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| Foto: Ricardo Stuckert | |
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| Priscilla, 16 anos, nove
incisões pelo corpo: sofrimento e dor valeram a pena |
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Entre os estranhos hábitos dos adolescentes está o de entrar em intermináveis acareações com o espelho. Às voltas com um corpo em formação, eles sofrem porque acham que são gordos, magros ou desengonçados demais, e são capazes de transformar pequenos incômodos, como um par de espinhas, em grandes complexos. Até pouco tempo, não restava muita saída para essa turma a não ser esperar o fim das explosões hormonais. Em tempos de medicina avançada, no entanto, as coisas estão mudando. A garotada encontrou um instrumento radical para resolver suas pendengas com o corpo: o bisturi. É cada vez maior o número de adolescentes que se livram de seus dramas estéticos com a ajuda de cirurgias corretivas. No ano passado, 15.000 adolescentes submeteram-se a cirurgias plásticas, o dobro do que foi registrado em 1997 (veja quadro abaixo). Dessa turma, apenas 10% encarou o aparato de uma operação reconstrutora, para resolver problemas como enxertos em queimaduras ou defeitos congênitos. A maioria esmagadora queria mesmo era uma simples reconciliação com o espelho.
Na pré-história das operações
corretivas, entrar na faca por motivos puramente
estéticos era um risco assumido por dondocas
desesperadas com os efeitos do tempo. Os anos 90
popularizaram as recauchutagens no corpo. Cada vez mais
seguras, rápidas e baratas, as intervenções já não
assustam a clientela jovem. "Antigamente, ouvia-se
falar que a mulher podia morrer se fizesse uma plástica.
Agora, uma adolescente se empolga ao ver que a modelo fez
uma operação e, dias depois, foi destaque numa escola
de samba", diz Farid Hakme, presidente da Sociedade
Brasileira de Cirurgia Plástica. Há pouco mais de um
mês, a estudante goiana Priscilla Alves de Melo, de 16
anos, debutou nas mesas de cirurgia com uma recapagem
digna de uma matrona mãe de dez filhos. De uma só
tacada, fez uma lipoescultura na cintura, diminuiu os
seios, retirou 1 litro e meio de gordura do abdome,
levantou o bumbum e corrigiu uma cicatriz na perna
direita. Não foi uma missão das mais fáceis. Depois de
amargar nove incisões pelo corpo, passar sete horas em
uma mesa cirúrgica e levar oitenta pontos, teve a
sensação de ter sido atropelada por um trator. Saiu da
sala de operação com o corpo inchado, dolorido, e
perguntou para a mãe: "Por que você deixou que
eles fizessem isso comigo?" O trauma
pós-cirúrgico, no entanto, durou pouco. Priscilla está
convencida de que o sofrimento valeu a pena assim
como os 20 000 reais despendidos por seus pais. "O
tamanho dos meus seios me incomodava muito. Agora, em
menos de um mês, já levei seis cantadas de garotos
lindíssimos", diz.
| Foto: Antonio Milena | |
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| Leandro, 16 anos,
enfrentou cirurgia de duas horas para corrigir uma imperfeição na orelha esquerda: fim do trauma de infância |
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Custo-benefício Cirurgias plásticas estão sempre associadas a benefícios psicológicos. No caso de adolescentes, quando o mal-estar com a aparência física costuma ser mais perturbador, a correção de pequenas imperfeições traz melhoras incontestáveis. Muitas vezes, são operações simples e rápidas. Há dois anos, o estudante paulista Leandro Rezende Gonçalves, de 16 anos, fez uma pequena intervenção para corrigir uma orelha de abano, que durou duas horas. Leandro entrou no consultório pela manhã, levou cinco pontos na orelha esquerda e, à tarde, já estava em casa. O retoque foi suficiente para livrá-lo do calvário de ser o sujeito mais apontado da sala de aula e aliviou o peso de uma vasta lista de pequenos traumas. "Eu tinha vergonha de conhecer pessoas novas e achava que todo mundo estava gozando da minha cara", conta.
Os médicos que fazem esse tipo de
cirurgia cada vez mais numerosos garantem
que, além de aliviar os complexos, as plásticas não
oferecem risco à saúde dos jovens. Do ponto de vista
físico, o corpo dos adolescentes está tão preparado
para entrar na faca quanto o de um adulto. "Em
alguns pontos, a juventude até conta a favor", diz
o cirurgião Juarez Avelar. No período pós-operatório,
o tempo de recuperação de um adolescente é cerca de
30% menor que o de um adulto, porque o organismo reage
melhor às intervenções. Rica em colágeno, a pele dos
jovens também é mais elástica e volta para o lugar
mais facilmente. No caso de pequenas cirurgias, os
efeitos colaterais são mínimos. É um incômodo que
compensa. Mas os números mostram que operações simples
são a minoria na preferência dos adolescentes. Na briga
contra os pequenos traumas, as intervenções mais
pesadas levam a melhor (veja tabela).
Lipoaspirações e redução de mamas lideram o ranking
das preferidas. Nesses casos, a procura precoce pelo
bisturi já começa a insuflar uma polêmica médica.
Mesmo com técnicas cada vez mais seguras, a lipoaspiração ainda é uma interferência e tanto no organismo. Sugar litros de gordura do corpo por meio de uma seringa não é simples como furar a orelha. Além disso, os avanços tecnológicos não eliminam os riscos de uma operação. Histórias como a da modelo Claudia Liz, que amargou um coma de três dias depois de sofrer um choque anafilático durante uma lipoaspiração, continuam na categoria das fatalidades possíveis. "Não se pode submeter um jovem a uma operação quando isso não é essencial para a saúde dele", alerta o cirurgião Marcus Castro Ferreira, chefe da Divisão de Cirurgia Plástica do Hospital das Clínicas de São Paulo. Levantamento da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica mostra que "essencial" e "saúde" são palavras que nem sempre contam na corrida pela faca. Cerca de 20% dos pacientes não precisariam ir para a mesa de cirurgia para emagrecer. Um bom programa de exercícios e de educação alimentar resolveria o problema. As operações aparecem apenas como a solução mais rápida. Estima-se ainda que 25% dos adolescentes exageram nas imperfeições e, mesmo assim, querem mudar. E logo.
Um tema que envolve adolescentes, fundo psicológico e intervenções cirúrgicas não poderia mesmo ser simples. Mas especialistas garantem que é bem mais complicado do que parece. Há adolescentes que associam operações plásticas à solução milagrosa de seus problemas. "Nem sempre uma cirurgia tecnicamente perfeita satisfaz todas as expectativas do jovem. É preciso conversar muito para que eles façam uma operação com responsabilidade", diz a psicóloga Sandra Faragó Magrini, de 43 anos, também da Divisão de Cirurgia Plástica do Hospital das Clínicas de São Paulo. Há ainda os que encaram o bisturi por pressão familiar. Pelo menos 20% dos pacientes são motivados pelos pais. "Ficava incomodada ao ver aquela gordurinha saliente na minha filha", conta a professora Mária de Fátima Maleck Furtado, mãe da estudante carioca Talita, de 16 anos. No fim do ano passado, Talita cedeu à argumentação da mãe. Fez lipoaspiração na cintura, abdome, coxas e braços. Saiu da sala de cirurgia com 4 quilos a menos e com a recomendação de enfrentar dietas e exercícios físicos. Quase dois meses depois, voltou aos 67 quilos que ostentava antes da operação. A diferença é que agora tem cicatrizes, ainda que pequenas, pelo corpo.
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