Especial
A
dor, o medo… e os números
Marcos
D'Paula/AE
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Perdas
irreparáveis Culto ecumênico
na Igreja da Candelária, no Rio de Janeiro, na semana passada, em memória
das vítimas do voo AF 447 |
Nada do que se vai ler aqui consola quem
perdeu um filho, o pai, a namorada, o marido ou toda a família na queda
do Airbus da Air France que fazia o voo 447 entre o Rio de Janeiro e Paris no
domingo passado. O que vai pelas próximas doze páginas procura mostrar
que os mais espetaculares avanços tecnológicos, as expectativas
e ambições mais justas, as apostas de vida e carreira mais acertadas,
os relacionamentos mais recompensadores podem desaparecer em questão de
minutos. Mostra também que para os que ficam se inicia uma repentina e
não planejada jornada interior em busca de uma explicação
para suas perdas, algo que vai levá-los a questionamentos e a incursões
cada vez mais profundas nos labirintos da alma onde moram a religiosidade, o afeto
e as lembranças indeléveis, tudo o que humaniza e dá sentido
à vida.
No mundo exterior dos
familiares das vítimas começa também a frenética e
disciplinada busca dos corpos e das partes do avião que possam ser estudadas
para reconstituir a tragédia e evitar que ela se repita. As pessoas voam
por necessidade, comodidade, por prazer e pela segurança proporcionada
por esses canudos de alumínio impulsionados por turbinas alimentadas a
querosene capazes de levar uma massa de 200 toneladas à velocidade de 900
quilômetros por hora. Em um dia qualquer, 13 milhões de pessoas cortam
os céus do planeta a bordo de jatos comerciais. Essa metrópole voadora
só perde em população para Mumbai e Xangai. Os números
mostram que esses 13 milhões de terráqueos voadores estão
mais seguros do que os pedestres parados em uma esquina noturna do Rio de Janeiro,
de São Paulo, atravessando a rua em Nova York, ou, como gostam de lembrar
os pilotos, eles correm menos riscos do que um pacato apicultor, já que
mais pessoas morrem a cada ano vítimas de picadas de abelhas do que em
desastres aéreos.
Ocorre que
a dor e o medo são processados em áreas do cérebro bem distantes
daquelas que analisam os números. E, mesmo informados de que o acidente
do AF 447 é o primeiro naquela rota em sessenta anos, os passageiros continuarão
tendo medo de voar, a estremecer de pavor durante as turbulências e a rezar
para que os pilotos lá na frente evitem aquele trecho de tempestades fatídicas
do céu sobre o Oceano Atlântico.