Edição 1 648 -10/5/2000

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Vida de índio: prós e contras

Como levar uma existência de mística
comunhão com rios e florestas sem
abrir mão da internet?

É bom ser índio? Índio está na moda, daí a pergunta: é bom ser índio? Há vantagens. Vive-se livre da tensão da vida chamada civilizada. Entre os índios ninguém se aflige por causa da "carreira". Nem os jovens nem os velhos se preocupam com o mercado de trabalho. Não há desemprego. Também não há vestibular. Os pais não se angustiam com a educação dos filhos. Devo ou não castigá-lo? Até que horas deixá-lo assistir à televisão? Como lhe falar de sexo? Como mantê-lo longe das drogas? Os pais índios não se põem tais questões. Não precisam consultar psicólogas. Haverá conforto maior, para um pai, ou mãe, do que viver num ambiente onde se está dispensado de consultar psicólogos?

As relações de família, que no caso dos índios dizem respeito a uma família ampliada, um clã, onde mais ou menos todos são irmãos de todos, e todos filhos do chefe, são mais tranqüilas. Orlando Villas-Boas, o patriarca dos indigenistas brasileiros, diz nunca ter presenciado uma briga de casal entre os índios, ou entre filhos e pais. Não há ciúme, ou pelo menos há muito menos ciúme. A vida comunitária, em que o indivíduo se dissolve no grupo, oferece escasso espaço para exclusivismos e egoísmos. Índio não acorda e sai correndo para o trabalho, não enfrenta congestionamento de trânsito, não tem conta para pagar.

Índio vive nu. Alguns não vivem mais, mas a nudez continua a ser o atributo que primeiro vem à mente quando se pensa neles, e não é preciso insistir muito no significado disso na mente de quem vive vestido. Significa liberdade, e não apenas a sexual. Significa deixar que a vida corra solta e franca, em comunhão com a natureza, como as plantas, as pedras e os bichos, sem as imposições da conveniência ou os constrangimentos da vergonha. Não será por outra razão, senão a liberdade com que acena a vida do índio, que dois grumetes da esquadra de Cabral escapuliram, na noite anterior à partida, segundo relata a carta de Caminha. Preferiram ficar. O próprio Caminha não consegue esconder o fascínio que aquela gente exercia sobre ele. Deslumbra-se, em sua carta carregada de sensualidade, com a nudez das índias. "A inocência desta gente é tal que a de Adão não seria maior", escreveu.

Índio não come escargot à bourguignonne, tripe à la mode de Caen ou steak au poivre. Nem mesmo lasanha ou pizza. Em compensação, come – ou comia – esses animais mais bem tratados entre todos, alimentados com cuidados maiores que os dos gansos escalados para o foie gras e, portanto, capazes de fornecer carne de suprema qualidade, que são os seres humanos. Para se ter idéia do gostinho bom dessa espécie de carne, lembre-se a passagem em que o padre Simão de Vasconcelos, cronista dos primeiros anos do Brasil, conta a história de uma velha índia, triste e desanimada, a quem perguntaram o que poderia ser feito para alegrá-la. "Só uma coisa me poderia abrir agora o fastio", respondeu. "Se eu tivera a mãozinha de um rapaz tapuia de pouca idade, tenrinha, e lhe chupara aqueles ossinhos, então me parece tomaria algum alento."

Há também o lado ruim de ser índio. Índio não tem geladeira, por exemplo (está-se falando dos índios puros, que vivem na selva), muito menos freezer, e se vê na contingência de pelejar pela refeição numa base diária, e de uma ponta a outra – da roça, ou caça, ou pesca, ao fogão. Freezer? Não se precisaria ir tão longe. O convívio com a natureza, tão idílico para quem não partilha dele, pode ser cruel. Está-se exposto às aranhas e às cobras, quando não às onças. Os desmoronamentos e as inundações apresentam-se não raro na feição de apocalipse. Não é à toa que Tupã se identifica com o trovão. A natureza tão benfazeja é também algo incompreensível e indomável. Mas, sobretudo, há a dor de dente. Imagine-se índio com dor de dente. Mesmo que, na tribo, haja um ás do boticão, ele lhe arrancará o dente a frio. A dor de dente é o argumento-limite. Não é bom ser índio. Nenhuma das vantagens e prazeres inerentes a essa condição compensará a desvantagem do padecimento – não só da dor de dente, mas também do tratamento que a ela se dispensará.

Pesaram-se inocentemente os prós e contras da vida de índio, até aqui, e de repente... De repente, percebe-se que não se está falando de índio. Está-se falando do ser humano. Da trajetória humana. Da condição humana. As questões aqui postas, de alcance tão existencial quanto político, dizem respeito ao conjunto da humanidade. Como conciliar uma vida que seja leve e solta e ao mesmo tempo provida dos confortos materiais? Como levar uma existência descompromissada como na selva mas pautada pelos rigores da higiene e com acesso aos antibióticos de última geração? Como conviver em harmonia com o grupo, sem briga ou competição, e ao mesmo tempo se realizar como indivíduo? Como se integrar em mística comunhão com os rios e as florestas sem abrir mão de estar igualmente em comunhão com a internet? Eis a questão, para cada um e para todos – uma questão que se faz presente de cada singular projeto existencial a cada proposta de reforma social.