Confesso que errei
Alex Borges |
Período de glória para o Brasil. É
raro que o noticiário internacional se ocupe de nós.
Mas as últimas semanas foram altamente positivas,
atestando de maneira inquestionável a nossa presença
no mundo. Os primeiros a se destacar foram os índios
Gildo e Jerry Adriani, cujos protestos durante as comemorações
do Descobrimento ganharam a primeira página de todos
os jornais. Depois foi a vez daquela bandeira verde-e-amarela
muito bem posicionada diante da casa dos parentes do menino
cubano Elian Gonzalez, na Flórida. Toda vez que a
CNN enquadrava a casa, lá estava nossa bandeira,
testemunhando solidariedade por aquela gente boa e pacata.
Alguns dias mais tarde, uma nossa compatriota atingiu notoriedade
na França ao engolir cápsulas com cocaína
e morrer de overdose. A seguir, um influente político
britânico, o trabalhista Peter Mandelson, que até
então sempre desmentira boatos de que era homossexual,
apareceu ao lado de seu companheiro carioca Reinaldo da
Silva.
Quando tudo parecia conspirar para o nosso sucesso, porém,
surgiu o Zimbábue para roubar a cena. Os sem-terra
do presidente Robert Mugabe são muito mais vistosos
do que os nossos. Não apenas ocupam terras e exterminam
o gado como também violentam mulheres e matam fazendeiros
brancos e adversários políticos negros. Para
quem leu o último romance do sul-africano J.M. Coetzee,
Disgrace, essa brutalidade soa familiar. No romance,
uma jovem fazendeira branca é espancada e estuprada
por um bando de saqueadores negros. O ataque é idêntico
aos que atualmente se verificam no Zimbábue, inclusive
no que se refere à matança dos cães
de guarda, episódio central do romance. Como eu já
disse, J.M. Coetzee é da África do Sul, não
do Zimbábue. Aparentemente, porém, não
faz muita diferença. Existe uma linha que une esses
dois países.
O que um leitor de jornais sensível e bem-intencionado
pode fazer diante das injustiças do mundo? Torcer,
é claro. Eu sempre torci por certas causas. Nos anos
70, por exemplo, torcia muito para que a minoria branca
e racista do atual Zimbábue, ex-Rodésia, fosse
obrigada a ceder o poder para a maioria negra. Quando Robert
Mugabe finalmente assumiu o comando do país no lugar
do execrado Ian Smith, comemorei com entusiasmo. Duas décadas
mais tarde, leio as reportagens provenientes do Zimbábue
e arrependo-me de ter torcido para ele. Aliás, andei
fazendo um retrospecto de todas as causas que apoiei no
passado e percebi que minha torcida, apesar de perfeitamente
inócua, se revelou equivocada em pelo menos 70% dos
casos. Torci para o Camboja contra os Estados Unidos e o
resultado foi Pol Pot. Torci contra o xá do Irã
e o integralismo religioso que o substituiu foi ainda pior.
Torci para os governos independentes de Angola e Moçambique
e eles só souberam provocar guerra civil e miséria.
Torci para os guerrilheiros do Afeganistão contra
a União Soviética e deu no que deu. Sei que
não tenho nada a ver com isso. Mesmo assim, decidi
que nunca mais vou torcer para ninguém. O único
jeito de não errar é torcer contra todo mundo.