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A
marcha da insensatez
AP
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Reuters
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GUERRA
TOTAL
Soldados israelenses ocupam Belém (foto à esq.),
e palestino encapuzado resiste em Nablus: paz soterrada |

Veja também |
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Israel
é uma ilha menor que o Estado de Sergipe em que 5 milhões
de judeus estão cercados por um mar de 344 milhões de adversários,
espalhados pelos países islâmicos do Oriente Médio
e do norte da África. O Estado judeu travou e venceu cinco guerras
de grande escala com os vizinhos. A sensação de viver entre
inimigos gerou nos israelenses o condicionamento de reagir a qualquer
ameaça de agressão com brutalidade dobrada. É o que
está acontecendo agora, num dos mais sinistros desdobramentos de
um conflito que começou há mais de meio século, desde
a implantação do Estado de Israel na região. A ofensiva
militar dos israelenses contra as áreas habitadas pelos palestinos
nas últimas semanas chocou o mundo pela envergadura da operação
e também pelos ataques contra a população civil.
A mobilização de tropas israelenses, a maior em duas décadas,
veio como resposta a uma campanha de atentados contra civis israelenses,
com a participação de homens e mulheres-bomba, uma entidade
típica dessa guerra de pólvora e de ódio. Como a
maioria das guerras, essa de agora é ditada pela insensatez. Palestinos
e judeus chegaram a um ponto em que nenhum dos lados quer ceder e ambos
estão dispostos a ir até o fim. Essa determinação
bélica tem contornos de suicídio e coloca riscos para uma
região, o Oriente Médio, que é o mais sensível
barril de instabilidades do planeta.
Um dos mais
graves aspectos desse conflito é misturar num só aquilo
que o escritor israelense Amós Oz diz que são, na verdade,
dois conflitos separados. Pacifista histórico e inimigo declarado
do nacionalismo exacerbado do primeiro-ministro israelense, Ariel Sharon,
Oz escreveu, num artigo publicado no Brasil pelo jornal Folha de S.Paulo,
que é preciso distinguir entre as duas guerras. Uma é a
guerra legítima do povo palestino para libertar-se da ocupação
israelense e pelo direito a ter um Estado independente. A segunda guerra
é travada pelo Islã fanático, desde o Irã
até a Faixa de Gaza, com o objetivo de destruir Israel e varrer
para o mar até o último dos judeus que lá vivem.
Há judeus como Ariel Sharon que defendem a ocupação
permanente da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, territórios
capturados pelos israelenses na guerra de 1967. O argumento é o
de que o país é alvo de uma guerra de extermínio
desde 1948, ano de fundação do Estado de Israel, e está
no direito de oprimir os palestinos em nome da própria sobrevivência.
Do lado árabe, o argumento simplista é o de que o direito
de resistir à ocupação inclui a licença para
matar todos os israelenses. Amós Oz propõe que Israel recue
dos territórios ocupados e trace suas fronteiras com base na demografia
e no imperativo de não oprimir outro povo. Se ainda assim o fanatismo
continuar sua campanha de assassinatos de civis israelenses, pelo menos
Israel terá só uma guerra a travar, e não duas. Com
a vantagem de que seria uma guerra justa pela terra, liberdade e vida
de seu povo.
AP
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CIDADE
SITIADA
Policial israelense reprime pacifistas que tentavam levar ajuda humanitária
a Ramallah: ruas e carros arrasados |
O que o mundo
quer ver é judeus e palestinos vivendo em harmonia em dois Estados
vizinhos. A realidade não é essa porque a dinâmica
do conflito colocou o poder nas mãos de gente por demais envolvida
na lógica perversa das vinganças sangrentas. Até
a tarde de sexta-feira passada, os tanques israelenses já tinham
tomado sete das oito principais cidades autônomas palestinas. A
exceção é Jericó. Dezenas de civis foram mortos,
e mais de 1.000 homens, presos. O cenário
nas cidades ocupadas é de devastação. Carros, casas
e ruas foram arruinados por bombardeio e pelo tráfego de blindados
de 60 toneladas. Confinado a duas salas no único prédio
inteiro no complexo de edifícios que lhe serve de quartel-general,
na cidade de Ramallah, Yasser Arafat, líder daquilo que mais se
aproxima de um governo palestino, teve o primeiro momento de alívio
na sexta-feira. Foi quando recebeu a visita do americano Anthony Zinni,
enviado pelo presidente George W. Bush para negociar um cessar-fogo (veja
reportagem). Nesta semana chega à região
o secretário de Estado dos EUA, Colin Powell, com a missão
de ressuscitar as negociações de paz. Na quinta-feira, Washington
exigiu a retirada israelense das áreas palestinas. Foi a primeira
vez que os EUA se manifestaram de forma tão clara sobre o assunto.
Até então, os americanos vinham se omitindo e Sharon aproveitava
a hesitação de Washington para ir em frente com seus ataques
maciços. De acordo com jornais de Tel-Aviv, Sharon finalmente deu
ordens para encerrar as operações militares neste fim de
semana.
Há
nove anos, quando os acordos de paz entre israelenses e palestinos foram
assinados, Arafat recebeu o controle administrativo das maiores áreas
urbanas da Cisjordânia e de Gaza e se comprometeu a trabalhar para
evitar ataques a Israel. Não cumpriu a promessa. Em parte, porque
sua polícia não tem condições de impedir cada
ataque suicida. Mas também porque não quis. Os israelenses
também deram sua contribuição ao conflito. Israel
relutou em cumprir as retiradas previstas e continuou a instalar colônias
judaicas nas terras em que os palestinos querem construir seu Estado.
AP
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CUIDADOS
EXTREMOS
Palestino levanta o casaco para comprovar que não está
armado, em Ramallah: medo do homem-bomba |
O primeiro-ministro de Israel foi à guerra sob o argumento oficial
de que precisa destruir a rede do terrorismo árabe na região.
Sua intenção real é enterrar de vez os acordos de
paz de 1993, aos quais sempre se opôs, e destruir a infra-estrutura
penosamente criada pelos palestinos como preparativo para um Estado independente.
Antes de atacar, Sharon prometeu aos americanos não tocar em Arafat.
No meio da semana, mudou de idéia e se pôs a falar em expulsá-lo
para o exílio. É quase certo que fracassará em todos
os seus objetivos. O terrorismo palestino se alimenta do desespero de
uma população oprimida. Tudo de que precisa para despachar
um terrorista suicida são homens e mulheres cheios de ódio
e dispostos a morrer e matar em nome de Alá e da causa palestina.
Sharon também tentou isolar Arafat. Sem luz e com poucos mantimentos,
durante uma semana o chefe da Autoridade Palestina esteve ligado ao mundo
apenas por telefones celulares. Nesse período, seu prestígio
aumentou entre seu próprio povo e ele acabou recebendo a solidariedade
da maioria dos países, sobretudo os europeus. O governo americano,
que chegou a dizer que Arafat era pessoalmente responsável pela
onda de atentados suicidas, admitiu que ele é o líder legítimo
dos palestinos e que o "caminho da paz passa por Arafat".
A Palestina
vive um conflito que se arrasta desde o início do século
XX, quando as primeiras levas de judeus sionistas desembarcaram com planos
de criar um Estado judaico na região. Em 1947, a ONU votou pela
partilha da área em dois Estados e, no ano seguinte, os judeus
criaram Israel. Perto de 800.000 árabes
deixaram o território do novo Estado ou foram expulsos e hoje formam
um contingente de 3,6 milhões de refugiados que vivem em vários
países. Foi nesse cenário que surgiu Arafat. Nos anos 70,
ele colocou a questão palestina no centro das atenções
mundiais com uma sangrenta campanha terrorista contra Israel. Até
meados dos anos 80, o nacionalismo palestino tinha um objetivo claro:
destruir Israel. Nos anos 90, reduziu a ambição a uma meta
mais realista: a criação de um Estado soberano na Cisjordânia
e na Faixa de Gaza, que, juntas, têm uma área um pouco maior
que a do Distrito Federal. A invasão israelense iniciada na sexta-feira
29 ocorreu um dia depois de 22 países árabes endossarem
uma proposta de paz do príncipe coroado da Arábia Saudita,
Abdullah, que, pela primeira vez na história, ofereceu a Israel
relações normais com todos os Estados árabes. Esse
desprezo de Sharon por uma oferta de paz não significa que a guerra
continuará indefinidamente até alguém esmagar o último
sobrevivente do outro lado. Apesar da impressão que se tem de que
a situação no Oriente Médio sempre tende a piorar,
isso não é verdade em todos os casos. A paz entre Israel
e o Egito foi assinada há 24 anos e persiste, apesar de todas as
dificuldades que apareceram desde então. Não é por
desígnio divino que os dois povos se matam. Quando querem, fazem
a paz.
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