Mania esquisita
Por que os americanos perdem tempo
assistindo a essa tal de luta livre?
Muita gente critica o hábito brasileiro de importar
modismos dos Estados Unidos. Essas pessoas podem ter razão
ao condenar certos exageros, mas convenhamos. Não
há no Brasil nenhum esporte, com o perdão
da má palavra, que imite a mais esquisita das manias
americanas: a luta livre. Alguém já viu pela
televisão? Nos fins de semana, milhões de
americanos deliram diante de brutamontes que se engalfinham
em combates de mentirinha, transmitidos em rede nacional.
A luta, chamada de wrestling, não passa de
encenação e possui legiões de fãs
espalhadas de leste a oeste. Hoje, 35 milhões de
telespectadores por semana ficam ligados nesse espetáculo.
Os americanos vivem no país mais próspero
do planeta, têm a maior frota de automóveis,
reúnem um time invejável de ganhadores de
prêmios Nobel e sua moeda faz oscilar a economia global.
Mas, como ninguém é perfeito, gostam desse
agarra-agarra de faz-de-conta.
A luta livre americana é um negócio altamente
lucrativo. As empresas que exploram os espetáculos
vendem fitas de vídeo, CDs, DVDs, camisetas e têm
sites na internet. Até livros sim, eles lêem
são vendidos aos montes no rastro do sucesso do
wrestling. As autobiografias de dois campeões do
pseudo-esporte, Mankind (Mick Foley) e The Rock
(Dwayne Johnson), aparecem há várias semanas
na lista dos mais vendidos do New York Times. A World
Wrestling Federation, entidade que domina o esporte, já
vale 1 bilhão de dólares na bolsa de valores
dos Estados Unidos. Nos estádios, onde as lutas podem
ser acompanhadas ao vivo, a lotação está
sempre esgotada.
Há diversas explicações para o sucesso
da luta livre. Uma delas estaria ligada ao mais profundo
desejo do americano médio: que o bem vença
o mal. As pessoas acompanham com fanatismo o show de pancadaria
ensaiada porque sabem que os lutadores bonzinhos, aqueles
incapazes de cuspir no adversário e que só
atacam pela frente, vão vencer no final. Outra explicação
é que, na terra mais politicamente correta do mundo,
a luta funcionaria como uma libertação das
amarras do cotidiano, uma catarse. Os socos e pontapés
ensaiados fazem tanto sucesso que os americanos do Estado
de Minnesota elegeram como governador um ex-astro do wrestling:
Jesse Ventura, o senhor que ilustra esta página em
dois momentos distintos de sua vida profissional.
No Brasil, esses espetáculos já saíram
de moda há mais de duas décadas. Mas quem
tem mais de 30 anos ainda deve lembrar de nomes como Ted
Boy Marino, Montanha, Aquiles e Múmia. Esses e alguns
outros personagens exóticos povoaram a TV brasileira
até meados da década de 70 em lutas forjadas
nas quais os brutamontes não ganhavam um hematoma
sequer. Era o Tele Catch, um programa de televisão
que chegou a ter espaço importante na programação
daquela época. No longínquo ano de 1967, uma
luta chegava a registrar recordes de audiência, com
mais de 40% dos telespectadores sintonizados no mesmo canal.
Mas os heróis do passado no Brasil já não
brilham sob os holofotes. Ted Boy Marino, o mais famoso
de todos, foi demitido no ano passado da Rede Globo, aos
60 anos. Era figurante no programa humorístico comandado
pelo comediante Renato Aragão. É. Nem tudo
que é bom para os Estados Unidos é bom para
o Brasil.
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