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Edição 1 746 - 10 de abril de 2002
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CINEMA

O Último Lance (The Luzhin Defence, Inglaterra/França, 2000. Desde sexta-feira em São Paulo e no Rio) – Dois sujeitos sentados um de frente para o outro, concentrados diante de um tabuleiro: o xadrez, em tese, não é o mais cinemático dos esportes. Mas um bom filme sobre o tema – como esse – é capaz de captar o estado de intensidade febril que ele provoca em seus praticantes. Baseado num romance do russo Vladimir Nabokov (o autor de Lolita), O Último Lance trata de Alexander Luzhin (John Turturro), um enxadrista brilhante que, desde pequeno, teve seu talento explorado por um mestre inescrupuloso. Nos anos 20, Luzhin retorna à cidade italiana onde disputou seu primeiro torneio para, dessa vez, tentar ganhar a competição. Sua paixão pela socialite Natalia (Emily Watson), que conhece lá, mais a obsessão por desenvolver uma defesa inexpugnável o levam para a beira de um abismo. A grande atuação de Turturro é o destaque dessa meditação sobre o ônus da genialidade.

 
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Trailer         56K | 100K | 200K
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LIVROS

 
Editorial Perfil
Sabato: pilar da literatura argentina

Sobre Heróis e Tumbas, de Ernesto Sabato (tradução de Rosa Freire d'Aguiar; Companhia das Letras; 624 páginas; 45 reais) – Ao lado de Borges e Cortázar, o nonagenário Ernesto Sabato é um dos pilares da literatura argentina do século XX. Físico nuclear de renome internacional, ele abandonou a profissão na década de 40 para abraçar o ofício de escritor. Escrito em 1961, Sobre Heróis e Tumbas tem três vertentes. Fala a respeito de uma família oligárquica em decadência, na Buenos Aires dos anos 50, mas aí se intercalam as histórias de uma legião de soldados e de uma investigação sobre uma seita. Considerado a obra-prima de Sabato, o livro é uma reflexão pessimista sobre a natureza humana e a história de seu país.

Stravinsky: Crônica de uma Amizade, de Robert Craft (tradução de Eduardo Francisco Alves; Editora Difel; 722 páginas; 85 reais) – Em 1948, o maestro americano Robert Craft tomou para si a missão de apresentar os Estados Unidos ao compositor russo Igor Stravinsky e sua mulher, Vera. Craft não apenas virou parceiro do autor de Sagração da Primavera, como também foi seu confidente até 1971 – ano da morte do compositor. Mais do que louvar o talento de Stravinsky, Crônica de uma Amizade faz um retrato da época em que ele viveu e narra encontros do russo com grandes personalidades da música e da literatura. Craft dedica algumas páginas ao Brasil e ao Rio de Janeiro, que Stravinsky visitou na década de 60. Leia trechos do livro.

 

DISCOS

Sempre Sucesso, Orlando Silva (BMG) – Na história da música brasileira, nenhum cantor foi tão influente quanto Orlando Silva. Ele praticamente criou o estilo brasileiro de cantar, com vocais sincopados e elegantes que contrastavam com o jeitão empolado daqueles que o haviam precedido. O período áureo de sua carreira (1935-1942) foi crucial para a formação de artistas como João Gilberto e Roberto Carlos. Em 1962, época em que lançou Sempre Sucesso, Orlando Silva já não tinha o registro cristalino de vinte anos antes – perdido por causa do abuso de álcool e morfina. No entanto, as versões para os sucessos No Kilômetro 2 e Última Canção ganham em dramaticidade. Há de se destacar ainda a seresta Palavras, do compositor Guilherme de Brito.

Release, Pet Shop Boys (EMI) – Esse álbum reserva boas surpresas para quem sempre associou os Pet Shop Boys à dance music pasteurizada e a baladas afetadas como West End Girls e Being Boring. Em Release, seu novo CD, a dupla formada por Chris Lowe e Neil Tennant acrescentou à sua receita usual boas doses de percussão acústica e guitarra. Este último instrumento ficou a cargo de Johnny Marr, ex-líder da banda The Smiths. Ele torna as faixas Home and Dry, London e I Get Along audíveis até para quem nunca gostou de dance music. Os fãs do antigo Pet Shop Boys, por seu turno, não precisam cortar os pulsos. Release reserva a eles um leque de canções meigas, como E-Mail – em que Tennant confessa a-do-rar e-mails dizendo "eu te amo".

 

TELEVISÃO

Divulgação
80's Show: nostalgia e humor


That 80's Show
(segundas, às 21h30 e 2h30, e domingos, às 13h, na Sony) – Sim, esse seriado americano é mais uma daquelas comédias emolduradas por risadas artificiais e seu conteúdo não tem nada de inovador. Ele é, no entanto, mais divertido que a média. Seus produtores souberam transformar a nostalgia em combustível para o humor. Já haviam feito isso em That 70's Show, que se tornou cultuado nos Estados Unidos e no Brasil. A nova série transpõe a fórmula de sua predecessora para os anos 80. Em vez de adolescentes com calças boca-de-sino, há punks e garotas vestidas com blusas verde-limão. Os protagonistas gastam o tempo assistindo à série Dinastia na TV e se envolvem em debates sobre o governo Reagan. Quem estiver na faixa dos 30 anos vai gostar.

 

LITERATURA BRASILEIRA

No Coração das Perobas;
Domingos Pellegrini;
Record;
432 páginas;
40 reais

Num bosque, as perobas são sempre as árvores mais altas. É sua estratégia de sobrevivência: erguem-se acima do resto da mata para alcançar a luz. Por causa dessa característica, o paranaense Domingos Pellegrini as utiliza como símbolo em seu novo romance, No Cora&cc

Num bosque, as perobas são sempre as árvores mais altas. É sua estratégia de sobrevivência: erguem-se acima do resto da mata para alcançar a luz. Por causa dessa característica, o paranaense Domingos Pellegrini as utiliza como símbolo em seu novo romance, No Coração das Perobas. O livro tem dois protagonistas. Juliana Prestes é uma moça de caráter forte, que tenta completar sua tese de mestrado enquanto enfrenta vários dissabores – do preconceito por namorar um homem mais velho à falsa acusação de ter agredido um colega na universidade. Incrustadas na história de Juliana estão as memórias de Siqueira, a quem ela entrevista durante suas pesquisas. Siqueira é veterano da Coluna Prestes e de outros eventos marcantes, como as revoluções de 1930 e 1932. Ele e Juliana – diz o romance – são como as perobas: não se conformam nem se deixam oprimir.

Aos 52 anos, Domingos Pellegrini é o que se poderia chamar de escritor-cidadão. Faz literatura politicamente engajada, mas num sentido diverso do habitual. Ele costuma dizer que parou de pensar em termos ideológicos no começo dos anos 80. Esquerda e direita seriam "atrasos civilizatórios": o que importa é o compromisso com valores éticos. O fato de trocar a velha cepa por uma variedade mais amena de ficção engajada não livra sua obra, contudo, dos problemas inerentes a esse tipo de literatura. Em seu romance há uma lição a cada poucas páginas, e um personagem sempre pronto a discursar. Pellegrini parece escrever certas passagens com um dedo em riste. Com 25 anos de carreira e 27 livros publicados, é um autor maduro e com qualidades inegáveis – como o bom manejo da linguagem coloquial. Mas nunca estourou, e talvez nunca consiga, a se manter nessa vereda "edificante".

Carlos Graieb

   
 



Fontes: São Paulo: Cultura, Laselva, Saraiva, Livraria da Vila, Nobel, Fnac; Rio: Saraiva, Laselva, Sodiler, Siciliano; Porto Alegre: Saraiva, Livraria Ed. Porto Alegre, Siciliano; Brasília: Sodiler, Siciliano, Leitura; Recife: Sodiler, Siciliano; Natal: Sodiler; Florianópolis: Siciliano; Goiânia: Siciliano; Fortaleza: Siciliano, Laselva; Salvador: Siciliano; Curitiba: Siciliano, Saraiva; Belo Horizonte: Siciliano; Maceió: Sodiler.
   
 
   
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