Gates é contra o mundo

Maior rival da Microsoft diz que a ação
antimonopólio do governo americano é
o começo do fim para o Windows

Eurípedes Alcântara, de Menlo Park

"Para manter seu
império, Gates precisa
subjugar a Internet"
Foto: Rates Are Higher  

A fama de Scott McNealy escapou do mundo dos computadores. Ele se tornou uma celebridade nos Estados Unidos por liderar, muitas vezes com um discurso incendiário, a cruzada de empresas de alta tecnologia, como IBM, Apple, Netscape e Oracle, contra o domínio da gigantesca Microsoft, de Bill Gates. Aos 43 anos, fundador e presidente da Sun Microsystems, que faturou 9 bilhões de dólares no ano passado vendendo programas e computadores poderosos conhecidos como "servidores", McNealy aposta que a luta está entrando na fase decisiva. A razão é a ação antimonopólio que o governo americano move contra a Microsoft. "A Justiça age devagar, quase cirurgicamente, mas a Microsoft não será mais a mesma quando as autoridades tiverem terminado seu trabalho", diz ele. Sua maior arma tecnológica contra a Microsoft é o Java, uma linguagem de computador adequada à Internet. McNealy acredita que chegará o dia em que pequenos programas feitos em Java, circulando livremente na Internet, vão desbancar a Microsoft. Abaixo, a entrevista de McNealy a VEJA.

Veja O primeiro grande processo contra a Microsoft foi iniciado pelo senhor há quatro anos e não deu em nada. A ação judicial de agora vai ser diferente?

McNealy — Acho que agora é para valer. O governo vai finalmente forçar a Microsoft a assumir suas responsabilidades como monopolista. Empresas monopolistas têm de operar sob regras diferentes das demais. A Sun e outras empresas do Vale do Silício trabalham sob a disciplina do mercado, que nos pune quando a desobedecemos. Se nós tentamos empurrar produtos ou serviços que nossos clientes não querem ou não precisam, eles reagem e, simplesmente, nos mandam passear. A Microsoft escapa dessa lei econômica. Ela está protegida contra a competição e fora do alcance da influência de seus clientes. Ninguém tem força para mandar um monopolista plantar batatas. Pelo que sei, as autoridades estão decididas a não largar do pé da Microsoft até que a empresa altere seu comportamento predador no mercado de alta tecnologia.

Veja Bill Gates defende-se com o argumento de que nesse negócio de computadores toda liderança é frágil. O que o senhor acha disso?

McNealy — Larry Ellison, da Oracle, costuma dizer que a Microsoft é contra a humanidade. Concordo com ele. Gates trabalha contra a inovação e, portanto, contra um mundo melhor. Claro que Bill Gates não pode aceitar ser visto como monopolista, pois isso implicaria submeter-se às regras que controlam os monopólios neste país. Ele prefere continuar fazendo seus negócios em completo desrespeito às leis dos Estados Unidos da América.

Veja Mas ele não tem razão quando diz que programa de computador não é igual a petróleo e, portanto, não podem valer para ele as mesmas leis que desmancharam o monopólio da Standard Oil (Esso) no início deste século?

McNealy — Eu não era nascido naquela época. O que posso dizer é que se uma empresa tem uma fatia de mercado de 90% a 95% ela constitui um monopólio. Isso vale para petróleo e para programas de computador. Não há dúvida. No caso específico da Microsoft, a coisa é bem mais grave. Com toda a certeza existem atualmente mais computadores dependentes de produtos dela do que carros que consumiam gasolina da Standard Oil. A Microsoft tem um monopólio maior do que foi o da Standard Oil. Na verdade, Gates detém o maior monopólio que já existiu na história do capitalismo. Ele está em todo lugar ao mesmo tempo. Isso deveria apavorar as pessoas. Agora, finalmente, o governo americano reagiu e decidiu defender os direitos dos cidadãos contra a Microsoft.

Veja O senhor chegou a sugerir que o governo comprasse os direitos do Windows 95 para, em seguida, torná-lo de domínio público. Ainda defende essa proposta?

McNealy — Não. Acho que hoje existem remédios melhores para forçar a empresa de Gates a realmente começar a inovar-se e, mais ainda, não barrar as inovações dos outros. A Microsoft fabrica programas que, do ponto de vista puramente técnico, são muito atrasados e vendem muito somente porque têm o monopólio do sistema operacional Windows a sustentá-los. O processador de palavras deles, o Word, é um monstro que precisou de 10 milhões de linhas de código para ser escrito.

Veja Mas qual a relevância disso para o usuário final?

McNealy — Existem diversas desvantagens para o consumidor. Uma é pagar por uma coisa que tem 400.000 utilidades quando a imensa maioria das pessoas usa no máximo trinta. A outra é que esses programas têm de ser atualizados muito freqüentemente e isso custa ainda mais ao usuário. No ano que vem surgirá uma versão diferente, no ano seguinte a mesma coisa, até o final dos tempos. E por que as pessoas seguem comprando esses produtos assim mesmo? Porque elas não têm escolha. Ora, a ausência de escolha é o que define um monopólio. Tem de existir uma saída para esse estado de escravidão a que a Microsoft submete seus clientes. A saída óbvia, a meu ver, é a Internet e as redes locais, os chamados networks. Daí a ferocidade de Gates em querer dominar a rede mundial de computadores. A manutenção de seu império depende disso.

Veja Como a Internet opera contra a Microsoft?

McNealy — De várias maneiras. A Internet trabalha basicamente com linguagens e programas muito pequenos e eficientes e, por definição, quase sem custo, como o HTML, o Java e o ASCII. Com os programas representados por essas três siglas você pode construir documentos e páginas belíssimas na Internet, escrever textos, receber e enviar e-mails sem a menor necessidade das complicações impostas pela Microsoft. Por isso a empresa de Gates não suporta a idéia de que mais e mais pessoas entrem e utilizem a Internet sem a intermediação dos produtos dela. A Microsoft está atualmente tentando apoderar-se da rede mundial e torná-la um apêndice de seus interesses comerciais. Algo equivalente a patentear a língua inglesa ou a portuguesa e depois cobrar royalties de todo mundo que escrever ou falar esses idiomas. Toda empresa interessada em cortar custos e aumentar a produtividade deveria proibir seus funcionários de gerar e arquivar textos usando o Microsoft Word.

Veja Por quê?

McNealy — Porque a chance de que esse documento não possa ser lido por outro computador é muito grande agora e será maior ainda no futuro. Um texto em Word muitas vezes não pode ser lido nem por outro computador equipado com o programa da Microsoft. É muito complicado. O ideal é produzir e arquivar o documento usando ASCII ou HTML. Com isso, o autor garante que o documento poderá ser lido por qualquer tipo de computador, seja um PC, um Macintosh ou uma máquina maior, os mainframes. Além disso, um documento que em HTML não precisa mais do que 256 bits para ser preparado para viajar via Internet em Word consumiria 90000 bits, o que o torna muito mais demorado e caro para trafegar na rede.

Veja As soluções que o senhor propõe, especialmente as baseadas no Java, a linguagem universal de computadores que a Sun patenteou, não criariam um outro monopólio?

McNealy — Não. Existem de 700.000 a 1 milhão de programadores em todas as partes do mundo atualmente criando soluções na linguagem Java. Muitos deles estão no Brasil. Eles não nos pagam um centavo sequer de royalties, não prestam conta do que estão fazendo com nosso produto e nós não vamos atrás deles, não os processamos nem ganhamos dinheiro com Java. A diferença da filosofia de Gates para a nossa é a mesma que existia entre Moscou e Nova York, ou entre Pequim e Hong Kong, ou entre a Coréia do Sul e a Coréia do Norte. Ele tem na cabeça a idéia de uma economia fortemente planejada e centralizada. Nossa filosofia é totalmente diferente. Não queremos dominar o mercado. Só não podemos deixar que uma idéia fenomenal como a de uma rede internacional de computadores, livre e solta, seja dominada por uma única empresa.

Veja Como o senhor explica o alto conceito de que a Microsoft desfruta atualmente entre seus clientes?

McNealy — Quando você é muito rico pode pagar organizações de pesquisa para escrever uma porção de coisas positivas sobre sua empresa e seus produtos. Você pode encher de anúncios as revistas de negócios. Quando você é podre de rico, as pessoas o idolatram e assumem que você está sempre certo. Mas eu penso diferente. Tenho lido estudos muito sérios que mostram que o custo de manutenção de um computador pessoal numa empresa varia de 40.000 a 60.000 dólares no decorrer de sua vida útil de cinco anos. Por que isso ocorre? Porque quando os computadores pessoais, os PCs, que a empresa comprou começam a se estabilizar e a pagar o investimento alguém lança um chip mais poderoso. Logo a Microsoft lança uma versão que roda melhor no novo chip e a gastança recomeça. Esse processo não tem fim.

Veja Mas não é esse o caminho normal de modernização das empresas?

McNealy — Esse é um processo, mas não é o único e, com certeza, não é o ideal. Minha filosofia é diferente. Sempre achei que o mais importante é ter máquinas baratas, simples, mas eficientes ligadas em rede. No fundo, a rede, o network como dizemos, é o computador. Os melhores analistas descobriram que de nada adiantou encher as fábricas e escritórios dos Estados Unidos de PCs nos anos 80. A produtividade naquela década e no começo desta se manteve estável e até caiu um pouco. Só começou a subir quando os computadores foram ligados em redes locais e na Internet. Pode ser coincidência, mas a enorme produtividade da economia japonesa começou a declinar na exata medida em que os PCs se popularizaram por lá. Os PCs baseados nos chips Intel e no sistema operacional da Microsoft são, no fundo, aparelhos que atrapalham a vida normal das empresas. São máquinas complicadas que precisam ser desligadas e religadas a toda hora, têm problemas de discos, de incompatibilidade de programas. Um atraso de vida.

Veja As vendas de PCs, especialmente no Terceiro Mundo, continuam subindo vertiginosamente...

McNealy — Desculpe-me a ironia, mas se os usuários de países como o Brasil quiserem continuar gastando pequenas fortunas a cada ano para comprar versões mais novas dos chips Intel e dos programas da Microsoft eu, como americano, vou gostar muito. Vocês vão continuar injetando dinheiro nessas empresas, ajudando os donos delas a se tornar cada dia mais escandalosamente ricos. Quando eles morrerem, o imposto sobre herança vai comer boa parte da poupança deles e ajudar a modernizar os aeroportos, as estradas e as escolas dos Estados Unidos. Meus dois filhos, que talvez por isso possam até viver num país totalmente sem débito, vão ficar muito agradecidos aos brasileiros.

Veja Mesmo que os usuários concordem com o senhor, eles não podem hoje simplesmente entrar numa loja e comprar um computador simples e barato como o da sua proposta, não é?

McNealy — Não podem porque não têm escolha agora. Isso é justamente o quero demonstrar. O universo Microsoft não deixa alternativa ao usuário de computadores pessoais. Por isso a batalha do governo americano contra a empresa de Gates é tão vital. Algumas empresas, a meu ver mais racionais, estão apostando muito mais nas redes do que nos PCs. Ainda estamos no começo dessa virada, mas acredito que muito em breve veremos mais e mais empresas operando seus negócios em redes abertas e não penduradas em PCs que custam fortunas para manter. Pela nossa experiência na Sun, uma empresa de 9 bilhões de dólares, os PCs não fazem falta alguma. Eles acabam sendo brinquedos que os diretores e gerentes compram e distribuem nas salas pensando que estão modernizando a empresa. Se distribuíssem videogames Nintendo ou Sega o efeito seria rigorosamente o mesmo.

Veja O senhor não está sendo muito radical?

McNealy — De modo algum. Se todas as redes de computadores do planeta fossem desligadas no mesmo instante teria chegado o dia em que a Terra pararia. Os aeroportos não funcionariam, as bolsas entrariam em colapso e os hospitais ficariam vulneráveis. Por outro lado, se fosse possível proibir o uso durante um dia inteiro em todo o mundo do programa Microsoft Office, por exemplo, esse dia seria lembrado como um dos mais produtivos do século. No fundo, nenhum funcionário precisa de um programa com 400.000 utilidades. Mas como foi o patrão que botou aquilo ali na mesa, ele acaba achando que tem de aprender como usar todos os milhares de funções. É uma perda de tempo enorme. Um desvario no qual o mundo moderno está metido e do qual só poderá sair se o monopólio da Microsoft for quebrado.

Veja Como o senhor enxerga o futuro das atuais tecnologias?

McNealy — Embora isso pareça distante atualmente, acredito firmemente que o computador do futuro nas casas e empresas será um aparelho simples, barato, que não exija nem manutenção nem atualizações anuais caras, e, com toda a certeza, estará ligado a uma rede. Os programas de texto, de cálculos, de planejamento e outros estarão disponíveis nas redes para quem quiser usar a um custo mínimo, quando não totalmente gratuitos. O atual sistema Wintel, ou seja, computadores Windows com chips Intel no seu interior, é absurdo. Se um esquema parecido com o Wintel prevalecesse, por exemplo, na telefonia, na iluminação pública e no sistema de transporte estaríamos em apuros. Para ter eletricidade em casa seria preciso construir uma usina nuclear no porão. Quem quisesse gasolina teria de cavar seu próprio poço de petróleo e montar sua refinaria. O mundo não caminha para a complexidade, mas para a simplicidade. Os telefones, os automóveis e até as geladeiras atualmente dependem de chips para funcionar. Nem por isso se tornaram mais complexos. Por esse motivo acredito que, antes do que se espera, os PCs, como os que conhecemos hoje, terão se tornado insignificantes em nossa civilização.




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