Edição 1 648 -10/5/2000

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Confesso que errei


Alex Borges

Período de glória para o Brasil. É raro que o noticiário internacional se ocupe de nós. Mas as últimas semanas foram altamente positivas, atestando de maneira inquestionável a nossa presença no mundo. Os primeiros a se destacar foram os índios Gildo e Jerry Adriani, cujos protestos durante as comemorações do Descobrimento ganharam a primeira página de todos os jornais. Depois foi a vez daquela bandeira verde-e-amarela muito bem posicionada diante da casa dos parentes do menino cubano Elian Gonzalez, na Flórida. Toda vez que a CNN enquadrava a casa, lá estava nossa bandeira, testemunhando solidariedade por aquela gente boa e pacata. Alguns dias mais tarde, uma nossa compatriota atingiu notoriedade na França ao engolir cápsulas com cocaína e morrer de overdose. A seguir, um influente político britânico, o trabalhista Peter Mandelson, que até então sempre desmentira boatos de que era homossexual, apareceu ao lado de seu companheiro carioca Reinaldo da Silva.

Quando tudo parecia conspirar para o nosso sucesso, porém, surgiu o Zimbábue para roubar a cena. Os sem-terra do presidente Robert Mugabe são muito mais vistosos do que os nossos. Não apenas ocupam terras e exterminam o gado como também violentam mulheres e matam fazendeiros brancos e adversários políticos negros. Para quem leu o último romance do sul-africano J.M. Coetzee, Disgrace, essa brutalidade soa familiar. No romance, uma jovem fazendeira branca é espancada e estuprada por um bando de saqueadores negros. O ataque é idêntico aos que atualmente se verificam no Zimbábue, inclusive no que se refere à matança dos cães de guarda, episódio central do romance. Como eu já disse, J.M. Coetzee é da África do Sul, não do Zimbábue. Aparentemente, porém, não faz muita diferença. Existe uma linha que une esses dois países.

O que um leitor de jornais sensível e bem-intencionado pode fazer diante das injustiças do mundo? Torcer, é claro. Eu sempre torci por certas causas. Nos anos 70, por exemplo, torcia muito para que a minoria branca e racista do atual Zimbábue, ex-Rodésia, fosse obrigada a ceder o poder para a maioria negra. Quando Robert Mugabe finalmente assumiu o comando do país no lugar do execrado Ian Smith, comemorei com entusiasmo. Duas décadas mais tarde, leio as reportagens provenientes do Zimbábue e arrependo-me de ter torcido para ele. Aliás, andei fazendo um retrospecto de todas as causas que apoiei no passado e percebi que minha torcida, apesar de perfeitamente inócua, se revelou equivocada em pelo menos 70% dos casos. Torci para o Camboja contra os Estados Unidos e o resultado foi Pol Pot. Torci contra o xá do Irã e o integralismo religioso que o substituiu foi ainda pior. Torci para os governos independentes de Angola e Moçambique e eles só souberam provocar guerra civil e miséria. Torci para os guerrilheiros do Afeganistão contra a União Soviética e deu no que deu. Sei que não tenho nada a ver com isso. Mesmo assim, decidi que nunca mais vou torcer para ninguém. O único jeito de não errar é torcer contra todo mundo.