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Roberto
Pompeu de Toledo
No tempo das
Balas Futebol
Os craques
ficavam
anos no
mesmo time. Pode o jovem
leitor imaginar uma coisa dessas?
Pode haver
futebol sem as Balas Futebol? Dada a gravidade da questão, vai-se
repetir a pergunta: "Pode haver futebol sem as Balas Futebol?". A resposta,
por mais frustrante, é que sim, pode. Com mágoa e tristeza,
reconheça-se que pode. O mundo é cruel o suficiente para
permitir que o futebol prossiga sua carreira vitoriosa, mesmo sem as Balas
Futebol. Mas algo se perdeu no meio do caminho. Algo do encanto se quebrou.
Esclareça-se
ao leitor desavisado o que eram as Balas Futebol. Eram balas que traziam,
junto, figurinhas com as estampas dos craques dos diferentes times. Adquiria-se
um álbum e ia-se colando nele as figurinhas. Talvez as gloriosas
Balas Futebol não tenham sido as únicas do gênero.
Álbuns com o mesmo espírito, de iniciativa de outros valentes
empreendedores, terão existido. Importante a ressaltar é
o papel que, tanto no futebol como na vida em geral, desempenhavam tais
álbuns. Eles faziam parte da educação sentimental
dos meninos.
O futebol
de hoje, sob o puro aspecto quantitativo, deixa o de ontem longe. É
acompanhado por multidões incalculáveis. Tem a televisão
a seu serviço, essa máquina de criar fenômenos avassaladores.
Movimenta interesses e quantias estratosféricas. Até no
Japão e na Coréia quem imaginaria? é
popular. Uma Copa do Mundo, nos dias que correm, é evento planetário
como nenhum outro. Já sob o ponto de vista da qualidade da relação
com o torcedor, o futebol atual perde. Havia um vínculo afetivo
entre o craque e o clube, o craque e o torcedor e o torcedor e o clube,
que foi comprometido. Atentemos, para ter idéia precisa do que
se está tentando dizer, em duas diferenças fundamentais
entre o futebol de ontem e o de hoje.
A primeira
diz respeito ao uniforme. Antes, os times apresentavam-se sempre com o
mesmo. Vá lá: não era sempre, era quase sempre. Havia
ocasiões uma em cada dez, não mais que isso
em que era preciso trocar de uniforme, pois o do adversário era
parecido. Trocava-se então pelo uniforme reserva, que por sua vez
era sempre o mesmo, o único e mesmo uniforme reserva. Hoje, o que
acontece? O mesmo time pode aparecer com a camisa branca num jogo, listrada
no seguinte, cinza no terceiro jogo e com bolinhas e rendas no quarto,
isso quando o time alvinegro não se traveste de vermelho, o rubro-negro
de verde e o tricolor de um único e inteiriço amarelo. Vale
tudo, em favor do contraste que a televisão julgar mais conveniente
para a transmissão.
A segunda
diferença é que os times, antes, permaneciam com as mesmas
escalações por anos a fio. Podia haver uma modificação
pontual aqui e ali, mas no geral, na base, no núcleo duro, a escalação
permanecia a mesma. Pode o jovem leitor imaginar uma coisa dessas? Era
um tempo de estabilidade e permanência. Os craques ficavam longamente,
muitas vezes a vida inteira, nos mesmos clubes. Em conseqüência,
acabavam se identificando com eles. Não se precisa ir muito longe:
isso acontecia ainda nos anos 80. Zico era do Flamengo. Zico era o
Flamengo. Roberto Dinamite era do Vasco. Um pouco mais para trás,
Ademir da Guia, chamado o Divino, a quem João Cabral de Melo Neto
dedicou um poema que lhe descrevia o estilo melhor do que qualquer comentarista
esportivo ("Ademir impõe com seu jogo / o ritmo de chumbo (e o
peso) / da lesma, da câmara lenta, / do homem dentro do pesadelo"),
era do Palmeiras. Era o Palmeiras. E Pelé naturalmente era
do Santos, assim como Garrincha era do Botafogo, apesar das peregrinações
por outros clubes impostas pelas humilhações de fim de carreira.
Hoje, o
que se vê? Tomem-se os craques da seleção, os Edilsons
e Luizões da vida. Em que time jogam? Mais adequado seria perguntar:
em que time estão jogando neste momento, 3 da tarde? E em qual
estarão às 4? Se há tanta inconstância, não
há como firmar vínculo com os clubes. Portanto, não
há como firmar vínculo com o torcedor. Como resultado, eis-nos
introduzidos a um futebol sem heróis. Ademir da Guia tem uma estátua
na sede do Palmeiras. Já Romário, quem o homenageará?
Nestes últimos anos, ele jogou no Vasco e em seu contrário,
o Flamengo. Tanto para os torcedores de um clube como do outro, ele é
em parte herói e em parte traidor.
Neste ponto
nos reencontramos com as Balas Futebol. Se ainda pode haver futebol
e como pode , o fato é que não pode haver mais Balas
Futebol. O álbum de figurinhas depende de um mínimo de estabilidade
nas escalações. Ajuda-os, igualmente, a estabilidade dos
uniformes. Para fazer um deles, hoje em dia, só recorrendo a um
sistema em que as figurinhas trariam apenas a cara dos jogadores, e os
álbuns viriam com cartelas de uniformes para recortar. Às
caras seriam juntados os diferentes uniformes, conforme os jogadores fossem
mudando de time, e conforme o mesmo time fosse mudando de uniforme. Seria
um jogo parecido com aquele em que as bonecas vêm com diferentes
roupinhas para recortar e vestir nelas. Ficaria mais para brincadeira
de menina que de menino, mas que outro jeito?
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