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Apagão na
cultura
O historiador
americano diagnostica
um mal-estar na civilização ocidental,
mas acha que a sua decadência
tem remédio

Carlos Graieb
| "Gostaria
de ter vivido no século XIX, a partir de 1830. Havia um sentimento
de conquista no ar" |
Charles Ford
 |
Publicado
há dois anos nos Estados Unidos e agora lançado no Brasil,
o livro Da Alvorada à Decadência (Editora Campus)
é uma daquelas obras de deixar qualquer historiador com inveja.
Cobre um período de 500 anos e defende a tese de que a cultura
ocidental experimenta um processo de declínio. Suas páginas
transpiram uma erudição impressionante e, como se não
bastasse, estão recheadas de opiniões contundentes. A complacência,
certamente, não faz parte do repertório de seu autor, o
americano de origem francesa Jacques Barzun. Quando lhe perguntam quanto
tempo levou para escrever um livro de tanto fôlego, ele responde:
"A vida toda". Barzun tem 94 anos e conserva intacta sua lucidez.
Passou a infância na Paris dos modernistas. Mudou-se para os Estados
Unidos na década de 20, para estudar na Universidade Colúmbia.
Como professor, foi um dos fundadores da disciplina de história
cultural. Ele concedeu esta entrevista a VEJA por telefone, de sua casa
em San Antonio, no Texas.
Veja
O que o leva a pensar que a cultura ocidental está em decadência?
Barzun A
palavra decadência expressa uma perda de energia. Transmite a idéia
de que as chaves mestras da cultura já não têm o poder
de abrir novas portas, de inspirar avanços. No lugar das possibilidades
há repetição, estagnação e tédio.
Há sinais de sobra de que isso está acontecendo no Ocidente.
As confissões de mal-estar são contínuas, o repúdio
e a deturpação das instituições são
uma constante. Tomemos o Estado-Nação, por exemplo. Ele
foi uma das maiores invenções de nossa era. Mas está
se desfazendo em toda parte, porque a idéia de pluralismo político,
sobre a qual se assentava, foi substituída pela idéia de
separatismo. Mais e mais os homens querem unir-se em grupos pequenos de
pensamento homogêneo, que formem unidades políticas separadas.
A região dos Bálcãs, claro, é o exemplo clássico.
Mas o processo pode ser observado em qualquer lugar, da Catalunha à
Escócia, que há pouco instituiu um Parlamento independente
do Parlamento inglês. Outro indício está na busca
de tantos ocidentais por seitas e religiões que vêm do Oriente
e trabalham idéias como a do nirvana ou a do "não-ser".
Isso não é um sinal de entusiasmo com a nossa cultura.
Veja
E no campo das artes?
Barzun O
esgotamento é ainda mais patente. Observe a agitação
frenética, os esforços desesperados para criar novidades.
Os rótulos se sucedem da "antiarte" à "arte encontrada",
à "arte descartável" e assim por diante. As belas idéias
surgidas na Renascença, e com as quais lidamos por 500 anos, tiveram
seu prazo de validade vencido. Tome uma obra escrita no auge da Renascença,
o Pantagruel, do francês Rabelais, e um livro escrito no
auge do modernismo, o Ulisses, do irlandês James Joyce. Joyce
tomou muitos temas e procedimentos lingüísticos emprestados
de Rabelais. Ambos expõem recantos sórdidos da sociedade,
ambos exploram vigorosamente a carnalidade humana. Mas, enquanto a literatura
do francês nos deixa estimulados e eufóricos, a de Joyce
é depressiva. Basta ler os dois livros para perceber as diferenças
de ânimo entre uma cultura em sua aurora e uma cultura em desencanto.
Veja
O senhor parece ter uma opinião ambígua sobre a arte
moderna. Reconhece a força de certos artistas, mas lamenta de maneira
geral o espírito com que fizeram suas obras.
Barzun
Nos primórdios, o modernismo foi uma batalha para livrar o artista
de padrões ancestrais de educação e liberá-lo
para desenvolver uma visão individual do mundo. Mas tudo que os
artistas viram foi um mundo injusto, materialista, desprezível.
Desde os anos 20, pelo menos, a arte ocidental tem sido de destruição
deliberada da sua própria tradição e de hostilidade
contra a sociedade, de maneira geral. O trabalho de destruição
das pontes com o passado acontece até mesmo onde o repertório
utilizado é antigo. Veja o caso das produções teatrais.
Hoje ninguém mais encena Shakespeare. Encenam falsificações
que nem sequer se preocupam em entender as intenções originais
do artista.
Veja
O senhor criou um rótulo para o momento presente. Diz que vivemos
em "tempos demóticos". O que quer dizer com isso?
Barzun
Fiz
isso em nome do bom uso das palavras. As pessoas costumam referir-se a
práticas "democráticas" não apenas no campo político,
mas também no das artes e do comportamento. Eu preferiria manter
a palavra democracia para designar apenas um sistema político
que, diga-se de passagem, não atingimos de maneira plena em lugar
nenhum. Para designar coisas relativas a modo e estilo de vida
roupas, comidas, formas de expressão , tomei emprestada do
grego uma palavra de mesma raiz, "demótico", que significa simplesmente
"do povo". A primeira moda demótica surgiu logo depois da Revolução
Francesa, quando os calções da aristocracia foram abandonados
em favor da calça do trabalhador. Hoje, não é preciso
dizer, a calça jeans de vaqueiro tornou-se universal com
suas variantes desbotadas, rasgadas e mal-ajambradas. Mas a vestimenta
é apenas o sinal mais óbvio do estilo demótico, que
está em seu auge e é marcado pela displicência e pela
crença de que nada deve interferir na realização
de todo e qualquer desejo.
Veja
Nas últimas décadas, vários países que
viviam sob regimes ditatoriais entraram em processo de democratização.
Bens circulam pelo globo e a medicina ajuda a salvar vidas em países
pobres. Esses eventos são regidos por idéias e técnicas
surgidas no Ocidente. Não seriam um sinal de que a cultura ocidental
ainda tem algo a oferecer?
Barzun É
como eu disse no começo da entrevista: o termo decadência
expressa uma perda de energia, não um estado de ruína total.
Ainda há idéias ocidentais capazes de inspirar e servir
de guia para países jovens. E não há dúvida
de que a ciência e a tecnologia do Ocidente continuarão a
produzir avanços e benesses. É uma ressalva, aliás,
que faço em meu livro: a ciência não passa pelo processo
de declínio observado em outras áreas. Mas isso não
invalida o diagnóstico geral. Digamos que o estado da alma ocidental
não é feliz. Não encontramos ninguém dizendo
a frase de Erasmo no começo da Renascença, e que os franceses
repetiram depois da Revolução de 1789: "Que tempo maravilhoso
para se viver!".
Veja
Supondo que o senhor esteja certo, o que vem depois da decadência?
Barzun Ninguém
sabe e esse é o fato positivo. Meu livro procura descrever
um estado presente, e não fazer profecias. Certos germes sempre
podem se desenvolver numa cultura e causar uma fermentação
que a leve a caminhos imprevistos. Foi o que aconteceu no fim do século
XV, quando a descoberta do Novo Mundo balançou a Europa e abriu
possibilidades antes inimagináveis.
Veja
Existe alguma época em que o senhor gostaria de ter vivido?
Barzun
No
século XIX, a partir de 1830. Foi um tempo de grande inventividade
em toda a Europa. A era se autonomeou Era do Progresso, e com razão.
Foi um tempo de luta contra os resquícios da monarquia e do velho
sistema de classes. Havia um sentimento de conquista, energia e desenvolvimento
no ar. O ambiente mais adequado ao espírito humano.
Veja
Sua vida atravessa o século XX quase inteiro. Sua vivência
pessoal influiu de alguma forma em sua visão de historiador?
Barzun
Sim,
é claro. Eu nasci e passei os primeiros anos de vida na França,
onde meu pai e minha mãe eram amigos e colaboradores da nova geração
de artistas que surgia. Os pintores cubistas freqüentavam nossa casa,
assim como muitos escritores, do romancista André Gide ao poeta
Apollinaire, sobre cujos joelhos eu aprendi a ler as horas num relógio.
Eu compartilhei da atmosfera de alegria e excitação criativa
que envolvia essas pessoas. Olhando em retrospecto, sinto-me uma testemunha
e digo como historiador que aquele foi um dos grandes períodos
criativos de nossa cultura. Então veio a I Guerra Mundial, que
estilhaçou de maneira brutal a idéia que todos fazíamos
do que fosse a civilização. Quando entrei na adolescência,
depois de atravessar quatro anos de conflitos, tinha desenvolvido um quadro
de depressão profunda que me levou a tentar o suicídio.
Esse fato, aliado à dizimação dos quadros de professores
universitários da França e da Inglaterra, foi a causa de
minha mudança para os Estados Unidos, onde completei os estudos.
Minha sensação de viver num mundo em declínio não
é recente, portanto. Nos anos 50, cheguei a ter a impressão
de que nos encaminhávamos para uma reviravolta positiva, mas foi
um engano de minha parte. Esse intervalo não durou quase nada.
A trajetória descendente se acentuou no fim dos anos 60.
Veja
Esse período de decadência descrito pelo senhor coincide
com a expansão da influência da cultura americana pelo globo.
Como cidadão de duas culturas, a francesa e a americana, o senhor
deplora o que se convencionou chamar de americanização da
cultura?
Barzun
Acho
tolice culpar os Estados Unidos. Diria, antes, que o país está
na vanguarda de seu tempo. Se esse tempo é de decadência,
os efeitos se sentem primeiro aqui. Não há nada que obrigue
países de sólida tradição cultural, como a
França ou a Inglaterra, a imitar modas criadas pelos americanos.
Mas eles o fazem, o que mostra que certas correntes de comportamento são
inerentes à nossa época. Onde está escrito, por exemplo,
que é imperativo "democratizar" a educação ao estilo
dos Estados Unidos? No sentido que a palavra assumiu, ela não significa
tornar a educação acessível a todos, mas simplesmente
baixar sua qualidade, de modo a tornar possível que todo mundo
deslize pelos anos de escola sem esforço. Vejo por isso com muito
ceticismo e ironia certos discursos feitos na França, por exemplo,
que falam em proteger a língua e a cultura nacionais. O que as
últimas décadas fizeram à língua francesa
realmente me deixa um pouco irritado. Palavras inglesas são adotadas
de maneira indiscriminada, às vezes mesmo na presença de
equivalentes perfeitamente utilizáveis. Essa adoção
ignorante, sem nenhuma forma de filtragem e adaptação, é
uma força destrutiva da cultura. Só que agora me parece
um pouco tarde para reclamar.
Veja
A América Latina praticamente não é citada em
seu livro. Não há contribuições do subcontinente
à cultura ocidental?
Barzun
As
sociedades latino-americanas são extensões da civilização
européia. Politicamente, não contribuíram com nenhuma
idéia original para o Ocidente. No campo das artes, é possível
destacar nomes e movimentos importantes mas não a ponto
de ter mudado os rumos da cultura. O argentino Jorge Luis Borges, por
exemplo, é um escritor que admiro imensamente. Mas não o
cito de maneira específica no livro, porque se trata de uma estrela
em uma vasta constelação. Em outras palavras, ele pertence
ao universo da arte modernista tardia que discuto no livro. Citei outros
nomes, de igual peso, em vez do dele.
Veja
Seu livro traz várias pequenas biografias de personagens da
cultura ocidental. Algumas escolhas são óbvias, como as
de Martinho Lutero e René Descartes. Outras podem ser consideradas
excêntricas, como a da escritora de romances policiais Dorothy Sayers.
Quais critérios o guiaram na escolha de nomes?
Barzun
Ao
mencionar Dorothy Sayers, Walter Bagehot ou James Agate, para ficar apenas
em alguns ingleses, não estou apenas dando espaço a preferências
pessoais. Estou tentando indicar nomes cuja influência ainda não
foi devidamente reconhecida. Bagehot, por exemplo, foi um dos pensadores
mais originais do século XIX. Dirigiu a revista inglesa The
Economist por dezessete anos e deixou doze volumes de comentários
extremamente lúcidos sobre a política e a economia de seu
tempo. Agate ajudou a formar o gosto artístico de seus compatriotas
no começo do século XX além de ter sido autor
de um diário que ocupa nove tomos, cobre um período de quinze
anos e é um retrato sem igual da Inglaterra do seu tempo. Sayers,
finalmente, é uma das grandes teóricas dessa importante
forma de ficção popular, o romance policial. É também
uma pensadora original no campo da religião. As pessoas deveriam
conhecer esses nomes, e algo sobre o que disseram.
Veja
Em contraste, o senhor dedica muito pouco espaço a figuras
consideradas fundamentais: Darwin, Marx e Freud. Por quê?
Barzun
Creio
que, ao fazer isso, estou em sintonia com o estado atual da reputação
dessas pessoas. Em todo o mundo, o pensamento marxista está em
refluxo. Marx sofreu uma perda enorme de influência como teórico
político. Alguns de seus textos filosóficos ainda são
valorizados mas sobretudo aqueles escritos na juventude, antes
de O Capital. A retração na influência de Freud
também é visível. Seu legado está sob ataque
e nem de longe se fala tanto nele quanto na primeira metade do século
XX. O caso de Darwin talvez seja o mais polêmico. Creio, no entanto,
que a importância dada a ele está em descompasso com suas
conquistas reais. A idéia da evolução das espécies
já circulava 100 anos antes dele. O que Darwin fez foi propor um
mecanismo para a evolução, a célebre idéia
da seleção natural. Ora, se esse mecanismo realmente funciona
como ele descreveu, é algo que os biólogos discutem acaloradamente
hoje em dia. Anos atrás, um biólogo do Instituto Pasteur,
na França, me disse que ninguém mais lá dentro aceitava
ser chamado de darwinista. Não quero dizer com isso que devemos
retornar ao criacionismo, à idéia de que as espécies
foram criadas por Deus da forma como são hoje. Quero dizer apenas
que o desenvolvimento da ciência tem postona
como ele descreveu, é algo que os biólogos discutem acaloradamente
hoje em dia. Anos atrás, um biólogo do Instituto Pasteur,
na França, me disse que ninguém mais lá dentro aceitava
ser chamado de darwinista. Não quero dizer com isso que devemos
retornar ao criacionismo, à idéia de que as espécies
foram criadas por Deus da forma como são hoje. Quero dizer apenas
que o desenvolvimento da ciência tem posto em questão vários
postulados da cartilha darwinista, algo que passa despercebido por quem
não está enfronhado nas discussões.
Veja
Se tivesse de escolher dois nomes representativos dos períodos
de auge e declínio da civilização ocidental, quais
seriam eles?
Barzun No
que se refere ao auge, eu hesitaria entre Shakespeare e Montaigne. Poderíamos
dizer que ambos inventaram o indivíduo, por oposição
ao tipo social. Hoje em dia, não somos apenas cidadãos ou
trabalhadores, mas também indivíduos aos nossos próprios
olhos, graças a esses dois escritores. Um deles é poeta
e dramaturgo inglês, o outro prosador analítico francês:
ambos inventaram modos de expressar a personalidade. O nascimento do indivíduo
e do individualismo foi fundamental, porque encorajou a invenção
nas artes, fomentou a diversidade e a diferença. Além disso,
foi germe para que, na política, surgissem idéias como a
de direitos humanos. No outro extremo, o do declínio, eu indicaria
Pablo Picasso e Marcel Duchamp cuja família, por sinal,
era muito próxima da minha. A despeito da grandeza de ambos, eles
formam um incomparável par de destruidores. Em Duchamp, sobretudo,
é possível ver a imaginação trabalhando deliberadamente
em favor da quebra, da paródia inclemente. Duchamp é um
nome paradigmático. Está na origem da escola que impera
atualmente, quando não existe diferença entre uma obra de
arte e o produto que você encontra no armazém da esquina.
Veja
O que o futuro reserva aos clássicos?
Barzun
Os
clássicos parecem estar afundando rapidamente no esquecimento.
Mas isso já aconteceu antes. A Renascença trouxe de volta
obras da Antiguidade que estavam completamente perdidas. Não há
motivo para um pessimismo terminal. É preciso persistir no ensino
dos clássicos. Não é fácil, já que
uma quantidade básica de informação histórica
se faz necessária, para que as obras não sejam vistas fora
da perspectiva adequada e completamente distorcidas. Mas os benefícios
são óbvios. Ler os clássicos é um maravilhoso
exercício de raciocínio e imaginação.
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