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Edição 1 746 - 10 de abril de 2002
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Luiz Felipe de Alencastro

Brasília e o mundo

"A hipótese de banalização das
armas atômicas liquidaria os tratados
internacionais de
não-proliferação
nuclear e jogaria o Brasil
no meio
da tormenta"


Ilustração Ale Setti


As viagens ao exterior e os encontros com figurões estrangeiros constituem, desde o reinado de dom Pedro II, um trunfo na estratégia das lideranças brasileiras. Porém, nestes últimos tempos a prática generalizou-se: do PSDB ao MST, do cacique Raoni, chefe caiapó, ao governador Jaime Lerner, subchefe pefelê, há muita gente peregrinando pelo mundo afora para fazer seu caminho pelo país adentro. Não há nada de extravagante nesses itinerários. De fato, as críticas às viagens internacionais do presidente da República ou de outros dirigentes parecem despropositadas. Tanto o governo como a oposição devem reposicionar os interesses brasileiros num mundo em plena mutação. O problema que se coloca é de outra natureza e se resume numa interrogação pouco formulada na campanha presidencial: quais devem ser os rumos de nossa diplomacia? Num artigo na Folha de S.Paulo (12 de março de 2002), Roberto Mangabeira Unger expunha a questão de maneira incisiva: "Por que o Brasil não tem política exterior?".

Sem espírito de polêmica, é possível alinhar três assuntos internacionais que demandam a atenção do governo e da oposição.

O primeiro assunto é frio e concerne ao despreparo do país para enfrentar as negociações econômicas externas. Ainda na República Velha, quando Nilo Peçanha ocupava o posto de chanceler (1917-1918), foi criado o Departamento dos Serviços Econômicos e Comerciais, que facultou, pela primeira vez, ações coordenadas do Itamaraty com os ministérios da Fazenda e da Agricultura. No entanto, quase um século depois, a colaboração intergovernamental na área de comércio externo continua desconchavada. Responsável direto pela área, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior conta com pouca massa crítica. Segundo reportagem de Paula Puliti, em O Estado de S..Paulo (30 de março de 2002), no setor de defesa comercial o Ministério do Desenvolvimento dispõe de apenas quinze especialistas, enquanto o México tem mais de 1 000 técnicos nesse setor.

O segundo assunto é mais quente. Trata-se do destino de Angola. Há alguns dias o Exército angolano e as forças rebeldes da Unita assinaram um acordo que pode dar um basta a 27 anos de guerra civil. Pilhados, martirizados, os povos angolanos são vítimas de uma tragédia multissecular. Uma tragédia em que o Brasil deve assumir sua parte de responsabilidade por ter participado do tráfico negreiro que assolou a região até 1850. Trazidos acorrentados, os angolanos constituíram o núcleo humano e cultural da nação brasileira. Chegou a hora de saldar nossa dívida, chegou a hora de ajudarmos Angola a viver em paz.

O terceiro assunto é quentíssimo. Pelo sim, pelo não, o presidente Bush resolveu arrochar a opção militar. Segundo o noticiário do Los Angeles Times e do New York Times, o Pentágono passou a propugnar o uso de minibombas atômicas. Ou seja, de armas nucleares para estourar depósitos subterrâneos onde estariam escondidas armas (nucleares, químicas, bacteriológicas) de destruição maciça. O relatório do Pentágono iria ainda mais longe, citando os países que poderiam ser visados: Iraque, Irã, Síria, Líbia, Coréia do Norte, China e Rússia. Para o New York Times, essa política, caso venha a ser adotada, seria uma "loucura irresponsável". E o jornal parisiense Le Monde completa: "O documento do Pentágono corresponde a um Estado tomado de pânico, não corresponde a uma potência consciente de suas responsabilidades: ele é assustador".

A hipótese de banalização das armas atômicas, inscrita na proposta do Pentágono, liquidaria os tratados internacionais de não-proliferação nuclear e jogaria o Brasil no meio da tormenta, relançando a corrida nuclear. Todos esses problemas são graves e de solução mais ou menos complexa. O que não tem cabimento é ignorá-los, como se ainda estivéssemos vivendo no tempo de Nilo Peçanha.

 

Luiz Felipe de Alencastro é historiador e professor titular
da Universidade de Paris
Sorbonne (abomey@uol.com.br)


 
 
   
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