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Entrevista: Ronaldo
"Eu sou um sortudo"
O atacante da seleção diz que
não inveja quem ganha mais do
que ele, como Ronaldinho Gaúcho,
e que pode se casar de novo

André Fontenelle, de Madri
Ronaldo Luiz Nazário de
Lima tem uma coleção de bons serviços prestados
à Seleção Brasileira de Futebol, entre eles
os oito gols na última Copa dois deles na partida
final. Mas sabe que nada disso tem valor para a próxima disputa,
na Alemanha, daqui a um mês. Aos 29 anos, como já aconteceu
em outros momentos de sua carreira, está no centro da teia
de dúvidas que enreda os preparativos da equipe. Machucado,
deverá ter condições de jogo para ser titular,
como quer o técnico Carlos Alberto Parreira, mas não
poderá enfrentar um período de preparação
muito pesado. Neste ano, não conquistou nenhum título
jogando pela valiosa e conturbada equipe do Real Madrid, e na seleção
atuou seis vezes seguidas sem fazer um único gol, coisa que
não lhe acontecia desde os 18 anos. Parte da imprensa já
sugere que sua melhor posição na equipe do Brasil
é o banco de reservas. Diante dessas circunstâncias,
Ronaldo só espera administrar a pressão representada
pela condição de seleção favorita ao
título. Na vida pessoal, que já rendeu fofocas de
todo tipo, tenta agora manter fechada a cortina da intimidade. Ronaldo,
que se considera um sujeito de sorte por ter sucesso fazendo exatamente
aquilo de que gosta, falou a VEJA na sala de sua casa em um condomínio
exclusivo em Madri.
Veja Esta será
sua última Copa?
Ronaldo Esta é só a próxima.
Continuo jogando enquanto eu me sentir bem e útil. Não
posso dizer se em 2010 estarei lá. Não tenho nada
programado. Ainda tenho muita vontade de jogar na seleção.
Veja Há
muita gente preocupada com a sua condição física.
Você também tem essa preocupação?
Ronaldo Só fazem críticas quando deixo
de fazer gols. Mas sem dúvida eu me preocupo com a parte
física. Havia começado o campeonato muito bem, mas
tive quatro lesões. Uma delas muito grave, no tornozelo,
e as outras leves, mas que me tiraram de jogo por duas ou três
semanas cada uma. Esta última (na coxa direita) parou
uma seqüência boa de quatro jogos marcando gols. Para
a Copa, vamos ter três semanas para nos preparar. O Moraci
Sant'Anna (preparador físico da seleção)
sabe que a gente está em final de temporada na Europa e que
não adianta fazer um treinamento muito forte porque os jogadores
estão cansados.
Veja Seu apelido
na seleção é "Presidente", mas você não
é um líder do tipo que foi Dunga, por exemplo, em
1994. Não seria esse o papel que se deveria esperar de você?
Ronaldo A liderança é dividida na seleção.
Não é uma liderança imposta. Temos vários
líderes: o Cafu, pelo tempo; eu, pela convivência;
o Ronaldinho Gaúcho, pela simpatia; o Robinho, com suas brincadeiras...
Essas são formas de ser líder. As pessoas me respeitam
pela minha história. Comecei na seleção com
17 anos. Há várias maneiras de liderar uma equipe.
Minha liderança vem pela amizade. Nós conseguimos
uma coisa maravilhosa. Não tem nenhum jogador polêmico
dentro do grupo. É um grupo muito fácil, inteligente,
que toma as decisões em conjunto. Esse e o de 2002 são
os melhores em que eu já estive.
Veja Ronaldinho
Gaúcho se tornou o jogador mais bem pago do mundo. Ganha
cerca de 15 milhões de reais por ano a mais do que você.
Isso não causa inveja?
Ronaldo Não, porque não sou eu quem
está pagando. Cada um tem seu espaço. Nem ele tira
nada de mim nem eu roubei nada de ninguém. Isso é
maravilhoso. Tenho orgulho de ser amigo dele. E espero que ele tenha
aprendido alguma coisa comigo, com minha estratégia de marketing,
com minha maneira de ser, como eu jogo. Para a seleção,
todos os jogadores têm a mesma importância. Eu sei da
minha importância, assim como o Ronaldinho sabe da dele.
Veja Você
está a três gols de se tornar o maior artilheiro da
história das Copas. Dá para garantir que vai quebrar
esse recorde?
Ronaldo No Real Madrid, costumo prometer um número
de gols para toda a temporada. Mas na Copa são só
sete jogos. Acho que posso marcar os três gols. Mas já
tem pressão demais em cima da gente. Toda essa história
de favoritismo. A gente não precisava disso. É uma
coisa que pode atrapalhar, e é muito fácil que isso
aconteça. Muito desse favoritismo é criado de propósito
para botar pressão em cima da gente. É uma grande
armadilha, uma grande cilada para cima da seleção.
Veja O técnico
Carlos Alberto Parreira diz que os adversários vão
fazer de tudo para que o Brasil não ganhe o hexa. Você
concorda?
Ronaldo Vão. Mas esportivamente. Não
acredito em máfia, complô da Fifa, essas coisas.
Veja Você
tem acompanhado os adversários do Brasil na primeira fase
do Mundial?
Ronaldo Sinceramente, só tenho visto clássicos.
Não fui atrás nem de Croácia, nem de Japão,
nem de Austrália.
Veja Você
fica no Real Madrid depois da Copa?
Ronaldo Possivelmente. Por enquanto não decidi
nada. Ainda tenho dois anos de contrato. Isso não quer dizer
que eu não possa chegar amanhã ao Real e dizer que
quero ir para o Flamengo. Eu gosto daqui, sou muito feliz aqui.
Mas algumas vezes fui muito maltratado no Estádio Santiago
Bernabeu, por um setor da torcida que tinha pouca tolerância
comigo. É assim desde o primeiro ano. Quando ganhei a Bola
de Ouro de melhor jogador da Europa em 2002, e ela foi entregue
no estádio, a torcida gritava o nome de outro jogador, o
Raúl. Eu me senti muito ofendido naquele momento e tenho
mágoa até hoje daquele setor da torcida.
Veja É
verdade que os espanhóis e os brasileiros do time não
se dão bem?
Ronaldo Tenho uma amizade muito boa com os brasileiros
do Real e com alguns espanhóis, e uma relação
profissional com todos eles. A gente não tem necessariamente
de ser os melhores amigos. Mas existe respeito. Fora isso, a amizade
é pouca. Eu me dou bem com a maioria, mas principalmente
com o Zidane, o David (Beckham), o Sergio Ramos, que chegou
agora.
Veja Por que
Vanderlei Luxemburgo não deu certo no Real?
Ronaldo Porque não teve autonomia. O Real Madrid
é um clube muito grande, tem muita disputa de poder. Ele
tinha o perfil de técnico ideal. O Brasil não é
cinco vezes campeão do mundo à toa. A escola de treinadores
brasileira é, estatisticamente, a melhor do mundo.
Veja Até
quando você pretende jogar futebol?
Ronaldo Não quero passar dos 35 anos jogando.
Tenho filho, família, quero viver o dia-a-dia. Pretendo ficar
na Europa depois que parar, porque estou muito acostumado com a
cultura daqui. Amo o Brasil, amo o Rio, mas não consigo ficar
mais de dois meses por lá. Gosto muito da Espanha. O clima,
esse sol...
Veja E o que
você vai fazer quando se aposentar do futebol?
Ronaldo Vou continuar no futebol. Não quero
ser treinador porque, depois de quinze anos jogando, voltar a enfrentar
concentrações, acho uma loucura. Não agüentaria.
Mas mexer com marketing esportivo é uma coisa que me agrada
muito. Pretendo também abraçar muitas causas sociais,
não parar nunca com as ações humanitárias.
Como embaixador da ONU, minha próxima viagem será
à Polônia, que é um exemplo de país:
alguns anos atrás era muito pobre, todo quebrado, e hoje
está na União Européia. No ano passado estive
na Palestina. No mesmo dia, visitei o quartel-general palestino
e alguns projetos sociais, e de tarde já estava com Shimon
Peres (vice-primeiro-ministro israelense). É legal
ouvir opiniões diferentes sobre aquele velho conflito. Por
alguns momentos a gente conseguiu fazer uma união entre esses
dois mundos.
Veja Você
recebe muitas propostas de negócios?
Ronaldo Muitas, todo dia. Boa, quase nenhuma. Tem
todo tipo de coisa. Sempre propõem negócios da China,
com rentabilidade de 30% ao ano. A única coisa que precisa
é que eu ponha o dinheiro. Na hora de fechar algum negócio
o Fabiano (Farah, assessor do jogador) põe tudo na
mesa e quem decide sou eu.
Veja Você
mudou muitas pessoas na sua equipe de assessores. Por quê?
Ronaldo Não mudei tantas pessoas assim. As
mudanças foram naturais. Em uma empresa existem mudanças
diárias. A estrutura que tenho é praticamente de uma
empresa, e tem de funcionar assim. Se os resultados não são
atingidos, é preciso trocar as pessoas, e foi o que eu fiz.
Veja As atividades
extracampo não atrapalham o futebol?
Ronaldo A gente procura fazer, de acordo com as exigências
dos patrocinadores, no máximo duas atividades por semana.
Hoje sou muito mais organizado. Antes podia marcar com três
pessoas ao mesmo tempo e me ferrava. Aprendi que tenho de organizar
uma estrutura profissional, sempre visando a uma boa imagem, para
que a prioridade seja do futebol.
Veja Parreira
disse que sexo não está proibido durante a Copa. Isso
é bom para a seleção?
Ronaldo Sexo nunca me fez mal em momento algum. Ninguém
faz sexo pouco antes do jogo nem é tão ativo a ponto
de se comprometer fisicamente. Isso é um tabu que tentam
associar ao futebol. Quando o Real joga em casa, não existe
concentração. Se a minha namorada está aqui,
a possibilidade de ter sexo é grande. Mas isso não
cansa ninguém.
Veja Você
fez sexo entre os jogos da última Copa?
Ronaldo Em 2002 a gente ficou o período todo
sem sexo. Não era uma imposição do Felipão.
Era falta de oportunidade mesmo. Mas para ganhar a Copa do Mundo
qualquer sacrifício era válido.
Veja O que representam
as mulheres na sua vida?
Ronaldo Depende do momento. Agora eu estou namorando
firme. Estou há onze meses junto com a Raica. Evito falar
da minha relação. Já falam tanto sem eu dizer
nada, imagine se eu falasse. Eu sou homem, tenho minhas necessidades
e meus sentimentos, como qualquer outro. Em uma mulher eu procuro
respeito, procuro sentimento...
Veja Você
se considera sedutor?
Ronaldo Não me considero nada sedutor. E não
sou de testar meu potencial nesse campo. Estive casado por quatro
anos. Todas as minhas relações sempre tiveram uma
duração razoável. Nunca levei muitos foras
porque também não costumo tomar a iniciativa, não.
Não sou aquele cara desesperado, de ir atrás. Curto
mais uma relação séria do que ficar por aí
pegando mulher.
Veja A fama
compromete sua intimidade?
Ronaldo A relação que eu tenho com a
Raica é independente do meu passado. Ela está me conhecendo,
e o que passou, passou. Eu faço tudo para que nada do meu
passado atrapalhe.
Veja Você
se arrepende de algo no seu último casamento? Aquela festa
no castelo de Chantilly, por exemplo, foi idéia sua?
Ronaldo Na época foi tudo muito espontâneo.
Talvez eu devesse ter pensado mais em certas coisas. Aquela festa
foi idéia minha e da Daniella. Quando você se casa,
tem de tomar decisões conjuntas. As confusões que
aconteceram, acho que poderiam ter sido evitadas. Mas não
foi possível. Sofri muito com a repercussão e, em
seguida, com o término da relação. Mas hoje
está tudo superado. Eu sei separar exatamente a minha vida
pessoal da profissional, apesar de o futebol estar sempre presente
na minha vida.
Veja Você
vai tirar a tatuagem do pulso esquerdo?
Ronaldo Não. Eu a modifiquei faz uns dois meses.
Botei um R (mostra a tatuagem, com o D de Daniella transformado
em R), de Ronald e de Raica.
Veja Pretende
se casar de novo?
Ronaldo Por que não? Quando chegar o momento
possivelmente me casarei outra vez. E com certeza eu pretendo ter
mais filhos.
Veja Seu filho
já entende que tem um pai famoso?
Ronaldo O Ronald está com 6 anos. No começo,
quando via os jogos do Brasil, dizia que todos os jogadores eram
o pai. Há um ano começou a perceber a dimensão
que tem o pai dele. O Ronald pratica futebol muito pouco, mas gosta,
está sempre no estádio. A gente educa de modo que
a minha fama não interfira na vida do meu filho. Graças
a Deus a mãe (Milene Domingues) dá uma educação
perfeita para ele. Para a idade dele, o Ronald tem os pés
no chão.
Veja Você
pratica alguma religião?
Ronaldo Sou católico, mas a Raica é
kardecista e estou aprendendo muito com ela. A família da
Raica toda é espírita. Ela tem o dom da palavra, fala
muito bem dessa religião. Estou me interessando muito, tenho
praticado algumas coisas. Ela me deu um livro (Nosso Renascer
Cosmogênese Planetária) de um cara chamado
Dirceu Abdala.
Veja Você
já decidiu em quem vai votar para presidente?
Ronaldo Já. Mas não vou declarar.
Veja Se você
tivesse perdido a Copa de 2002, seria visto como um derrotado. Você
se considera predestinado?
Ronaldo Predestinado, não, mas sou um cara
com muita sorte. Faço o que mais gosto, jogo pela melhor
seleção do mundo, tenho os melhores companheiros do
mundo e tenho êxito também. Eu me considero sortudo.
A final de 2002 serviu para tirar uma possível dúvida
que as pessoas pudessem ter sobre minha condição de
vitorioso. Eu levo o futebol na esportiva. No futebol, ninguém
vai ganhar sempre nem perder sempre.
Veja Qual é
a pergunta que você mais tem ouvido?
Ronaldo Se a gente vai ganhar a Copa.
Veja E o que
você responde?
Ronaldo Eu respondo que sim.
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