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Armínio
Fraga: "A meta de inflação é que vai ditar as regras" |
| Foto: Ricardo Stuckert |
Não acabou. Os problemas também não. A crise é grave. O Plano Real II foi lançado sem fanfarras, provavelmente por temor de que se diga que tudo foi feito por ordem do FMI, dada a semelhança entre o receituário da entidade internacional e as medidas adotadas pelo governo brasileiro. Virão a seguir meses de sacrifícios. A combinação de juros altos e mais impostos vai trazer desemprego e aprofundar a recessão. Vai trazer também mais pressões políticas sobre o Planalto. Na quinta-feira passada, o presidente Fernando Henrique Cardoso parecia ter recobrado o humor. Numa conversa com VEJA, o presidente sustentou que as condições básicas para a retomada econômica existem. As importações estão em queda, as exportações subindo, o que trará alívio nas contas externas, justamente as que vitimaram a âncora câmbial. Além disso, observou Fernando Henrique, os investidores estrangeiros dão mostras de que estão recobrando o interesse em trazer novos negócios para o país. Ele se queixa apenas das acusações que muitos lhe fazem de que está cortando verbas para projetos sociais. "Não estamos cortando nada. Estamos racionalizando esses projetos, de modo que não haverá cortes para educação, saúde ou para a distribuição de cestas básicas ou merenda escolar. Ao contrário", disse Fernando Henrique.
Outras questões abordadas por ele:
Embora
soubesse que o real estava sobrevalorizado desde o
início do seu governo, FHC só percebeu que havia um
furo no casco em setembro passado, logo depois da crise
da Rússia. "Nessa época, comecei a tomar
providências para enfrentar a crise, mas a partir do
grampo do BNDES fui obrigado a modificar os planos",
disse.
Diante
das múltiplas versões sobre a demissão de Francisco
Lopes da presidência do Banco Central, FHC diz que não
houve nada além de imperícia na sexta-feira negra, 29
de janeiro. "Eu tive de ir duas vezes à televisão
para acalmar o país. Onde estava o Banco Central?",
pergunta ele, ressalvando seu respeito por Lopes.
"É um homem interessante, tem uma enorme segurança
interior e coragem. Sozinho, chamou para si a
responsabilidade de enfrentar o mercado. Não é qualquer
um que faz isso."
Quando
soube do lucro astronômico dos bancos em janeiro, o mês
da desvalorização do real, o presidente assustou-se.
"É um escândalo", diz. Chegou a pedir ao
ministro da Fazenda, Pedro Malan, que estudasse uma
fórmula para cobrar imposto sobre o lucro dos bancos.
Entre os que mais lucraram estão instituições
estrangeiras como o Chase Manhattan (310 milhões de
reais), o Citibank (258 milhões) e o JP Morgan (193
milhões). Apesar de achar escandaloso, o presidente
manteve o humor: "Bem que eles poderiam nos
emprestar parte desse lucro".
Como é
recorrente nas horas difíceis, o presidente reclama que
seu governo se comunica mal. Os ministros falam mal, ou
falam pouco, sobrecarregando a própria Presidência.
"O Pedro Malan trata alguns assuntos de interesse
público como se fossem segredo de Estado", ironiza
FHC.
A nova âncora monetária dá um sinal que é importante reter. Fica claro, a partir de agora, que a inflação é o inimigo básico a ser derrotado, todo o resto é secundário. A idéia por trás disso é que a inflação é o pior dos males tanto para a economia abstrata das estatísticas, que ela desorganiza, quanto para as pessoas que precisam suportá-la, principalmente os pobres. "A sociedade brasileira percebeu as vantagens da estabilidade monetária e rejeita a idéia de que a volta da inflação pode ter pontos favoráveis", diz o ex-ministro Maílson da Nóbrega. "O preço a pagar pela aplicação da política de juros altos é recessão e desemprego, mas a inflação é o pior dos males." Esse custo existe e já está sendo derramado pela sociedade na forma de desaquecimento da economia e aprofundamento do desemprego. Na semana passada, divulgou-se que a taxa de 7,7% de desemprego em janeiro é a mais alta registrada nesse mês desde a abissal recessão de 1983. Analistas ouvidos por VEJA são unânimes em dizer que o número de pessoas sem ocupação no Brasil vai aumentar e pode chegar ainda neste ano a 10% ou 11% da população economicamente ativa.
Vai dar certo no fim? Se o governo ficar só na elevação de juros, não. Todos os planos antiinflacionários fracassaram porque o déficit nas contas públicas se manteve impávido. O Plano Real deu-se incomparavelmente melhor do que os anteriores, mantendo os preços cadentes por quatro anos e meio quando a média nos programas precedentes foi de seis meses de estabilização. Mas o Plano Real também capotou no mesmo obstáculo. A economia orçamentária de 28 bilhões de reais obtida no ajuste feito em troca dos dólares do FMI é apenas um ajuste fiscal de emergência jamais o definitivo. A verdadeira reforma da Previdência ainda está por fazer, o que significa que a União terá um rombo anual de 18 bilhões só com aposentadorias e pensões de servidores públicos. Falta realizar a reforma administrativa, que adequará os quadros do governo às demandas por serviços públicos e às disponibilidades reais de caixa para quitá-los. O Brasil ainda espera pela reforma tributária para desentocar os sonegadores e desonerar o setor privado, tornando-o mais eficiente e lucrativo. Há os Estados que comprometem 70%, 80% de sua receita no pagamento de funcionários públicos e deitam no colo da União toda vez que não têm dinheiro para pagar o que devem.
Essas mudanças serão feitas finalmente? Pela primeira vez, o Brasil inteiro está consciente de que essas mudanças são necessárias. Pela primeira vez, todas elas estão contempladas em projetos já elaborados, alguns tramitando no Congresso. São sinais de que, afinal, desta vez a cirurgia poderá finalmente ser feita. Se não for, é bom preparar o espírito.

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