Edição 1955 . 10 de maio de 2006

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Televisão
Silvio que se cuide...

...porque a Record está perto de se
tornar a vice-líder absoluta. Ela tem
o que falta ao SBT: um plano de vôo


Marcelo Marthe

NESTA REPORTAGEM
Quadro: A luta da Record pelo segundo lugar

Na segunda-feira passada, Silvio Santos promoveu, pela enésima vez, uma dança das cadeiras na programação de sua emissora. A novelinha mexicana Rebelde passou das 8 da noite para as 7. O telejornal SBT Brasil sofreu sua terceira mudança desde a estréia, há nove meses. Agora – ou até o próximo arroubo – vai ao ar às 8. Em tempo: semanas antes, Silvio chegou a manifestar seu desejo de colocá-lo mais cedo, mas desistiu quando a apresentadora Ana Paula Padrão teve um chilique. Para completar (ou não), o empresário fez a quarta alteração de horário, em pouco mais de um mês de existência, da vetusta gincana musical Rei Majestade: ao contrário do que ocorreu na outra semana, ela não foi exibida na segunda-feira. A inconstância de Silvio faz parte do folclore da televisão e, por muito tempo, foi a arma com a qual ele se aproveitou das brechas na programação da Rede Globo para ampliar sua audiência. Mas essas flutuações ganharam jeito de desespero. A Rede Record caminha para arrancar do SBT o segundo lugar na audiência do horário nobre. Essa é a faixa que concentra a massa dos espectadores e também do faturamento publicitário. Na medição nacional do Ibope, a Record ampliou sua média nesse horário de 6 para 8 pontos entre janeiro e abril de 2005 e no mesmo período deste ano. Já o SBT caiu de 10 para 8 pontos – o que garantiu à Record um empate inédito. Na Grande São Paulo, o panorama para a TV dos bispos é ainda mais favorável: já virou rotina ela ganhar do SBT de segunda a sábado.

Os trunfos da Record são aquilo que falta ao SBT: ambição e disciplina. Em vez de mirar no curto prazo, como faz Silvio, a emissora usa de paciência e pensa grande. A ordem é ser uma cópia da líder Globo – mas dentro dos parâmetros da Igreja Universal do Reino de Deus, sua proprietária. Avalia-se no mercado que a entidade aplicou pelo menos 240 milhões de reais na rede nos últimos doze meses, por meio da compra de horários durante a madrugada. Tanta boa vontade, entretanto, não serviria para muita coisa se a Record não tivesse um plano de vôo. A rota que ela busca seguir é a mesma que, nos anos 70, fez da Globo um gigante: criar uma grade de programação integrada, em que cada atração alimenta o ibope da outra. A Record também não descuida do marketing. Quando nem sequer chegava perto da vice-liderança, já vendia a imagem de que brigava pelo primeiro lugar com a Globo. O SBT pode até ser eficiente nas táticas de guerrilha, mas carece de uma estratégia. Mesmo quando emplaca um sucesso como o atual Ídolos, não dá continuidade ao fenômeno. "A Record está decolando, enquanto o SBT dá a impressão de que está perdido e pode aterrissar a qualquer momento", avalia um publicitário.

Dos cinco pilares da programação de uma rede de TV aberta – a teledramaturgia, o jornalismo, os esportes, os filmes e os programas de variedades –, a Record já leva vantagem em três (veja o quadro). Os esforços se concentram na teledramaturgia, que recebeu 200 milhões de reais em investimentos e se tornou seu cartão de visita. O SBT ativou e desativou várias vezes seu núcleo de novelas e hoje praticamente se limita a retransmitir folhetins mexicanos. É verdade que colhe sucessos esporádicos, como Rebelde, mas o problema é que o público brasileiro se acostumou ao padrão das novelas da Globo, agora copiadas pela Record. Em apuros no horário nobre, o SBT apostará suas fichas numa refilmagem da venezuelana Cristal. À sua moda, como sempre: o projeto foi reformulado às pressas, e o diretor Herval Rossano (que, por ironia, montou a área de dramaturgia da concorrente) mudou boa parte do elenco, jogando fora muito do que já havia sido filmado. A estréia de Cristal, antes prevista para maio, poderá ficar só para depois da Copa do Mundo, e o clima nos bastidores não é dos melhores. Reclama-se na equipe que a atriz Mayara Magri, mulher e assistente de Rossano, está botando as manguinhas de fora com mais desinibição do que seria recomendável para uma primeira-dama.

A parte mais vistosa do investimento da Record em suas novelas é a contratação de rostos conhecidos. Seu time de 130 artistas inclui nomes como Lavínia Vlasak e Paloma Duarte. E, assim como a Globo, ela procura explorá-los em outras atrações da casa. O SBT conquistou atores como Dado Dolabella para seu novo folhetim, mas seu elenco hoje tem gente que é mais problema do que solução. É o caso do apresentador Ratinho, que ganha 18 milhões de reais por ano e teve seu programa mudado de horário e formato várias vezes por causa do ibope pífio. (Ele deveria estrear um novo nesta segunda-feira à noite. Deveria. Se vai estreá-lo ou não é outra história.) Diante do assédio da concorrente, os únicos bastiões do SBT são hoje as manhãs e as tardes, que não enchem o bolso de ninguém, e os domingos, graças a Gugu Liberato (que, é bom lembrar, apanha todas as semanas do Domingão do Faustão). O sucesso recente de Ídolos sugere que a emissora de Silvio Santos ainda tem fôlego para reagir. Mas, se não passar a usá-lo com algum critério, vai morrer antes de chegar à praia.

 
 
 
 
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