Uma bancada para a viúva
"A defesa do dinheiro público
no Brasil é uma responsabilidade exclusiva do Executivo,
em
especial da área econômica. Precisamos de
uma bancada no Congresso cujo propósito
seja defender o Erário"
Ilustração: Ale Setti |
Ficou famoso o episódio em que o presidente Bill
Clinton, em um dos piores momentos da crise associada a
suas relações com uma estagiária, fez
um pronunciamento grave chamando a atenção
do povo americano para o fato de que, caso nada fosse feito,
a previdência social americana começaria a
ter déficits a partir de 2020. A fala presidencial
teve alguma serventia política, na medida em que
desviou as atenções para um problema visto
como sério e que vinha sendo deixado num inexplicável
segundo plano. Mas ele falava de 2020.
Enquanto isso, no Brasil, a Previdência já
está em situação de déficit
de caixa há três anos e o governo encontra
imensas dificuldades de alterar a legislação
pertinente. Algumas mudanças foram conseguidas, com
os custos que todos vimos, mas o problema persiste imenso
e sem solução. Mesmo tendo em mente o extraordinário
esforço que este governo fez na direção
do equilíbrio das contas públicas, nosso sistema
previdenciário (federal, estadual e municipal) está
seriamente encrencado e, em 1999, o déficit consolidado
do setor público foi de 10% do PIB uns 100 bilhões
de reais. Uma vergonha. Por que será que o Brasil,
em absoluto contraste com nossos amigos mais ao norte e
a despeito dos esforços de partes importantes do
governo, parece não dar a mínima para o chamado
ajuste fiscal?
Há muitos anos a área econômica se
desgasta numa luta tenaz e solitária para equilibrar
as contas públicas e parece não encontrar
apoio em lugar nenhum. Todos se queixam, dentro e fora do
governo, resistem às restrições e,
quando aparece o déficit, colocam a culpa em quem
tentou combatê-lo e não em quem vive dele.
É certo que são cada vez menos encontrados
aqueles economistas que num passado ainda bem recente sustentavam
que o Brasil não tinha um problema fiscal e que as
alegações em contrário eram orquestrações
ortodoxas vindas de Washington. Esse tipo de charlatanismo
foi duramente golpeado pelos fracassos dos choques econômicos
anteriores ao Plano Real.
O fim da hiperinflação trouxe muito reforço
para as posturas responsáveis com a questão
fiscal, mas é forçoso reconhecer que a noção
de ajuste fiscal nunca encantou e ainda não capturou
o coração dos políticos. Para a grande
maioria deles, o déficit público é
um problema psicanalítico dos economistas, como bem
havia demonstrado JK, que fez tudo ao contrário e
se tornou o grande paradigma de desenvolvimentismo que nove
entre dez políticos desejam imitar. Portanto, a consolidação
do equilíbrio fiscal no Brasil passa por uma transição
cultural muito séria, que ainda parece engatinhar.
O mito JK precisaria ser revisto, e isso vai ser muito difícil
de fazer, ainda mais em Brasília.
Talvez as coisas estejam maduras apenas quando tivermos
no Congresso uma dessas bancadas informais como os ruralistas,
os evangélicos ou os do Banco do Brasil cujo propósito
seja defender o Erário. É fácil enxergar,
nos dias de hoje, várias "bancadas" cuja atividade
consiste em atacar os cofres públicos sempre, é
claro, a partir de causas nobres. Já a defesa do
dinheiro público é uma responsabilidade do
Executivo e da área econômica em especial,
a quem de direito restou a função de dizer
não e dessa forma impedir que todas essas pessoas
sensíveis possam fazer o bem.
Um progresso fenomenal foi feito recentemente com a adoção
do conceito de "Responsabilidade Fiscal", não apenas
como princípio mas também sob a forma de definições
operacionais numa lei complementar e de sanções
penais para governantes com comportamento desviante. Faz
tempo que a sociedade exibe uma aversão imensa à
fisiologia, ao nepotismo, à corrupção
e a toda e qualquer forma de apropriação privada
de bens públicos, seja por meio das famosas emendas
ao orçamento, seja por tarifas protecionistas ou
favores regulatórios. É impressionante, todavia,
que esse sentimento não tenha sido propriamente canalizado
contra a origem de todos esses vícios: a irresponsabilidade
com o que é público. É o que os economistas
chamam, há anos, de ajuste fiscal sem alcançar
nenhum ibope. Responsabilidade fiscal é um conceito
rico e interessante. Pode ser um conceito catalisador para
a formação de uma bancada que o nosso Congresso
nunca teve, a da viúva.
Gustavo Franco é economista da
PUC-RJ
e ex-presidente do Banco Central (gfranco@palavra.inf.br)