Edição 1955 . 10 de maio de 2006

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Entrevista: Ronaldo
"Eu sou um sortudo"

O atacante da seleção diz que
não inveja quem ganha mais do
que ele, como Ronaldinho Gaúcho,
e que pode se casar de novo


André Fontenelle, de Madri

Ronaldo Luiz Nazário de Lima tem uma coleção de bons serviços prestados à Seleção Brasileira de Futebol, entre eles os oito gols na última Copa – dois deles na partida final. Mas sabe que nada disso tem valor para a próxima disputa, na Alemanha, daqui a um mês. Aos 29 anos, como já aconteceu em outros momentos de sua carreira, está no centro da teia de dúvidas que enreda os preparativos da equipe. Machucado, deverá ter condições de jogo para ser titular, como quer o técnico Carlos Alberto Parreira, mas não poderá enfrentar um período de preparação muito pesado. Neste ano, não conquistou nenhum título jogando pela valiosa e conturbada equipe do Real Madrid, e na seleção atuou seis vezes seguidas sem fazer um único gol, coisa que não lhe acontecia desde os 18 anos. Parte da imprensa já sugere que sua melhor posição na equipe do Brasil é o banco de reservas. Diante dessas circunstâncias, Ronaldo só espera administrar a pressão representada pela condição de seleção favorita ao título. Na vida pessoal, que já rendeu fofocas de todo tipo, tenta agora manter fechada a cortina da intimidade. Ronaldo, que se considera um sujeito de sorte por ter sucesso fazendo exatamente aquilo de que gosta, falou a VEJA na sala de sua casa em um condomínio exclusivo em Madri.

Veja – Esta será sua última Copa?
Ronaldo – Esta é só a próxima. Continuo jogando enquanto eu me sentir bem e útil. Não posso dizer se em 2010 estarei lá. Não tenho nada programado. Ainda tenho muita vontade de jogar na seleção.

Veja – Há muita gente preocupada com a sua condição física. Você também tem essa preocupação?
Ronaldo – Só fazem críticas quando deixo de fazer gols. Mas sem dúvida eu me preocupo com a parte física. Havia começado o campeonato muito bem, mas tive quatro lesões. Uma delas muito grave, no tornozelo, e as outras leves, mas que me tiraram de jogo por duas ou três semanas cada uma. Esta última (na coxa direita) parou uma seqüência boa de quatro jogos marcando gols. Para a Copa, vamos ter três semanas para nos preparar. O Moraci Sant'Anna (preparador físico da seleção) sabe que a gente está em final de temporada na Europa e que não adianta fazer um treinamento muito forte porque os jogadores estão cansados.

Veja – Seu apelido na seleção é "Presidente", mas você não é um líder do tipo que foi Dunga, por exemplo, em 1994. Não seria esse o papel que se deveria esperar de você?
Ronaldo – A liderança é dividida na seleção. Não é uma liderança imposta. Temos vários líderes: o Cafu, pelo tempo; eu, pela convivência; o Ronaldinho Gaúcho, pela simpatia; o Robinho, com suas brincadeiras... Essas são formas de ser líder. As pessoas me respeitam pela minha história. Comecei na seleção com 17 anos. Há várias maneiras de liderar uma equipe. Minha liderança vem pela amizade. Nós conseguimos uma coisa maravilhosa. Não tem nenhum jogador polêmico dentro do grupo. É um grupo muito fácil, inteligente, que toma as decisões em conjunto. Esse e o de 2002 são os melhores em que eu já estive.

Veja – Ronaldinho Gaúcho se tornou o jogador mais bem pago do mundo. Ganha cerca de 15 milhões de reais por ano a mais do que você. Isso não causa inveja?
Ronaldo – Não, porque não sou eu quem está pagando. Cada um tem seu espaço. Nem ele tira nada de mim nem eu roubei nada de ninguém. Isso é maravilhoso. Tenho orgulho de ser amigo dele. E espero que ele tenha aprendido alguma coisa comigo, com minha estratégia de marketing, com minha maneira de ser, como eu jogo. Para a seleção, todos os jogadores têm a mesma importância. Eu sei da minha importância, assim como o Ronaldinho sabe da dele.

Veja – Você está a três gols de se tornar o maior artilheiro da história das Copas. Dá para garantir que vai quebrar esse recorde?
Ronaldo – No Real Madrid, costumo prometer um número de gols para toda a temporada. Mas na Copa são só sete jogos. Acho que posso marcar os três gols. Mas já tem pressão demais em cima da gente. Toda essa história de favoritismo. A gente não precisava disso. É uma coisa que pode atrapalhar, e é muito fácil que isso aconteça. Muito desse favoritismo é criado de propósito para botar pressão em cima da gente. É uma grande armadilha, uma grande cilada para cima da seleção.

Veja – O técnico Carlos Alberto Parreira diz que os adversários vão fazer de tudo para que o Brasil não ganhe o hexa. Você concorda?
Ronaldo – Vão. Mas esportivamente. Não acredito em máfia, complô da Fifa, essas coisas.

Veja – Você tem acompanhado os adversários do Brasil na primeira fase do Mundial?
Ronaldo – Sinceramente, só tenho visto clássicos. Não fui atrás nem de Croácia, nem de Japão, nem de Austrália.

Veja – Você fica no Real Madrid depois da Copa?
Ronaldo – Possivelmente. Por enquanto não decidi nada. Ainda tenho dois anos de contrato. Isso não quer dizer que eu não possa chegar amanhã ao Real e dizer que quero ir para o Flamengo. Eu gosto daqui, sou muito feliz aqui. Mas algumas vezes fui muito maltratado no Estádio Santiago Bernabeu, por um setor da torcida que tinha pouca tolerância comigo. É assim desde o primeiro ano. Quando ganhei a Bola de Ouro de melhor jogador da Europa em 2002, e ela foi entregue no estádio, a torcida gritava o nome de outro jogador, o Raúl. Eu me senti muito ofendido naquele momento e tenho mágoa até hoje daquele setor da torcida.

Veja – É verdade que os espanhóis e os brasileiros do time não se dão bem?
Ronaldo – Tenho uma amizade muito boa com os brasileiros do Real e com alguns espanhóis, e uma relação profissional com todos eles. A gente não tem necessariamente de ser os melhores amigos. Mas existe respeito. Fora isso, a amizade é pouca. Eu me dou bem com a maioria, mas principalmente com o Zidane, o David (Beckham), o Sergio Ramos, que chegou agora.

Veja – Por que Vanderlei Luxemburgo não deu certo no Real?
Ronaldo – Porque não teve autonomia. O Real Madrid é um clube muito grande, tem muita disputa de poder. Ele tinha o perfil de técnico ideal. O Brasil não é cinco vezes campeão do mundo à toa. A escola de treinadores brasileira é, estatisticamente, a melhor do mundo.

Veja – Até quando você pretende jogar futebol?
Ronaldo – Não quero passar dos 35 anos jogando. Tenho filho, família, quero viver o dia-a-dia. Pretendo ficar na Europa depois que parar, porque estou muito acostumado com a cultura daqui. Amo o Brasil, amo o Rio, mas não consigo ficar mais de dois meses por lá. Gosto muito da Espanha. O clima, esse sol...

Veja – E o que você vai fazer quando se aposentar do futebol?
Ronaldo – Vou continuar no futebol. Não quero ser treinador porque, depois de quinze anos jogando, voltar a enfrentar concentrações, acho uma loucura. Não agüentaria. Mas mexer com marketing esportivo é uma coisa que me agrada muito. Pretendo também abraçar muitas causas sociais, não parar nunca com as ações humanitárias. Como embaixador da ONU, minha próxima viagem será à Polônia, que é um exemplo de país: alguns anos atrás era muito pobre, todo quebrado, e hoje está na União Européia. No ano passado estive na Palestina. No mesmo dia, visitei o quartel-general palestino e alguns projetos sociais, e de tarde já estava com Shimon Peres (vice-primeiro-ministro israelense). É legal ouvir opiniões diferentes sobre aquele velho conflito. Por alguns momentos a gente conseguiu fazer uma união entre esses dois mundos.

Veja – Você recebe muitas propostas de negócios?
Ronaldo – Muitas, todo dia. Boa, quase nenhuma. Tem todo tipo de coisa. Sempre propõem negócios da China, com rentabilidade de 30% ao ano. A única coisa que precisa é que eu ponha o dinheiro. Na hora de fechar algum negócio o Fabiano (Farah, assessor do jogador) põe tudo na mesa e quem decide sou eu.

Veja – Você mudou muitas pessoas na sua equipe de assessores. Por quê?
Ronaldo – Não mudei tantas pessoas assim. As mudanças foram naturais. Em uma empresa existem mudanças diárias. A estrutura que tenho é praticamente de uma empresa, e tem de funcionar assim. Se os resultados não são atingidos, é preciso trocar as pessoas, e foi o que eu fiz.

Veja – As atividades extracampo não atrapalham o futebol?
Ronaldo – A gente procura fazer, de acordo com as exigências dos patrocinadores, no máximo duas atividades por semana. Hoje sou muito mais organizado. Antes podia marcar com três pessoas ao mesmo tempo e me ferrava. Aprendi que tenho de organizar uma estrutura profissional, sempre visando a uma boa imagem, para que a prioridade seja do futebol.

Veja – Parreira disse que sexo não está proibido durante a Copa. Isso é bom para a seleção?
Ronaldo – Sexo nunca me fez mal em momento algum. Ninguém faz sexo pouco antes do jogo nem é tão ativo a ponto de se comprometer fisicamente. Isso é um tabu que tentam associar ao futebol. Quando o Real joga em casa, não existe concentração. Se a minha namorada está aqui, a possibilidade de ter sexo é grande. Mas isso não cansa ninguém.

Veja – Você fez sexo entre os jogos da última Copa?
Ronaldo – Em 2002 a gente ficou o período todo sem sexo. Não era uma imposição do Felipão. Era falta de oportunidade mesmo. Mas para ganhar a Copa do Mundo qualquer sacrifício era válido.

Veja – O que representam as mulheres na sua vida?
Ronaldo – Depende do momento. Agora eu estou namorando firme. Estou há onze meses junto com a Raica. Evito falar da minha relação. Já falam tanto sem eu dizer nada, imagine se eu falasse. Eu sou homem, tenho minhas necessidades e meus sentimentos, como qualquer outro. Em uma mulher eu procuro respeito, procuro sentimento...

Veja – Você se considera sedutor?
Ronaldo – Não me considero nada sedutor. E não sou de testar meu potencial nesse campo. Estive casado por quatro anos. Todas as minhas relações sempre tiveram uma duração razoável. Nunca levei muitos foras porque também não costumo tomar a iniciativa, não. Não sou aquele cara desesperado, de ir atrás. Curto mais uma relação séria do que ficar por aí pegando mulher.

Veja – A fama compromete sua intimidade?
Ronaldo – A relação que eu tenho com a Raica é independente do meu passado. Ela está me conhecendo, e o que passou, passou. Eu faço tudo para que nada do meu passado atrapalhe.

Veja – Você se arrepende de algo no seu último casamento? Aquela festa no castelo de Chantilly, por exemplo, foi idéia sua?
Ronaldo – Na época foi tudo muito espontâneo. Talvez eu devesse ter pensado mais em certas coisas. Aquela festa foi idéia minha e da Daniella. Quando você se casa, tem de tomar decisões conjuntas. As confusões que aconteceram, acho que poderiam ter sido evitadas. Mas não foi possível. Sofri muito com a repercussão e, em seguida, com o término da relação. Mas hoje está tudo superado. Eu sei separar exatamente a minha vida pessoal da profissional, apesar de o futebol estar sempre presente na minha vida.

Veja – Você vai tirar a tatuagem do pulso esquerdo?
Ronaldo – Não. Eu a modifiquei faz uns dois meses. Botei um R (mostra a tatuagem, com o D de Daniella transformado em R), de Ronald e de Raica.

Veja – Pretende se casar de novo?
Ronaldo – Por que não? Quando chegar o momento possivelmente me casarei outra vez. E com certeza eu pretendo ter mais filhos.

Veja – Seu filho já entende que tem um pai famoso?
Ronaldo – O Ronald está com 6 anos. No começo, quando via os jogos do Brasil, dizia que todos os jogadores eram o pai. Há um ano começou a perceber a dimensão que tem o pai dele. O Ronald pratica futebol muito pouco, mas gosta, está sempre no estádio. A gente educa de modo que a minha fama não interfira na vida do meu filho. Graças a Deus a mãe (Milene Domingues) dá uma educação perfeita para ele. Para a idade dele, o Ronald tem os pés no chão.

Veja – Você pratica alguma religião?
Ronaldo – Sou católico, mas a Raica é kardecista e estou aprendendo muito com ela. A família da Raica toda é espírita. Ela tem o dom da palavra, fala muito bem dessa religião. Estou me interessando muito, tenho praticado algumas coisas. Ela me deu um livro (Nosso Renascer – Cosmogênese Planetária) de um cara chamado Dirceu Abdala.

Veja – Você já decidiu em quem vai votar para presidente?
Ronaldo – Já. Mas não vou declarar.

Veja – Se você tivesse perdido a Copa de 2002, seria visto como um derrotado. Você se considera predestinado?
Ronaldo – Predestinado, não, mas sou um cara com muita sorte. Faço o que mais gosto, jogo pela melhor seleção do mundo, tenho os melhores companheiros do mundo e tenho êxito também. Eu me considero sortudo. A final de 2002 serviu para tirar uma possível dúvida que as pessoas pudessem ter sobre minha condição de vitorioso. Eu levo o futebol na esportiva. No futebol, ninguém vai ganhar sempre nem perder sempre.

Veja – Qual é a pergunta que você mais tem ouvido?
Ronaldo – Se a gente vai ganhar a Copa.

Veja – E o que você responde?
Ronaldo – Eu respondo que sim.

 
 
 
 
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