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Luiz
Felipe de Alencastro
Brasília
e o mundo
"A
hipótese de banalização das
armas atômicas liquidaria os tratados
internacionais de não-proliferação
nuclear e jogaria o Brasil no meio
da tormenta"
Ilustração Ale Setti
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As viagens ao exterior e os encontros com figurões estrangeiros
constituem, desde o reinado de dom Pedro II, um trunfo na estratégia
das lideranças brasileiras. Porém, nestes últimos
tempos a prática generalizou-se: do PSDB ao MST, do cacique Raoni,
chefe caiapó, ao governador Jaime Lerner, subchefe pefelê,
há muita gente peregrinando pelo mundo afora para fazer seu caminho
pelo país adentro. Não há nada de extravagante nesses
itinerários. De fato, as críticas às viagens internacionais
do presidente da República ou de outros dirigentes parecem despropositadas.
Tanto o governo como a oposição devem reposicionar os interesses
brasileiros num mundo em plena mutação. O problema que se
coloca é de outra natureza e se resume numa interrogação
pouco formulada na campanha presidencial: quais devem ser os rumos de
nossa diplomacia? Num artigo na Folha de S.Paulo (12 de março
de 2002), Roberto Mangabeira Unger expunha a questão de maneira
incisiva: "Por que o Brasil não tem política exterior?".
Sem espírito
de polêmica, é possível alinhar três assuntos
internacionais que demandam a atenção do governo e da oposição.
O primeiro
assunto é frio e concerne ao despreparo do país para enfrentar
as negociações econômicas externas. Ainda na República
Velha, quando Nilo Peçanha ocupava o posto de chanceler (1917-1918),
foi criado o Departamento dos Serviços Econômicos e Comerciais,
que facultou, pela primeira vez, ações coordenadas do Itamaraty
com os ministérios da Fazenda e da Agricultura. No entanto, quase
um século depois, a colaboração intergovernamental
na área de comércio externo continua desconchavada. Responsável
direto pela área, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria
e Comércio Exterior conta com pouca massa crítica. Segundo
reportagem de Paula Puliti, em O Estado de S..Paulo
(30 de março de 2002), no setor de defesa comercial o Ministério
do Desenvolvimento dispõe de apenas quinze especialistas, enquanto
o México tem mais de 1 000 técnicos nesse setor.
O segundo
assunto é mais quente. Trata-se do destino de Angola. Há
alguns dias o Exército angolano e as forças rebeldes da
Unita assinaram um acordo que pode dar um basta a 27 anos de guerra civil.
Pilhados, martirizados, os povos angolanos são vítimas de
uma tragédia multissecular. Uma tragédia em que o Brasil
deve assumir sua parte de responsabilidade por ter participado do tráfico
negreiro que assolou a região até 1850. Trazidos acorrentados,
os angolanos constituíram o núcleo humano e cultural da
nação brasileira. Chegou a hora de saldar nossa dívida,
chegou a hora de ajudarmos Angola a viver em paz.
O terceiro
assunto é quentíssimo. Pelo sim, pelo não, o presidente
Bush resolveu arrochar a opção militar. Segundo o noticiário
do Los Angeles Times e do New York Times, o Pentágono
passou a propugnar o uso de minibombas atômicas. Ou seja, de armas
nucleares para estourar depósitos subterrâneos onde estariam
escondidas armas (nucleares, químicas, bacteriológicas)
de destruição maciça. O relatório do Pentágono
iria ainda mais longe, citando os países que poderiam ser visados:
Iraque, Irã, Síria, Líbia, Coréia do Norte,
China e Rússia. Para o New York Times, essa política,
caso venha a ser adotada, seria uma "loucura irresponsável". E
o jornal parisiense Le Monde completa: "O documento do Pentágono
corresponde a um Estado tomado de pânico, não corresponde
a uma potência consciente de suas responsabilidades: ele é
assustador".
A hipótese
de banalização das armas atômicas, inscrita na proposta
do Pentágono, liquidaria os tratados internacionais de não-proliferação
nuclear e jogaria o Brasil no meio da tormenta, relançando a corrida
nuclear. Todos esses problemas são graves e de solução
mais ou menos complexa. O que não tem cabimento é ignorá-los,
como se ainda estivéssemos vivendo no tempo de Nilo Peçanha.
Luiz
Felipe de Alencastro é historiador e professor titular
da Universidade de Paris Sorbonne (abomey@uol.com.br)
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