Vida de índio: prós e contras
Como levar uma existência
de mística
comunhão com rios e florestas sem
abrir mão da internet?
É bom ser índio? Índio está
na moda, daí a pergunta: é bom ser índio?
Há vantagens. Vive-se livre da tensão da vida
chamada civilizada. Entre os índios ninguém
se aflige por causa da "carreira". Nem os jovens nem os
velhos se preocupam com o mercado de trabalho. Não
há desemprego. Também não há
vestibular. Os pais não se angustiam com a educação
dos filhos. Devo ou não castigá-lo? Até
que horas deixá-lo assistir à televisão?
Como lhe falar de sexo? Como mantê-lo longe das drogas?
Os pais índios não se põem tais questões.
Não precisam consultar psicólogas. Haverá
conforto maior, para um pai, ou mãe, do que viver
num ambiente onde se está dispensado de consultar
psicólogos?
As relações de família, que no caso
dos índios dizem respeito a uma família ampliada,
um clã, onde mais ou menos todos são irmãos
de todos, e todos filhos do chefe, são mais tranqüilas.
Orlando Villas-Boas, o patriarca dos indigenistas brasileiros,
diz nunca ter presenciado uma briga de casal entre os índios,
ou entre filhos e pais. Não há ciúme,
ou pelo menos há muito menos ciúme. A vida
comunitária, em que o indivíduo se dissolve
no grupo, oferece escasso espaço para exclusivismos
e egoísmos. Índio não acorda e sai
correndo para o trabalho, não enfrenta congestionamento
de trânsito, não tem conta para pagar.
Índio vive nu. Alguns não vivem mais, mas
a nudez continua a ser o atributo que primeiro vem à
mente quando se pensa neles, e não é preciso
insistir muito no significado disso na mente de quem vive
vestido. Significa liberdade, e não apenas a sexual.
Significa deixar que a vida corra solta e franca, em comunhão
com a natureza, como as plantas, as pedras e os bichos,
sem as imposições da conveniência ou
os constrangimentos da vergonha. Não será
por outra razão, senão a liberdade com que
acena a vida do índio, que dois grumetes da esquadra
de Cabral escapuliram, na noite anterior à partida,
segundo relata a carta de Caminha. Preferiram ficar. O próprio
Caminha não consegue esconder o fascínio que
aquela gente exercia sobre ele. Deslumbra-se, em sua carta
carregada de sensualidade, com a nudez das índias.
"A inocência desta gente é tal que a de Adão
não seria maior", escreveu.
Índio não come escargot à bourguignonne,
tripe à la mode de Caen ou steak au poivre. Nem mesmo
lasanha ou pizza. Em compensação, come
ou comia esses animais mais bem tratados entre todos,
alimentados com cuidados maiores que os dos gansos escalados
para o foie gras e, portanto, capazes de fornecer carne
de suprema qualidade, que são os seres humanos. Para
se ter idéia do gostinho bom dessa espécie
de carne, lembre-se a passagem em que o padre Simão
de Vasconcelos, cronista dos primeiros anos do Brasil, conta
a história de uma velha índia, triste e desanimada,
a quem perguntaram o que poderia ser feito para alegrá-la.
"Só uma coisa me poderia abrir agora o fastio", respondeu.
"Se eu tivera a mãozinha de um rapaz tapuia de pouca
idade, tenrinha, e lhe chupara aqueles ossinhos, então
me parece tomaria algum alento."
Há também o lado ruim de ser índio.
Índio não tem geladeira, por exemplo (está-se
falando dos índios puros, que vivem na selva), muito
menos freezer, e se vê na contingência de pelejar
pela refeição numa base diária, e de
uma ponta a outra da roça, ou caça, ou
pesca, ao fogão. Freezer? Não se precisaria
ir tão longe. O convívio com a natureza, tão
idílico para quem não partilha dele, pode
ser cruel. Está-se exposto às aranhas e às
cobras, quando não às onças. Os desmoronamentos
e as inundações apresentam-se não raro
na feição de apocalipse. Não é
à toa que Tupã se identifica com o trovão.
A natureza tão benfazeja é também algo
incompreensível e indomável. Mas, sobretudo,
há a dor de dente. Imagine-se índio com dor
de dente. Mesmo que, na tribo, haja um ás do boticão,
ele lhe arrancará o dente a frio. A dor de dente
é o argumento-limite. Não é bom ser
índio. Nenhuma das vantagens e prazeres inerentes
a essa condição compensará a desvantagem
do padecimento não só da dor de dente,
mas também do tratamento que a ela se dispensará.
Pesaram-se inocentemente os prós e contras da vida
de índio, até aqui, e de repente... De repente,
percebe-se que não se está falando de índio.
Está-se falando do ser humano. Da trajetória
humana. Da condição humana. As questões
aqui postas, de alcance tão existencial quanto político,
dizem respeito ao conjunto da humanidade. Como conciliar
uma vida que seja leve e solta e ao mesmo tempo provida
dos confortos materiais? Como levar uma existência
descompromissada como na selva mas pautada pelos rigores
da higiene e com acesso aos antibióticos de última
geração? Como conviver em harmonia com o grupo,
sem briga ou competição, e ao mesmo tempo
se realizar como indivíduo? Como se integrar em mística
comunhão com os rios e as florestas sem abrir mão
de estar igualmente em comunhão com a internet? Eis
a questão, para cada um e para todos uma questão
que se faz presente de cada singular projeto existencial
a cada proposta de reforma social.