|
|
Perfil O
Walt Disney do século XXI À
frente do estúdio Pixar, o americano John Lasseter é a mente
criativa que revolucionou a animação
 Marcelo
Marthe, de São Francisco Fotos
divulgação
 |  | | Lasseter,
com a camisa havaiana de praxe, e uma cena de Carros: o próximo
desafio é levantar a Disney |
Em meados dos anos 80, o americano
John Lasseter fez uma aposta arriscada. Animador recém-formado, ele tinha
aquilo que qualquer profissional da área ambicionava: um emprego nos estúdios
Disney. Mas, seduzido por uma novidade em que poucos botavam fé
a animação digital , ele se bandeou da empresa número
1 do setor para um ateliê que dava os primeiros passos no uso do computador
para produzir desenhos. Era, de fato, um negócio de visionários:
logo esse estúdio incipiente se tornaria propriedade de um certo Steve
Jobs, um empreendedor que fora demitido da companhia que ele próprio fundara
(uma certa Apple) e tentava superar seu inferno astral. Vista em retrospectiva,
a manobra de Lasseter foi uma tacada de mestre. Jobs recuperou com estrondo o
controle da fabricante de computadores Apple, e a Pixar, aquele outrora pequeno
estúdio cuja área criativa Lasseter dirige desde então, é
hoje a principal usina de animações do mundo: já produziu
seis longas-metragens que faturaram 3,2 bilhões de dólares na bilheteria
mundial. A presença de Lasseter foi fundamental para a Pixar se tornar
essa potência. Ninguém personifica melhor do que ele a revolução
por que passou o mundo da animação nos últimos anos. Lasseter
dirigiu o primeiro sucesso do estúdio, Toy Story (1995), um divisor
de águas a partir do qual o formato digital passou a ditar as tendências.
Mesmo quando ele se abstém de dirigir, é sua visão arrojada
que norteia produções como Monstros S.A. e Os Incríveis.
É por isso que ele tem sido chamado de "o Walt Disney do século
XXI". Aos 49 anos, Lasseter vive um
momento especial. Ele está de volta à companhia em que começou
sua trajetória mas como chefão. Em janeiro, depois de anos
assolada por uma crise criativa que a tornou perigosamente dependente das produções
da parceira Pixar para fechar seus balanços, a Disney achou uma forma de
resolver o problema: comprou sua galinha dos ovos de ouro, numa operação
de 7,4 bilhões de dólares. Pelo acordo, Steve Jobs passou a ser
seu principal acionista individual e Lasseter assumiu o comando da área
de animação da empresa, além de continuar dando as cartas
na Pixar. "Há talentos excepcionais na Disney, mas eles andavam sufocados
pelo jogo político da corporação. Minha prioridade será
proporcionar-lhes um ambiente de liberdade criativa como o que temos aqui", disse
Lasseter a VEJA na sede da Pixar em Emeryville, na Califórnia (leia
entrevista). Trata-se
de um momento especial também por outro motivo: depois de sete anos supervisionando
o trabalho de seus pupilos, Lasseter está de volta à direção,
e o faz com seu projeto mais pessoal até hoje. Carros, que estréia
nos cinemas brasileiros em 30 de junho, carrega muito da sua nostalgia dos tempos
de infância, quando ele ajudava o pai numa concessionária da Chevrolet
em Los Angeles. Além disso, a fábula se inspira, em boa medida,
numa experiência de autodescoberta vivida por Lasseter no fim dos anos 90.
Em Carros, Lightning McQueen, o carro de corridas que protagoniza a história
(e homenageia, com seu nome, o astronauta Buzz Lightyear de Toy Story e
o astro Steve McQueen, de filmes como Bullitt), perde-se numa viagem
rumo à decisão de um campeonato e é obrigado a passar uma
temporada numa cidadezinha esquecida ao longo da Rota 66. A lendária rodovia
foi uma ligação importante entre o interior e a Costa Oeste dos
Estados Unidos, mas, depois da construção das auto-estradas, passou
a subsistir apenas como objeto de culto de aventureiros. Com os habitantes do
lugarejo que incluem um ex-campeão de velocidade e um divertido
caminhão de ferro-velho , McQueen aprende que, por mais que se lute
para realizar uma ambição, não se pode deixar de viver a
vida por causa dela. No fim dos anos
90, depois de emendar trabalhos em várias produções da Pixar,
Lasseter se viu em situação semelhante à do personagem. "Um
dia percebi que, se eu não tomasse cuidado, a infância de meus filhos
passaria sem que eu a tivesse aproveitado." No verão de 2000, ele cedeu
aos apelos de Nancy, sua mulher: tirou dois meses de férias e rodou os
Estados Unidos de costa a costa com ela e os cinco filhos. A viagem uniu a família
e mostrou a Lasseter que havia vida além dos prazos e metas de seus projetos.
"Eu já vinha trabalhando no roteiro de Carros, mas foi só
ali que entendi qual seria a sua mensagem."
Lasseter é uma figura que não faria feio como personagem de seus
filmes. Bonachão, não abdica por nada de suas extravagantes camisas
havaianas, e seus olhos brilham diante dos brinquedos inspirados em seus filmes.
"Não raro, me pego conversando com eles", diz. A própria Pixar,
aliás, foi moldada à imagem e semelhança de seu líder.
Num ambiente de trabalho radicalmente informal, os funcionários se deslocam
sobre patinetes e até o faxineiro palpita nos filmes. A idéia é
que esse clima espontâneo contribua para que as pessoas expressem sua criatividade
a principal matéria-prima de uma animação. "A tecnologia
é importante, mas o fundamental num filme continua sendo o ingrediente
que Walt Disney tanto prezava: uma boa história", diz o animador. O entusiasmo
pela criação coletiva, no entanto, tem limites. "Não sou
o novo Walt Disney", declarou ele certa vez. "Sou, isso sim, o primeiro John Lasseter."
"Ninguém vai canibalizar a
Pixar" Divulgação
 | | Lasseter:
ele bate papo com os brinquedos |
DESDE
O LANÇAMENTO DE TOY STORY, A ANIMAÇÃO MUDOU MUITO.
ISSO FOI EFEITO SÓ DA EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA OU O GOSTO
DO PÚBLICO TAMBÉM JÁ NÃO É O MESMO?
A tecnologia virou a desculpa dos estúdios e dos maus animadores para o
fracasso de suas produções. Tudo que o público quer é
consumir um bom filme. Não importa como ele foi feito. Por isso, discordo
de muita gente em Hollywood que acha que só vale a pena investir na animação
digital. Por que desprezar as técnicas tradicionais, como as que a Disney
consagrou? A chave é o roteiro. QUAL
O SEGREDO PARA FAZER HISTÓRIAS QUE AGRADEM A CRIANÇAS E ADULTOS?
Para chegar a esse equilíbrio, seguimos dois mandamentos. O primeiro é
nunca fazer um filme com o qual nós mesmos não sejamos capazes de
nos divertir. O segundo é nunca menosprezar a inteligência das crianças.
Elas são espertas o suficiente para fugir de tudo que seja vendido como
"ideal para o público infantil". Toda boa animação precisa
conter uma mensagem universal. Carros, por exemplo, fala sobre o valor
da família e dos amigos. As crianças podem não compreender
a mensagem na mesma profundidade que os pais, mas são tocadas por ela.
O SENHOR COMEÇOU
NA DISNEY E, GRAÇAS À COMPRA DA PIXAR PELA EMPRESA, ESTÁ
DE VOLTA AGORA NO COMANDO. O QUE FAZER PARA O ESTÚDIO RETOMAR A
VELHA FORMA? Aplicarei lá a mesma política que vigora na
Pixar: estimular a liberdade criativa e enfatizar a qualidade acima de tudo. Um
estúdio que se pretenda grande não pode ter como meta a quantidade
nem o lucro a curto prazo, como vinha ocorrendo na Disney. No mundo dos negócios,
não há estratégia melhor do que ser bom.
COMO RENOVAR A DISNEY SEM PREJUDICAR A PIXAR? O
acordo se norteou por um ponto: proteger a Pixar a todo custo. O objetivo é
salvar a Disney, mas não deixaremos que a Pixar seja canibalizada. Um exemplo:
eu assumirei a direção criativa da Disney, mas ninguém será
tirado da Pixar para trabalhar lá. QUANTO
HÁ DE JOHN LASSETER EM LIGHTNING MCQUEEN, O PROTAGONISTA DE CARROS?
McQueen é uma metáfora das pessoas que se programam para atingir
um objetivo e relegam tudo o mais em sua vida ao segundo plano. Durante muito
tempo fui assim. Mas redescobri o prazer de aproveitar o tempo livre e fazer parte
de uma família. O
SENHOR SE DIVERTE COM OS BRINQUEDOS DE SEUS FILMES? É claro. As
pessoas costumam se interessar por brinquedos até os 14 ou 15 anos e depois
passam a achá-los uma bobagem. Eu nunca parei de brincar. Não tenho
vergonha de dizer: amo os brinquedos e converso com eles. | |
|