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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Do fracasso à
humilhação
Com a
questão da Bolívia, a
política externa do governo
Lula
desceu a seu ponto mais baixo
Uma instalação
brasileira foi tomada manu militari por um governo estrangeiro,
pela penúltima vez, no distante 12 de novembro de 1864, quando
o governo paraguaio apreendeu o navio brasileiro Marquês
de Olinda. Deu em guerra. A última vez ocorreu na segunda-feira,
1º de maio, quando o governo de Evo Morales despachou tropas
para ocupar os campos de gás da Petrobras na Bolívia.
Deu numa nota em que o governo brasileiro afirma reconhecer a decisão
boliviana como "ato inerente à sua soberania".
Não. Não se está
dizendo que, à semelhança do governo imperial brasileiro,
o governo Lula devesse enviar seus Urutu ao altiplano boliviano.
Mesmo porque a subida é íngreme, as curvas no caminho
são perigosas e o ar rarefeito que se respira por lá
costuma tontear os forasteiros. Mas a evocação daquele
outro momento histórico serve para enfatizar a enormidade
que é recorrer à ocupação militar, ainda
que simbólica, ainda que sem disparar um tiro, numa disputa
com outro país. Se não é ato de guerra, é
um gesto de hostilidade profunda. Em resposta, o governo Lula apresentou
uma das reações mais tíbias, tímidas
e tatibitates já produzidas pela diplomacia brasileira. Com
isso, pôs em campo uma nova modalidade de reação
aos desafios externos a política de oferecer a outra
face. Eis no que resultou a política externa "altiva" que
o governo do PT julga ter implantado.
Poucos governos brasileiros ostentaram
tanta exuberância em sua política externa. Não
bastou, ao presidente operário, ter realizado o sonho de
virar presidente. Imaginou-se um líder para o continente,
talvez até para o mundo, ao qual ensinaria o caminho de relações
mais equitativas. Amparava-o, no devaneio, um Itamaraty cheio de
ardor terceiro-mundista. Para os vizinhos mais próximos,
Lula e o Itamaraty imaginaram uma Comunidade Sul-Americana de Nações
que, juntando o Pacto Andino e o Mercosul, as duas estruturas supranacionais
já existentes, uniria os Estados associados em torno de uma
moeda, um passaporte e um Parlamento comuns. A Comunidade Sul-Americana
foi lançada numa reunião em Cuzco, realizada sob inspiração
brasileira, em dezembro de 2004. Em abril do ano seguinte, num de
seus arroubos característicos, Lula diria: "Eu tenho a convicção
de que o que nós fizemos na América do Sul nesses
dois primeiros anos foi um avanço maior do que o que foi
conquistado nos últimos quarenta ou cinqüenta anos".
O panorama da América
do Sul, hoje, é de luta de todos contra todos. O Pacto Andino
se desfaz nas brigas entre a Venezuela, de um lado, e o Peru e a
Colômbia, de outro. O Mercosul, que já vinha cambaleante
em razão das eternas querelas entre Brasil e Argentina, sofre
agora a ameaça de retirada do Uruguai, para assinar tratado
de livre-comércio com os Estados Unidos. Lula, coitado, que
imaginou ser o natural condutor do processo sul-americano, virou
cego no meio de tiroteio. O fracasso no continente soma-se ao de
conquistar uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU, ao
de estabelecer relações privilegiadas com a China
e a Índia e a tantos outros que fazem da diplomacia de Lula
uma campeã de trapalhadas.
Na semana passada mudamos de
patamar. Não é mais de fracasso que se trata, mas
de humilhação. O secretário-geral e ideólogo-mor
do Itamaraty terceiro-mundista, o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães,
esteve na Bolívia nas vésperas da investida de Evo
Morales. Não lhe contaram nada. Também não
contaram nada a Lula. Seguiram-se a ocupação militar
e a pífia nota brasileira. Para culminar, uma reunião
quadripartite arranjada às pressas e realizada na quinta-feira
terminou com os presidentes Lula, Hugo Chávez, Néstor
Kirchner e Evo Morales com as mãos juntas, umas em cima das
outras, Lula e Evo Morales lado a lado, mão na mão,
o presidente brasileiro posando de amiguinho daquele que dois dias
antes tomara militarmente instalações de uma empresa-símbolo
do Brasil. Lula oferecia mais que a mão. Entregava a outra
face.
Por falar em Guerra do Paraguai...
Para azar dos bolivianos, Evo Morales tem um traço em comum
com Solano López, o caudilho que arrastou seu país
àquela conflagração. Não, não
é que ambos sejam líderes "antiimperialistas", segundo
uma tola fantasia criada nas últimas décadas em torno
do presidente paraguaio, na verdade um tiranete vulgar, que tipicamente
administrava o país como um fazendão particular, degolava
os generais de que desconfiasse e mandava meninos de 10 anos para
as batalhas. O que os une é a vocação suicida.
López julgou que podia estender seus domínios aos
vizinhos Brasil e Argentina. Levou seu país à ruína
e acabou morto. Evo Morales escolheu hostilizar o único comprador
possível de sua maior riqueza natural. O que vai provocar
de mais duradouro no Brasil é a corrida pelas alternativas
a seu gás. A curto prazo, pode até conseguir aumento
de preço. A longo prazo, arrisca ficar sem outra utilização
para seu produto senão queimá-lo em bonitos espetáculos
pirotécnicos ou encher balões.
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