Haja chiquitita

As razões que levaram uma multidão
a disputar vagas na novela infantil do SBT

Pablo Nogueira

O elenco atual (à esquerda)
e o grupo de ex-chiquititas:
cachês polpudos mesmo
depois da aposentadoria
Fotos: Divulgação  

Chiquititas, a novela infantil produzida pelo SBT em parceria com a argentina Telefe, exibiu na semana passada um capítulo nada pueril. Milhares de pais, mães e avós, acompanhados de crianças de 6 a 15 anos, disputaram a cotoveladas uma ficha de inscrição para o teste de seleção dos seis novos atores mirins que, a partir de agosto, reforçarão a turma do orfanato Raio de Luz, cenário principal da novela. Há quase um ano, quando foi aberta a seleção que renovou o elenco de Chiquititas pela primeira vez, 5000 pessoas acorreram à sede do SBT para inscrever seus filhos, sobrinhos e netos. Dessa vez, foram 15000 só no domingo 28. A multidão era tamanha que os funcionários da emissora, desarvorados, a certa altura jogaram as fichas para o ar, provocando tumulto ainda maior. No dia seguinte, no Rio de Janeiro, outras 10000 foram atrás dos formulários. No Recife, mais 6000. Paralisado, o SBT cancelou a idéia inicial de gravar um teste em vídeo com cada criança e anunciou que só receberia inscrições pelo correio. Até o meio da semana, tinha sido inundado com 8.000 cartas. A previsão é de que 20.000 chegariam à emissora até sábado 6, prazo final para a entrega.

"Fomos pegos de surpresa. Esperávamos no máximo um total de 10.000 candidatos", diz Roberto Monteiro, produtor executivo da novela. Ao contrário do que se pode imaginar, Chiquititas não tem uma audiência fenomenal. Depois de atingir seu pico de ibope — 21 pontos — em meados do ano passado, estabilizou em cerca de 15 pontos, 1 a menos que o seriado para adolescentes Malhação, da Rede Globo. Ainda assim é uma vitrine reluzente para os pequerruchos que almejam a fama televisiva, como Jéssica Bastos, de 7 anos. Ela saiu de Várzea do Roça, a 350 quilômetros de Salvador, acompanhada da mãe, a professora Cecília, que ganha 400 reais por mês e torrou suas economias para chegar a São Paulo de avião. "A Jéssica é muito precoce. Quando tinha 6 anos, publicou um texto num jornal. Depois de ser chiquitita, seu sonho é conhecer as ruínas de Pompéia, na Itália", comenta Cecília.

É natural que pais e mães se orgulhem de seus rebentos e jactem-se de seus feitos e conquistas nas conversas com amigos e parentes. Mas o que move um adulto a enfrentar filas quilométricas à porta de uma emissora de televisão em busca de um papel para seu filho numa novela? Satisfazer simplesmente o narcisismo de uma criança não é resposta suficiente. "Muitos pais estimulam os filhos a tentar a carreira artística como forma de realizar um sonho que eles próprios não conseguiram concretizar", afirma a psicóloga Ceres Araujo, professora da Pontifícia Universidade Católica, PUC, de São Paulo. O fator psicológico explica o fenômeno, mas não o incrível aumento de um ano para outro de candidatos a uma vaga em Chiquititas. O motivo, nesse caso, parece ser conjuntural: a crise econômica por que passa o país.

Cachê de adulto — Muitos dos pais que procuravam obter uma ficha de inscrição para o teste estão desempregados e não têm nenhuma perspectiva de encontrar trabalho em curto prazo. Eram pessoas como Avanilda dos Santos, de 32 anos, operadora de telemarketing, atualmente sem contracheque no final do mês, que encarou três horas num ônibus para tentar inscrever Rebeca, de 6 anos. Ou seja, a possibilidade de ver um filho na televisão é, mais do que motivo de orgulho, garantia de sobrevivência. Um chiquitito ganha, de fato, salário de gente grande: cerca de 5.000 reais, entre cachê e ajuda de custo para morar em Buenos Aires, onde o folhetim é gravado. Mesmo depois de aposentada na novela, a meninada tem chance de continuar na ativa. E que ativa! O grupo de nove ex-chiquititas As Crianças Mais Amadas do Brasil, que conta com mais dois participantes que nunca fizeram parte do elenco da novela, anima desde festinhas de aniversário até shows em estádios. De julho, quando foi formado, até a semana passada, o grupo estrelou setenta espetáculos, cobrando cachês de 25.000 a 35.000 reais. Em abril, deve lançar um CD. Não há dúvida: As Crianças Mais Amadas do Brasil transformou-se no melhor seguro-desemprego para os pais de seus integrantes.




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