é impensável. A estrada mais próxima fica a 127 quilômetros. De barco é preciso enfrentar uma viagem de semanas por rios pouco navegados até hoje. O povoado mais próximo é uma comunidade rural do município de Jordão, com trinta habitantes, distante 21 quilômetros. O único modo de observar a tribo é sobrevoá-la num pequeno bimotor. O avião aterrissa e decola numa pista minúscula, com 10 metros de largura e pouco mais de 100 metros de extensão, coberta de mato e situada a 43 quilômetros do local.

Ao contrário de outras tribos, os índios da fronteira com o Peru não fazem suas casas em clareiras abertas na mata. Em vez disso, habitam ocas que ficam mergulhadas na floresta. Mesmo de avião é muito difícil identificá-las entre a copa das árvores. Para encontrá-los, a equipe da Funai, acompanhada por um repórter e um fotógrafo de VEJA, teve de sobrevoar a floresta durante vinte horas em vôos intercalados a paradas para descanso e reabastecimento. "É como procurar agulha em palheiro", diz Sydney Possuelo, chefe do Departamento de Índios Isolados da Funai. "Isso explica por que a tribo levou tanto tempo para ser localizada."

Três mortes — A Funai decidiu ir atrás da nova tribo ao saber da morte de três moradores da região. Elas ocorreram em diferentes períodos e foram atribuídas aos índios pela população de Jordão. O caso mais recente foi o assassinato do agricultor Domingos Neves, de 34 anos. No dia 8 de dezembro do ano passado, ele voltava de uma pescaria quando parou para acender um cigarro. "Dois índios surgiram como que do nada e o atacaram", conta o irmão da vítima, Luiz Carlos Neves, de 24 anos. O corpo foi encontrado perfurado por duas flechas, uma no ombro e outra no abdome, esfaqueado e sem o olho esquerdo. As testemunhas das mortes dizem que nunca tinham visto esses índios pelas redondezas.

Ao ouvir os primeiros relatos dos moradores, Possuelo chegou a imaginar que os índios envolvidos nessas mortes fossem de uma outra tribo isolada, localizada também na fronteira com o Peru mas já identificada pela Funai. Depois dos sobrevôos, ao ver as malocas compridas, distantes da outra aldeia e mais próximas do vilarejo das vítimas, concluiu que eles pertenciam mesmo àquela tribo desconhecida. "A aldeia fica muito perto dos lagos onde as pequenas comunidades buscam o sustento nesta época do ano", explica. "Os índios vão pescar ou caçar, descobrem que os brancos estão levando sua comida e resolvem matá-los." A Funai não pretende entrar em contato direto com os índios por terra. Em vez disso, quer mantê-los no isolamento em que estão hoje. Para garantir que isso aconteça e evitar novas mortes, vai retirar da área os trinta moradores do vilarejo. A mudança deve acontecer nos próximos dois meses. "É a decisão mais lógica", diz Possuelo. "São 200 índios contra trinta brancos. Então, é mais razoável deixar os índios, que estão aqui há muito mais tempo."

Uma dúvida não resolvida

A descoberta de uma nova tribo indígena envolve um dilema. Uma alternativa é deixá-la isolada, de modo que possa cultivar seus hábitos e costumes sem nenhuma interferência da civilização branca. Nesse caso, ela fica também desprotegida pelos órgãos oficiais contra possíveis conflitos com populações ribeirinhas e garimpeiros que, cada vez mais, avançam floresta adentro. A história mostra que a outra opção é tão ruim quanto essa. O contato formal com os brancos, mesmo que pacífico, resultou até agora na extinção do modo de vida primitivo dos índios, quando não da própria tribo.

O Brasil teve duas políticas oficiais sobre o assunto neste século. Até 1989, considerava-se melhor incorporar os índios ao restante da sociedade brasileira, sob o argumento de que assim estariam mais bem protegidos. Na prática aconteceu o oposto. Os kranhacarore foram contatados no início da década de 70 com a desculpa de que era preciso protegê-los da construção de uma estrada próxima à aldeia. Alguns anos depois, 90% da tribo estava morta por doenças levadas pelos brancos. Isso mudou. Agora, a orientação é deixar as tribos isoladas em reservas demarcadas e, ao mesmo tempo, tentar afastar as ameaças.




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