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Edição 1 746 - 10 de abril de 2002
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Liberdade tem preço

Montar a própria casa exige
investimento planejado e cálculo
cuidadoso das contas mensais

Adriana Negreiros

Sim. É verdade que os jovens estão saindo cada vez mais tarde da casa dos pais. Mas nada mudou naquele sonho de ter um espaço próprio, longe do olhar vigilante deles e daquela decoração que, convenhamos, é do século passado. Com o primeiro emprego e algum dinheiro no bolso, muitos se aventuram nessa experiência, sozinhos, com amigos ou formando um casal. Aí vem a barra de enfrentar as contas domésticas e – pior – o risco de, meses depois de dar o grito de independência, voltar para a casa dos pais. Para evitar essa situação, é melhor conter o ânimo e realizar algumas contas antes de procurar o apartamento. Quem não tem o hábito de fazer compras, de pagar conserto de vazamento nem de manter em dia a taxa do condomínio costuma tomar um susto na hora de analisar o primeiro fechamento do caixa doméstico, no fim do mês.

O primeiro passo para a mudança sem trauma é investir de forma planejada na infra-estrutura. Para montar uma casa básica para duas pessoas, num padrão próximo ao de classe média, não se gastam menos de 5 000 reais. A conta inclui móveis essenciais e utensílios domésticos, além de ser o primeiro banho de água fria em quem acredita que é possível sobreviver apenas com uma TV e um colchão. Hoje, nem mesmo quem passa alguns dias numa barraca de camping tolera um ambiente tão espartano. O passo seguinte é colocar na ponta do lápis as despesas mensais, incluindo siglas e nomes estranhos ao vocabulário de quem acaba de sair da adolescência – coisas como IPTU, o imposto predial e territorial urbano, conta telefônica e preço do gás. Para quem quer um pouco mais de sofisticação e conforto, há ainda a assinatura da TV a cabo e o provedor de internet – sem falar na diária da faxineira. O preparador físico baiano Cláudio Almeida, de 24 anos, seguiu com cuidado a receita para deixar sem riscos a casa da mãe, no próximo mês. Já tem a televisão e utensílios da cozinha, além de lençóis e toalhas, e vai usar uma economia de 3.000 reais para comprar cama, geladeira e uma estante para os livros. Como não come em casa, não comprará o fogão, por enquanto. Em lugar de sofá, terá almofadas. Almeida pretende adquirir móveis aos poucos, investindo na qualidade, uma atitude elogiada pelos decoradores e por quem já teve a experiência de objetos que desmoronam no primeiro esbarrão. "Em lugar de comprar vários móveis ruins, é melhor adquirir uma peça boa de cada vez", reza a arquiteta Eliane Kruschewsky. No começo, ela sugere que o morador apele para a criatividade. Empilhar os livros e colocar uma luminária no topo, por exemplo, resolve ao mesmo tempo a falta de estante e de criado-mudo e dá um clima de criatividade ao ambiente.

Quem não gosta de improvisos tem a alternativa de comprar pelo menos o básico e ir trocando peças mais tarde. O casal de publicitários Priscila Paiva, de 23 anos, e Jean Pierre Silveira, de 25, investiu 11 000 reais na primeira mobília de um apartamento em Fortaleza e tem praticamente tudo, incluindo itens que muitos considerariam um luxo para quem está começando, como máquina de lavar, DVD, ar-condicionado, computador, scanner e TV de 29 polegadas. Eles passaram um ano e meio economizando para o casamento e, mesmo com tanto planejamento, ainda foram surpreendidos com as contas de fim de mês. Pagam 370 reais de aluguel e quase o dobro com imposto, energia, supermercado e faxineira. Além de acreditarem na sobrevivência sem o mínimo de conforto, os donos-de-casa de primeira viagem também se equivocam ao crer que o telefone celular é suficiente. Na primeira conta, vão descobrir que, só de ligações para pedir entrega de comida, gastaram mais que com a contratação de uma linha fixa para a residência. Veja no fichário os custos que devem ser levados em conta antes de proclamar a própria independência.

 
 


Fotos Dercilio/Mauricio Nahas/Renata Ursaia/Luiz Roberto Pereira/Sergio Militello

 

   
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