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| Luiza Ruberti |
Václav Klaus, o primeiro-ministro da República Checa que presidiu a transição pós-Muro de Berlim, do socialismo para o capitalismo, dizia que a "terceira via" era o caminho mais rápido para o Terceiro Mundo. A experiência latino-americana lhe deu razão. Fracassaram o "justicialismo" de Perón, o "allendismo" no Chile, a "via peruana" do general Velasco Alvarado, assim como, no Brasil, o populismo algo desossado de Vargas e Goulart. A farra da terceira via acabou sempre derretendo em posturas contraditórias, por querer um capitalismo sem lucros, um socialismo sem disciplina e investimentos estrangeiros sem investidores.
É compreensível a frustração criada em muitos ideólogos de esquerda pela depreciação do capital intelectual que investiram na utopia socialista. É frustrante reconhecer a concreta vitória da economia de mercado num contexto de hegemonia das democracias capitalistas. Daí a busca desesperada de uma destinação alternativa qualquer, que Robert Heilbroner chama de "não socialismo" e idealmente teria as seguintes características: possuiria a vitalidade do capitalismo sem uma classe de capitalistas poderosos; teria substancial orientação governamental sem um corpo de burocratas; e disporia possivelmente de uma bolsa de valores sem características de casino...
A idéia da "terceira via" ressurge agora com Tony Blair, o simpático líder do novo trabalhismo inglês. É uma versão sofisticada e pragmática, conquanto encerre também sementes de contradição, pois que, faute de mieux, começa por definir-se como "centro radical". Um dos conceptualizadores do novo trabalhismo é o professor Anthony Giddens, da London School of Economics, o qual interpreta a terceira via como uma alternativa de "ir além", tanto do neoliberalismo da nova direita como da social-democracia da nova esquerda.
Em reunião recente, ironicamente relatada pela revista The Economist, Giddens, num esforço imaginativo, teria enumerado as seguintes características diferenciais da terceira via, em relação às formulações tradicionais da "velha esquerda" e da "velha direita": 1) O conceito obsoleto de "classes" seria substituído pelo de coalizões; 2) Em vez de se maximizar o papel do Estado (esquerda) ou do mercado (direita), o Estado seria reestruturado sob o princípio da subsidiariedade, corrigindo-se (através de maior transparência e delegação a governos locais) o déficit "democrático"; 3) O "estado do bem-estar social", tido pela esquerda como instrumento de redistribuição e pela direita como gerador de desperdícios e dependência, passaria a ser o "estado do investimento social", substituindo a gastança assistencial por investimentos no capital humano, visando à melhoria da "empregabilidade"; 4) Na nova "economia mista", o caráter público ou privado da propriedade seria menos importante que a preservação da competição e o exercício da regulação; 5) A terceira via enfatizaria a "nação cosmopolita", sem a desconfiança das esquerdas sobre o conceito de nação e sem a associação, pela direita, do nacionalismo à xenofobia; 6) Num mundo "globalizado", as nações não enfrentariam mais "inimigos" e sim "perigos", ficando sem sentido tanto o internacionalismo proletário das esquerdas quanto a preocupação belicista da direita.
As formulações do "novo trabalhismo" talvez não sejam mais do que confortáveis slogans. Não representam receitas operacionais, mas seriam úteis no sentido de conter a hubris dos partidários do mercado e aliviar a derrota dos estatólatras. Segundo uma visão otimista, haveria realmente na Grã-Bretanha um momento de convergência em torno de um novo pragmatismo: as políticas devem ser medidas por seus "resultados", independentemente de figurarem na plataforma conservadora dos tories ou na dos trabalhistas ou social-democratas. Como diz The Economist, têm sido abundantes generalidades agradáveis sobre o "comunitarismo", a "sociedade do aprendizado" e a "sociedade baseada no conhecimento".
Nunca simpatizei com as denominações "direita" e "esquerda", que tantas brigas provocaram no discurso político ocidental. Sempre achei que a clivagem básica, mais simples e nítida, é aquela entre os "liberais" e os "dirigistas". Estes acreditam que o burocrata deve e pode corrigir as imperfeições do mercado; aqueles acham que as imperfeições dos burocratas são maiores que as do mercado e não são autocorrigíveis. É surpreendentemente estreita, numa economia globalizada, a margem de manobra dos estadistas no exercício concreto do governo, tendo de curvar-se aos reclamos políticos sem desrespeitar a eficiência do mercado. Em maior ou menor grau, todos são obrigados a praticar a vetusta política do violino: "segurar com a esquerda e tocar com a direita".
Roberto Campos é embaixador e deputado federal
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