Roberto Pompeu de Toledo
No terremoto, e fora de casa
"Funcionários do hotel aconselham a entrar. Há
rumores
de arrastões na rua. Tensão no grupo. Que é pior,
numa
hora dessas: assalto ou um teto sobre a cabeça?"
O terremoto começa dentro da gente. Sensação
de tremor, náusea. "Que estará ocorrendo comigo?", perguntava-se
a professora e crítica literária Marisa Lajolo, uma das integrantes
da delegação brasileira no congresso de literatura infantil que
ocorria em Santiago do Chile. Era a noite de sexta para sábado. Da cama
Marisa via o campanário da Igreja de Santo Antonio, enquadrada na janela
do hotel em que se hospedava. De repente, as luzes do campanário se apagaram.
Foi um dos primeiros sinais de que... Não, não é comigo.
Alguma coisa está acontecendo no mundo exterior.
O relato de Marisa Lajolo ao colunista mostra como vão
se sucedendo os dados até construir na mente sonolenta a consciência
do terremoto. Barulhos estranhos no teto. Na parede. Como pode um barulho na
parede? Barulho de vidro se quebrando, será um copo? Um barulhão
enorme no banheiro. Marisa abre a porta e vê os hóspedes descendo
pelas escadas. O hotel possui sistema próprio de geração
de energia e as luzes estão acesas. Isso contribui para que a retirada
se dê sem pânico. Ela veste uma roupa e enrola um lençol
por cima. O barulhão no banheiro, saberá depois, era dos azulejos
descolando-se das paredes e despencando no chão.
Os neófitos em terremotos pagam pela inexperiência.
Marisa aprenderá que demorou a sair da cama. Enquanto ainda não
é possível abandonar o prédio, deve-se procurar abrigo
sob o batente de uma porta. No próximo terremoto, ela será mais
expedita. Enfim na rua, abraços emocionados. Ao se reverem, o grupo brasileiro
e os demais conhecidos do congresso sentem o alívio de se saberem vivos
e bem. A terra ainda treme, são os repiques secundários do terremoto.
Mas o que agora chama mais atenção são as contínuas
trombadas de automóveis. Os semáforos não funcionam, e
os motoristas estão nervosos e apressados. Os barulhos das trombadas,
somados aos outros barulhos ouvidos durante a noite, consolidarão em
Marisa a impressão de que, da experiência de ter vivido um terremoto,
lhe ficará sobretudo a memória auditiva.
Na rua, e, pelo sim, pelo não, a boa distância do
prédio, muitas pessoas ainda vestem pijama. Marisa não, mas guarda
como resquício da cama o lençol enrolado no corpo. Transcorre
um tempo e os funcionários do hotel, sempre gentis, sempre prestativos,
aconselham a passar para dentro. Há rumores de arrastões ocorrendo
nas ruas. Tensão no grupo. Que é pior, numa hora dessas: assalto
ou um teto sobre a cabeça? Acaba-se acatando o conselho dos funcionários.
Eles devem saber o que fazem. No saguão do hotel aglomera-se uma pequena
multidão, grande parte de pijama. Aos poucos as pessoas vão criando
coragem para subir, rápido, e pegar suas coisas. O prédio parece
firme e a terra, mais calma. O hotel vai mais tarde acomodar os hóspedes
nos andares mais baixos. Não é a normalidade ainda, longe disso,
mas é um começo de.
No Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, os chilenos
espalham-se pelas poltronas, pelo chão, sobre as esteiras ociosas dos
guichês de check-in. Eles esperam a reabertura do aeroporto de Santiago.
A foto publicada na Folha de S.Paulo mostra os bilhetes que colaram na
parede: "Tenemos hambre y frío", "Help", "Lula,
ayúdanos", "Piñera, llévanos a Chile". Eles
se constituem num paradoxal tipo de vítima do terremoto: o dos apanhados
fora dele. Nenhum teto lhes caiu em cima, mas encontram-se sob o peso de ter
sido surpreendidos em lugar distinto do exigido pela hora. A preocupação
central são os parentes, os amigos, mas não é só.
A pátria como um todo, nessa circunstância, dói e faz falta.
Os brasileiros no Chile, igualmente impedidos de fazer a viagem
de volta, viviam a situação inversa de ser apanhados em apuros
longe de casa. Os professores do congresso de literatura são pessoas
acostumadas às viagens, vários já viveram no exterior,
mas essa não é situação para padecer em plaga estrangeira.
A terra já não treme, estão bem tratados no hotel, não
falta comida, até banho não falta, mas as horas passam devagar
e vazias. Enfim, na noite de segunda para terça-feira, um avião
da FAB os resgata, a eles e outros brasileiros. A alegria da repatriação
domina o grupo. Marisa, cujos ouvidos ainda ecoavam os sons da noite do terremoto,
é recompensada pela "voz brasileira e tranquila" do comandante
que os recebeu a bordo. Mais um pouco, e a alegria vira euforia. Até
a Embraer é aplaudida, pela fabricação da aeronave que
os transporta. Belos aviões tem fabricado essa tal de Embraer. |