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Edição 1 746 - 10 de abril de 2002
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A última de Antinori

Jornal noticia que o médico italiano
criou um clone e o implantou no
útero de uma mulher

O ginecologista italiano Severino Antinori, o médico que no ano passado provocou uma gritaria entre cientistas do mundo inteiro ao anunciar que pretende clonar um ser humano, voltou a provocar confusão. Na última semana, um jornal do Oriente Médio publicou a notícia de que suas pesquisas estão caminhando e que um embrião clonado já teria até sido implantado em uma mulher, que estaria na oitava semana de gravidez. Citando o próprio Antinori como fonte, a reportagem afirma que o médico fez o anúncio ao responder a uma pergunta durante uma reunião sobre ética e genética realizada em Abu Dabi, nos Emirados Árabes Unidos. A história do jornal Gulf News sobre Antinori foi reproduzida por diversas agências noticiosas e pela internet. A clínica do médico em Roma não confirmou nem desmentiu a notícia. Em entrevista a VEJA, em agosto, Antinori prometeu para 2003 o nascimento do primeiro bebê clonado produzido em seus laboratórios.

O principal argumento contra as pesquisas de Antinori é que não há conhecimento científico suficiente para evitar que embriões clonados sejam portadores de graves defeitos e malformações. O anúncio por meio de um jornal como o Gulf News deixou indignados outros pesquisadores. "É a prova de que já é hora de termos leis internacionais que proíbam aventureiros como Antinori de fazer coisas que a sociedade vê com restrições", disse Richard Nicholson, editor do Boletim de Ética Médica britânico. "Ele não está nem um pouco interessado no bem-estar das crianças que vão nascer. Só lhe interessa sua notoriedade." O professor de genética Steve Jones, do University College London, também desconfia da veracidade da notícia e a atribui ao gosto de Antinori pelos holofotes. "O fato de essa informação ter saído pelo serviço de notícias e não por uma revista científica nos dá a dimensão de como esse senhor procura promoção publicitária", avalia Jones. Antinori não apareceu para comentar o que foi publicado no Gulf News. No passado, ele costumava rebater as críticas com argumentos grandiloqüentes. "Não adianta ficarmos receosos porque, se tivermos medo, a ciência e a medicina se estagnarão", diz o médico, que já se comparou a Galileu Galilei, o astrônomo perseguido pela Igreja Católica no século XVII.

Os cientistas têm motivos de sobra para não confiar em Antinori. Suas pesquisas vêm sendo conduzidas na semiclandestinidade. O médico não revela o nome dos patrocinadores de sua empreitada, avaliada em mais de 300.000 dólares. Diz apenas que são investidores árabes e asiáticos. Antinori também se recusa a dizer quem são os vinte pesquisadores de diferentes nacionalidades que trabalham no projeto e mantém segredo sobre as clínicas envolvidas no processo. A exceção é Panayiotis Zavos, médico americano que tem um centro de pesquisa em reprodução artificial no Estado do Kentucky, Estados Unidos. Zavos é o único parceiro de Antinori que aceitou aparecer publicamente. Um mês depois de revelar seu projeto, Antinori foi expulso da Associação Internacional de Clínicas e Laboratórios Privados de Reprodução Artificial (Apart), entidade da qual chegou a ser vice-presidente. O motivo da expulsão foi "má conduta a respeito de clonagem para fins de reprodução". A Associação Médica Italiana também está nos calcanhares de Antinori e ameaça revogar seu registro profissional caso ele não desista de seus planos. O médico não tem nenhuma intenção de fazer isso. Ele diz que a iniciativa apresenta bom prognóstico e que mais de 600 casais italianos e outros 6.000 americanos já se inscreveram como cobaias. A questão é saber até que ponto esses números são verdadeiros.

   
 
   
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