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Leo Drumond/Nitro |
"Os elétricos ainda não são economicamente viáveis. Mesmo que a tecnologia avance, o motor de combustão terá vida longa" |
Esqueça os carros elétricos. O automóvel
ainda será movido a motor de combustão por muito tempo. Esse motor
será, a cada ano, mais econômico, pulverizando a barreira atual
de 24 quilômetros por litro de gasolina. Os carros tendem a poluir menos
e, com o uso intensivo da eletrônica de bordo, da internet e dos sinais
de satélite, eles praticamente não mais se envolverão em
colisões nem provocarão engarrafamentos. Esse é um resumo
do pensamento do ítalo-canadense Sergio Marchionne, o presidente mundial
da Fiat. Há seis anos no cargo, ele conseguiu tirar a Fiat do vermelho
e tenta agora reerguer a americana Chrysler, controlada pela montadora italiana
desde 2009. Em visita ao Brasil, Marchionne falou a VEJA na semana passada,
dias antes de inaugurar a maior fábrica do mundo da Case New Holland,
unidade de máquinas agrícolas do grupo, localizada em Sorocaba,
no interior de São Paulo.
Os automóveis tornaram-se vilões do ambiente.
Essa imagem é justa?
Considero injusto responsabilizar os carros por todos os males da humanidade.
Há outras formas de poluição cujos efeitos são muito
mais devastadores. Além disso, se compararmos os índices de emissão
de gás carbônico e óxido nitroso dos automóveis de
dez anos para cá, verificaremos uma redução drástica
nesses valores. Em 1998, os principais fabricantes assinaram, voluntariamente,
um acordo que estabeleceu um limite para as emissões de poluentes na
Europa. Os governos também têm feito pressão nesse sentido.
Os Estados Unidos, que são os maiores poluidores mundiais, tornaram as
metas de eficiência mais rigorosas. Não há dúvida
de que a indústria entende o problema e tem investido para buscar soluções.
Quais seriam elas?
A saída não partirá unicamente da indústria
automotiva. Uma solução definitiva inclui a participação
das montadoras, dos fornecedores de combustível e dos governos, que devem
determinar limites mais severos para a emissão de poluentes e punir aqueles
que os infringirem. Para evitar congestionamentos, os governos não podem
simplesmente decretar, da noite para o dia, que as pessoas terão de deixar
o carro em casa. Eles precisam investir mais em infraestrutura adequada. De
nossa parte, a tarefa é aprimorar a tecnologia visando a reduzir o impacto
provocado pelos carros no cotidiano das cidades e no ambiente.
Quando teremos um carro ecologicamente correto?
O que é um carro ecologicamente correto? Um veículo que não
polui? Isso só é possível em dois casos: ou em um carro
movido a eletricidade ou movido a hidrogênio. Também se pode optar
por um automóvel parcialmente movido a combustão e que polua menos,
como é o caso dos híbridos. Mas tudo isso tem um custo - e ele
deverá ser pago pelo consumidor. Nada é de graça. Essas
tecnologias limpas ainda custam o dobro das tradicionais. Digamos que, mesmo
contrariado, eu venha a produzir um carro desses e ofereça ambas as versões
ao consumidor. O modelo é exatamente o mesmo, mas o preço do movido
a energia limpa é o dobro do daquele a combustão. Qual será
a reação do cliente? Ele comprará a versão mais
barata, claro. Os carros elétricos ainda não são economicamente
viáveis.
Mas esse custo não pode diminuir com o tempo?
Sim. Mas há barreiras que serão difíceis de transpor,
ao menos nos próximos anos. A maior delas é a retenção
de energia na bateria. Como é possível armazená-la e fazê-la
durar? Hoje, um carro elétrico percorre 100 quilômetros e é
obrigado a parar para a recarga, que demora até seis horas. Ninguém
comprará um carro com tão baixa autonomia e que ainda por cima
leva tanto tempo para ser reabastecido. Façamos de conta, então,
que, em vez de abastecer, o consumidor opte por trocar a bateria, em um local
similar ao posto de gasolina. Seria preciso padronizar as baterias de todos
os automóveis de todas as montadoras. O custo de criação
dessa realidade seria enorme. Levamos décadas para desenvolver uma infraestrutura
para os veículos movidos a combustão. Imagine recomeçar
do zero. Isso não significa, contudo, que temos de descartar essa ideia
por completo, apenas tocá-la em paralelo.
Não seria melhor investir no transporte coletivo e incentivar
meios de locomoção menos poluentes?
Uma coisa não exclui a outra. Apoio campanhas que estimulem o transporte
público. Para aqueles que moram a 1 quilômetro de distância
do trabalho, a bicicleta é uma opção excelente. Caso contrário,
torna-se impraticável. Algumas dessas campanhas simplesmente não
são realistas. Elas só têm eficácia quando provam,
com bons argumentos, que o uso do carro é inteiramente dispensável.
Mas isso não elimina a vontade de possuí-lo. Construir um bom
sistema metroviário, por exemplo, não acaba com o automóvel.
Quero dizer que o passageiro do metrô ainda terá seu carro na garagem,
apenas tenderá a usá-lo com frequência menor.
Como então convencer as pessoas a usar menos os seus
carros?
Mexendo no bolso do motorista. Nisso o governo tem um papel preponderante.
Não cabe às autoridades determinar quais veículos devemos
ou não comprar, mas, sim, criar leis restritivas e punir exemplarmente
seus infratores. Não há escapatória, por mais duro que
isso possa parecer. O dinheiro regula a demanda e modifica os costumes. Com
essas medidas, as montadoras também são pressionadas a se adaptar
a esse novo contexto. Assim, logo o consumidor terá a oportunidade de
comprar um veículo mais eficiente e se sentirá socialmente responsável
ao adquiri-lo.
De onde estão vindo os maiores avanços nos carros?
Dos sistemas de inteligência. A utilização da eletrônica
e de computadores será revolucionária. Os veículos serão
dotados de inteligência artificial. Serão guiados por sistemas
informatizados, tornando-se mais seguros. Como os carros passarão a responder
automaticamente a qualquer sinal de ameaça, poderemos antever colisões
e evitar desastres. Teremos à nossa disposição um veículo
mais seguro e facílimo de dirigir. Essas tecnologias já estão
sendo testadas e deverão ser introduzidas nas próximas décadas.
Com o passar do tempo, o preço desses equipamentos cairá drasticamente
e eles estarão presentes em todos os automóveis. Mas, ainda que
a tecnologia avance, os carros continuarão queimando combustível.
O motor de combustão permanecerá com uma grande fatia do mercado
por muito e muito tempo.
Os carros tendem a ficar menores?
Há uma limitação clara imposta ao design, porque é
preciso restringir a área de resistência aerodinâmica. Quanto
menor o atrito, mais eficiente o veículo. Mas não podemos de jeito
nenhum sacrificar o estilo em benefício do aumento da eficiência.
O que vende o carro é o design. Portanto, ele tem de ser atraente. Comprar
um automóvel representa um investimento alto para a maior parte das pessoas,
e a escolha do modelo tem a ver com a personalidade que o dono deseja projetar.
Ninguém quer ser visto como feio e ineficiente. Daí a necessidade
de conjugar esses dois mundos. Os engenheiros precisam estar em paz com os designers.
Essa tarefa não é fácil.
Qual o efeito da crise financeira sobre a indústria
automobilística?
Essa crise expôs a necessidade de uma mudança substancial
nos modelos de gestão de nosso negócio. Do lado americano, a General
Motors e a Chrysler foram à falência. Do lado europeu, governos
tiveram de intervir para ajudar algumas companhias mais combalidas. É
uma evidência de que o sistema não foi concebido para aguentar
a pressão de uma turbulência dos mercados. Nada disso é
bom. O recente recall da Toyota, hoje a maior montadora do globo, é outra
prova de que algo está errado. Esses fatos nos revelam que os hábitos
do passado poderão ter efeitos devastadores para o setor numa próxima
crise. Os fabricantes precisam estar atentos aos seus investimentos. Qualquer
erro pode ser fatal. Uma das formas de reduzir os riscos é dividir os
custos. Veja o caso da Chrysler (da qual a Fiat detém participação
de 20% e controla a gestão). Nossa associação foi concebida
para dividir o ônus sem sobrepor tarefas. Isso faz parte do maior desafio
das montadoras, que é atuar globalmente e com custos cada vez mais competitivos.
Por essa razão, acredito que o mercado será controlado apenas
por cinco fabricantes. Estamos falando de um negócio que exige investimentos
pesadíssimos e que é arriscado demais.
Se o negócio é tão arriscado, por que
a Fiat decidiu entrar no mercado americano?
Quando a Chrysler pediu concordata, em abril do ano passado, havia menos
dinheiro em caixa do que agora. Não quero subestimar nossos esforços,
tampouco afirmar que venderemos carros num estalar de dedos. Mas acredito que
haja espaço suficiente no mercado americano para reerguer as marcas da
Chrysler (Chrysler, Jeep, Dodge e Ram). Como parte desse acordo, aproveitaremos
os canais de distribuição da montadora para escoar a produção
da Fiat nas Américas. Nossa estratégia é muito clara. Não
queremos tomar conta do mercado americano, apenas ter uma parte suficiente dele
para ser uma empresa significativa e assim crescer e sobreviver. É uma
ambição relativamente simples, imagino.
Mas por que essa decisão só foi tomada agora?
Porque a oportunidade (a concordata da Chrysler) ocorreu somente
no ano passado. O tempo é crucial para tudo na vida. Uma companhia tem
de estar preparada para uma mudança nas circunstân-- cias a qualquer
momento. Quando o mercado entrou em colapso, percebemos uma brecha para atuar
no setor automotivo americano, o que só se tornou possível com
o apoio do governo dos Estados Unidos e dos funcionários da Chrysler.
A partir de agora, precisamos ser capazes de tomar a dianteira e firmar o maior
número de acordos possível, como os que temos feito na Rússia
e no México. Acreditamos que a Chrysler voltará a ser uma das
maiores do setor.
A participação na Chrysler veio da necessidade
da Fiat de ser uma montadora global?
O uso do termo "global" se banalizou. É repetido em demasia
por CEOs do mundo inteiro apenas para eles se sentirem bem consigo mesmos. Para
mim, essa palavra significa sentir-se tão adaptável em um país
quanto em outro. Há poucas pessoas que têm essa sensibilidade.
Quando venho ao Brasil, sinto-me tão brasileiro quanto qualquer um daqui,
ainda que não fale a língua nem compartilhe das tradições
locais. No fim das contas, ser global significa entender a globalização,
mas, ao mesmo tempo, respeitar os mercados onde se atua. Fracassamos nas duas
vezes em que tentamos entrar na China, mas continuamos buscando acertar e já
temos um novo parceiro. Sei que estamos atrasados - e me arrependo disso -,
mas, pelo menos, aprendemos com os erros. Se já tivéssemos iniciado
nossas operações na China, tenho certeza de que as perdas registradas
por nós na Europa teriam sido compensadas pelos resultados produzidos
no Oriente.
Como o Brasil se encaixa na estratégia mundial da Fiat?
Alguns poucos países merecem nossa atenção de modo
especial. O Brasil é um deles. Aqui somos líderes em vendas. O
brasileiro é nosso mercado mais importante, depois do italiano. Precisamos
encontrar uma solução que permita à Chrysler beneficiar-se
por completo de nossas estruturas na América Latina. Ainda estamos decidindo
se os carros da Chrysler, possivelmente da marca Jeep, serão vendidos
em nossa rede de concessionárias. As perspectivas são otimistas.
Depois de provocar temores por tantos anos nos investidores, o Brasil está
se tornando exatamente o oposto do que era. Está se firmando como uma
economia confiável, estável e de excelente desempenho. Além
disso, produz etanol, uma alternativa à gasolina. A tecnologia ainda
carece de eficiência, mas tem seu papel como fonte de energia limpa. O
Brasil é a nossa segunda casa.