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CINEMA O Último Lance (The Luzhin Defence, Inglaterra/França, 2000. Desde sexta-feira em São Paulo e no Rio) Dois sujeitos sentados um de frente para o outro, concentrados diante de um tabuleiro: o xadrez, em tese, não é o mais cinemático dos esportes. Mas um bom filme sobre o tema como esse é capaz de captar o estado de intensidade febril que ele provoca em seus praticantes. Baseado num romance do russo Vladimir Nabokov (o autor de Lolita), O Último Lance trata de Alexander Luzhin (John Turturro), um enxadrista brilhante que, desde pequeno, teve seu talento explorado por um mestre inescrupuloso. Nos anos 20, Luzhin retorna à cidade italiana onde disputou seu primeiro torneio para, dessa vez, tentar ganhar a competição. Sua paixão pela socialite Natalia (Emily Watson), que conhece lá, mais a obsessão por desenvolver uma defesa inexpugnável o levam para a beira de um abismo. A grande atuação de Turturro é o destaque dessa meditação sobre o ônus da genialidade.
LIVROS
Sobre Heróis e Tumbas, de Ernesto Sabato (tradução de Rosa Freire d'Aguiar; Companhia das Letras; 624 páginas; 45 reais) Ao lado de Borges e Cortázar, o nonagenário Ernesto Sabato é um dos pilares da literatura argentina do século XX. Físico nuclear de renome internacional, ele abandonou a profissão na década de 40 para abraçar o ofício de escritor. Escrito em 1961, Sobre Heróis e Tumbas tem três vertentes. Fala a respeito de uma família oligárquica em decadência, na Buenos Aires dos anos 50, mas aí se intercalam as histórias de uma legião de soldados e de uma investigação sobre uma seita. Considerado a obra-prima de Sabato, o livro é uma reflexão pessimista sobre a natureza humana e a história de seu país.
DISCOS
TELEVISÃO
Num bosque, as perobas são sempre as árvores mais altas. É sua estratégia de sobrevivência: erguem-se acima do resto da mata para alcançar a luz. Por causa dessa característica, o paranaense Domingos Pellegrini as utiliza como símbolo em seu novo romance, No Coração das Perobas. O livro tem dois protagonistas. Juliana Prestes é uma moça de caráter forte, que tenta completar sua tese de mestrado enquanto enfrenta vários dissabores do preconceito por namorar um homem mais velho à falsa acusação de ter agredido um colega na universidade. Incrustadas na história de Juliana estão as memórias de Siqueira, a quem ela entrevista durante suas pesquisas. Siqueira é veterano da Coluna Prestes e de outros eventos marcantes, como as revoluções de 1930 e 1932. Ele e Juliana diz o romance são como as perobas: não se conformam nem se deixam oprimir. Aos 52 anos, Domingos Pellegrini é o que se poderia chamar de escritor-cidadão. Faz literatura politicamente engajada, mas num sentido diverso do habitual. Ele costuma dizer que parou de pensar em termos ideológicos no começo dos anos 80. Esquerda e direita seriam "atrasos civilizatórios": o que importa é o compromisso com valores éticos. O fato de trocar a velha cepa por uma variedade mais amena de ficção engajada não livra sua obra, contudo, dos problemas inerentes a esse tipo de literatura. Em seu romance há uma lição a cada poucas páginas, e um personagem sempre pronto a discursar. Pellegrini parece escrever certas passagens com um dedo em riste. Com 25 anos de carreira e 27 livros publicados, é um autor maduro e com qualidades inegáveis como o bom manejo da linguagem coloquial. Mas nunca estourou, e talvez nunca consiga, a se manter nessa vereda "edificante". Carlos Graieb |
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