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Edição 1 746 - 10 de abril de 2002
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A boca do Barbosa

"Da próxima vez que um estrangeiro
falar mal do Brasil, é melhor amordaçar
o solerte embaixador
Rubens Barbosa"

Deveriam ter mais piedade de nós. Somos inseguros. Vulneráveis. Basta um estrangeiro dar uma alfinetada no Brasil que a nossa auto-estima vai lá para baixo. Humilhados, ofendidos, sempre reagimos de maneira exagerada, demonstrando absoluta falta de compostura. Em setembro do ano passado, por exemplo, a revista inglesa The Economist disse que o PIB do México havia superado o do Brasil. Fernando Henrique Cardoso comentou a notícia com ironia e descaso, afirmando tratar-se "de mera questão de contabilidade". Agora o IBGE confirmou o dado. Não só o PIB mexicano superou o brasileiro, como se tornou 20% maior: 608 bilhões de dólares contra apenas 500. Fernando Henrique Cardoso nunca entendeu direito esse negócio de PIB. Em 1997, chegou a prever que chegaríamos a 1 trilhão de dólares por volta de 2001. Já estamos em 2002 e o PIB é a metade disso. Fica a suspeita de que, se Fernando Henrique Cardoso fosse um pouquinho mais versado em matéria de contabilidade, nosso PIB seria, no mínimo, igual ao mexicano.

Houve também aquele desagradável desentendimento com o secretário do Tesouro americano, Paul O'Neill. Em fevereiro, durante o Fórum Econômico Mundial, ele declarou que a taxa de juros brasileira era alta por causa da corrupção. Nosso embaixador nos Estados Unidos, Rubens Barbosa, xingou-o de ignorante. Tasso Jereissati acusou-o de desonestidade intelectual. José Serra, de ser preconceituoso. A única sorte foi Roseana Sarney ter tido o bom senso de não se meter no bate-boca. De fato, menos de um mês depois, a Polícia Federal encontrou uma montanha de dinheiro suspeito no cofre de sua empresa, provocando uma crise de governo e a ameaça de que, sem a CPMF, os juros tenham de continuar lá em cima.

Duas semanas atrás, quem entrou para a lista negra do Brasil foi o correspondente do jornal The New York Times, Larry Rohter, autor de uma longa reportagem sobre o trabalho escravo no Norte do país. O embaixador Barbosa novamente estufou o peito e partiu para a briga, com uma carta furibunda ao jornal, embora tenha sido obrigado a admitir o único ponto que importa: ou seja, ainda temos escravos. A verdade é que, levando-se em conta a relativa desimportância do Brasil no cenário mundial, o The New York Times faz uma cobertura surpreendentemente completa do que acontece por aqui. Só no último ano, foram mais de 400 matérias a nosso respeito. Claro que eles privilegiaram as notícias diretamente relacionadas com o bolso deles, como o risco de calote por causa do contágio argentino, ou a quebra das patentes dos remédios, ou a desaceleração da economia provocada pelo racionamento de energia. Mas Rohter também mergulhou no interior do Brasil e escreveu reportagens curiosas sobre os mais variados temas, como os rodeios em Barretos ou a fama de homossexualismo dos homens de Pelotas.

A revista Newsweek foi outra a cair na mira do embaixador Barbosa. "Irresponsável", ele bradou. Tudo porque o correspondente Mac Margolis, notório admirador da política econômica brasileira, sobretudo de Armínio Fraga, ousou criticar os resultados da reforma agrária. Isso num momento em que até o líder palestino Yasser Arafat criticou nossa reforma agrária, empunhando a bandeira do MST. Da próxima vez que um estrangeiro falar mal do Brasil, é melhor amordaçar o solerte embaixador Barbosa. Lembrando que, dentro de si, todo brasileiro tem uma certa dose de embaixador Barbosa.

 
 
   
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