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A
boca do Barbosa
"Da
próxima vez
que um estrangeiro
falar mal do Brasil, é melhor amordaçar
o solerte embaixador Rubens
Barbosa"
Deveriam ter mais piedade de nós. Somos inseguros. Vulneráveis.
Basta um estrangeiro dar uma alfinetada no Brasil que a nossa auto-estima
vai lá para baixo. Humilhados, ofendidos, sempre reagimos de maneira
exagerada, demonstrando absoluta falta de compostura. Em setembro do ano
passado, por exemplo, a revista inglesa The Economist disse que
o PIB do México havia superado o do Brasil. Fernando Henrique Cardoso
comentou a notícia com ironia e descaso, afirmando tratar-se "de
mera questão de contabilidade". Agora o IBGE confirmou o dado.
Não só o PIB mexicano superou o brasileiro, como se tornou
20% maior: 608 bilhões de dólares contra apenas 500. Fernando
Henrique Cardoso nunca entendeu direito esse negócio de PIB. Em
1997, chegou a prever que chegaríamos a 1 trilhão de dólares
por volta de 2001. Já estamos em 2002 e o PIB é a metade
disso. Fica a suspeita de que, se Fernando Henrique Cardoso fosse um pouquinho
mais versado em matéria de contabilidade, nosso PIB seria, no mínimo,
igual ao mexicano.
Houve também aquele desagradável desentendimento com o secretário
do Tesouro americano, Paul O'Neill. Em fevereiro, durante o Fórum
Econômico Mundial, ele declarou que a taxa de juros brasileira era
alta por causa da corrupção. Nosso embaixador nos Estados
Unidos, Rubens Barbosa, xingou-o de ignorante. Tasso Jereissati acusou-o
de desonestidade intelectual. José Serra, de ser preconceituoso.
A única sorte foi Roseana Sarney ter tido o bom senso de não
se meter no bate-boca. De fato, menos de um mês depois, a Polícia
Federal encontrou uma montanha de dinheiro suspeito no cofre de sua empresa,
provocando uma crise de governo e a ameaça de que, sem a CPMF,
os juros tenham de continuar lá em cima.
Duas semanas atrás, quem entrou para a lista negra do Brasil foi
o correspondente do jornal The New York Times, Larry Rohter, autor
de uma longa reportagem sobre o trabalho escravo no Norte do país.
O embaixador Barbosa novamente estufou o peito e partiu para a briga,
com uma carta furibunda ao jornal, embora tenha sido obrigado a admitir
o único ponto que importa: ou seja, ainda temos escravos. A verdade
é que, levando-se em conta a relativa desimportância do Brasil
no cenário mundial, o The New York Times faz uma cobertura
surpreendentemente completa do que acontece por aqui. Só no último
ano, foram mais de 400 matérias a nosso respeito. Claro que eles
privilegiaram as notícias diretamente relacionadas com o bolso
deles, como o risco de calote por causa do contágio argentino,
ou a quebra das patentes dos remédios, ou a desaceleração
da economia provocada pelo racionamento de energia. Mas Rohter também
mergulhou no interior do Brasil e escreveu reportagens curiosas sobre
os mais variados temas, como os rodeios em Barretos ou a fama de homossexualismo
dos homens de Pelotas.
A revista Newsweek foi outra a cair na mira do embaixador Barbosa.
"Irresponsável", ele bradou. Tudo porque o correspondente Mac Margolis,
notório admirador da política econômica brasileira,
sobretudo de Armínio Fraga, ousou criticar os resultados da reforma
agrária. Isso num momento em que até o líder palestino
Yasser Arafat criticou nossa reforma agrária, empunhando a bandeira
do MST. Da próxima vez que um estrangeiro falar mal do Brasil,
é melhor amordaçar o solerte embaixador Barbosa. Lembrando
que, dentro de si, todo brasileiro tem uma certa dose de embaixador Barbosa.
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