Maílson da Nóbrega
O PT não conhece o BB
"O BB é agora outro banco. Seus executivos têm
nível
de
qualificação semelhante ao dos dirigentes das
instituições
privadas. A escolha para posições de
liderança valoriza
mais a preparação acadêmica e
o treinamento"
Após ser sagrada futura candidata do PT à Presidência,
a ministra Dilma Rousseff assumiu dois compromissos: preservar a política
econômica e promover o desenvolvimento com base em um "estado forte".
Ela diz que esse "estado forte" não significa
o estatismo de outros tempos. De fato, a volta ao passado, ainda que desejada
por muitos, é impossível. Não dá para imaginar o
governo de novo pondo-se a produzir aço ou a vender farinha de trigo
na porta dos moinhos. O estado seria o "indutor" e não o gestor
do desenvolvimento. Palmas para a ministra se isso significar, por exemplo,
melhoria na qualidade da educação, um sistema tributário
racional e leis que incentivem o investimento privado em infraestrutura.
Acontece que as diretrizes do partido da candidata, o PT, divulgadas
pelo jornal O Estado de S. Paulo, sinalizam justamente intervenções
como aquelas dos tempos passados. É o caso da criação de
"campeões nacionais" via empréstimos generosos do BNDES.
Montanhas de subsídios poderão conferir poder de mercado a grupos
privilegiados. O resultado seria o aumento da concentração de
renda, que o PT condenava. Como antes, haveria uma industrialização
socialmente ineficiente.
Os aumentos de participação estatal no capital da
Petrobras já preocupam investidores. Mas o pior mesmo seria usar o Banco
do Brasil como alavanca da "grande transformação" de
um governo Dilma, como se depreende do documento que engloba as tais diretrizes
do PT. O assessor internacional de Lula, o petista Marco Aurélio Garcia,
de inequívocas convicções estatistas, é um dos coordenadores
do documento. Promete-se ali usar o crédito do BB para beneficiar o setor
produtivo.
Essa visão, bolorenta, remonta ao tempo em que o BB dava
crédito subsidiado com recursos do governo, os quais eram supridos por
uma "conta de movimento", que se tornou insustentável quando
a inflação agigantou a demanda desses recursos.
A conta foi extinta em 1986, sob intensa oposição
dos que não viam sua impropriedade e o risco que ela impunha ao BB. Iniciou-se
a longa transição até a virada final, entre 1995 e 1999.
O banco viria a protagonizar a maior revolução de uma empresa
estatal brasileira.
Cortado o acesso fácil ao Tesouro, o BB se reinventou.
Autorizado a atuar em todo o sistema financeiro - a contrapartida natural
do fim da "conta de movimento" -, o banco preparou-se para explorar
novas oportunidades. Com seus melhores talentos e consultoria externa, redesenhou
sua estrutura e reduziu o quadro de pessoal.
A área financeira foi separada da comercial. Essa segregação,
comum nos bancos, tinha no BB uma justificativa adicional: blindá-lo
contra o populismo de seu maior acionista. A área comercial empresta,
mas a financeira fixa as condições. Em tese, não é
mais possível direcionar o BB para ações "desenvolvimentistas".
O BB é agora outro banco, inclusive na formação
de recursos humanos. Seus executivos têm nível de qualificação
semelhante ao dos dirigentes das instituições privadas. A escolha
para posições de liderança, no país e no exterior,
valoriza mais a preparação acadêmica e o treinamento focalizado
na excelência dos serviços e na competição no mercado.
O BB atua em todas as áreas, abrangendo as de gestão
de recursos de terceiros, banco de investimento, previdência e seguros.
Sua subsidiária no exterior, a BB Securities, é campeã
de lançamento de papéis de empresas brasileiras nos mercados globais
de capitais, superando tradicionais instituições nacionais e estrangeiras.
Em situações excepcionais, como na recente crise,
o BB pôde assumir riscos maiores do que os bancos privados, aumentando
sua participação na oferta de crédito. Fez isso de forma
responsável, sem piorar os níveis de impontualidade. Nada a ver
com seu passado de provedor do crédito subsidiado que beneficiava relativamente
poucos.
As citadas diretrizes implicam eliminar a segregação
de funções. O BB voltaria a ser instrumento de concentração
de renda em lugar de avançar na modernização baseada na
competitividade, meritocracia e boa governança corporativa.
Como fez Lula, Dilma pode desprezar tais ideias, que por ora serviriam
para contentar segmentos mais atrasados e radicais do PT. A porta não
seria aberta para desatinos e o BB continuaria a ser estrela de primeira grandeza
na constelação do sistema financeiro brasileiro. Rezemos.
Maílson da Nóbrega é economista |