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Diogo
Mainardi
O mensalão da imprensa
"Lula elogiou publicamente Carta
Capital.
Para ele, a revista não praticava 'o
denuncismo pelo denuncismo' porque
'não se preocupava com o mercado'.
Quem conta com 70% de publicidade do
Banco do Brasil, da Petrobras e da Caixa
Econômica Federal realmente pode
ignorar o mercado e os leitores"
O mensalão não é
só para deputados. Há também o mensalão
da imprensa. No último número da revista Carta
Capital, quase 70% dos anúncios eram do governo federal.
Lula sempre soube remunerar direito seus aliados. Carta Capital
é o João Paulo Cunha dos semanários. O José
Janene. O Valdemar Costa Neto.
Lula, dois anos atrás,
elogiou publicamente Carta Capital. Para ele, a revista não
praticava "o denuncismo pelo denuncismo" porque "não se preocupava
com o mercado". Quem conta com 70% de publicidade do Banco do Brasil,
da Petrobras e da Caixa Econômica Federal realmente pode ignorar
o mercado e os leitores.
Carta Capital é
de Mino Carta. Não dá para compará-lo a um
João Paulo Cunha, a um José Janene, a um Valdemar
Costa Neto. Ele está muito mais para alguém do porte
de um Professor Luizinho. No fim do ano passado, Mino Carta publicou
uma longa entrevista com Lula, e retribuiu os elogios do presidente,
exaltando seus maiores atributos, como "Q.I. alto, bravura, carisma,
belos propósitos, bom humor e ironia".
Mino Carta costumava se referir
a Lula em outros termos. Em 1994, entrevistado pela revista Interview,
ele declarou o seguinte: "O principal defeito de Lula é a
laborfobia. Lula não é suficientemente aplicado. Ele
teve tempo para aprender algumas coisas e não o fez. Por
exemplo, a falar melhor, a organizar seu raciocínio de forma
sintaticamente mais consistente. Isso teria implicado leituras,
estudo. Mas, a julgar pelo Lula que está aí hoje,
ele não se aplicou. O melhor mesmo para ele é bater
uma caixa no bar da esquina tomando uma pinga com cambuci".
Mino Carta se aproximou de Lula
apenas na campanha eleitoral de 2002, por meio do consultor Antoninho
Marmo Trevisan. O mesmo Trevisan que intermediou a venda da empresa
do filho de Lula à Telemar. O mesmo Trevisan que foi contratado
para sanear as contas do PT. O mesmo Trevisan que prestou assessoria
à CUT. O mesmo Trevisan que repassou trabalhos aos sócios
de Luiz Gushiken. O mesmo Trevisan que selecionou o banco BMG para
oferecer o crédito consignado.
Carta Capital tem praticamente
a mesma tiragem que a revista do acupunturista de Geraldo Alckmin,
mas seu peso político é muito maior, assim como seu
faturamento publicitário. Os anúncios das estatais
deram o resultado esperado. No último ano, Carta Capital
tentou ajudar a aplacar a crise. Uma de suas estratégias,
seguida por todos os blogueiros lulistas, foi acompanhar o termo
"mensalão" por alguma atenuante como "suposto", "pretenso",
"enredo embolorado", "jogo sujo", "denúncia frágil"
e "sem provas cabais".
O melhor argumento que os lulistas
encontraram para desmentir o mensalão também apareceu
em Carta Capital, numa entrevista de Wanderley Guilherme
dos Santos. Ele disse: "É uma denúncia genérica.
Há pagamentos mensais feitos pelo tesoureiro do partido etc.
etc.". Gilberto Gil, algumas semanas depois, sempre em Carta
Capital, adotou o mesmo bordão: "Mensalão, caixa
dois etc. são da prática do mundo". Os etc. etc. dos
lulistas encobrem mais da metade do Código Penal.
Lula venceu. O mensalão
dos deputados e da imprensa foi esquecido. O que resta agora aos
leitores é bater uma caixa no bar da esquina tomando uma
pinga com cambuci.
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