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• Cinema: Entrevista: Sandra Bullock
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Fotos Everett Collection/Grupo Keystone![]() |
ARDIDA COMO PIMENTA Sandra, no papel de Leigh Anne Tuohy, entra em campo para dizer a que veio ao seu filho adotivo (Quinton Aaron), em Um Sonho Possível: com um revólver na bolsa e sem papas na língua |
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Em Um Sonho Possível (The Blind Side, Estados Unidos, 2009), que estreia no país no próximo dia 19, Sandra Bullock dá um passo que já resultou em tombo para muitas estrelas de comédias românticas: enfrenta uma personagem dramática madura. No papel verídico de Leigh Anne Tuohy, uma sulista rica, republicana e religiosa que abrigou em casa, junto à família, um rapaz negro e pobre sem conhecê-lo (e depois o adotou, dando-lhe a chance de se tornar um atleta célebre do futebol americano), Sandra vive um tipo de mulher que o cinema tende a suavizar com traços folclóricos: moralista, dura na queda e contundente nas suas certezas. Ela, no entanto, deixou todas as arestas da personagem aparentes. Obteve, assim, sua primeira indicação ao Oscar e uma acolhida inesperada. Um Sonho Possível, em que pesem seus muitos clichês, confrontou o público americano com alguém que lhe pareceu familiar e verdadeiro. A bilheteria foi estrondosa a segunda de Sandra no último ano, em que ela também fez sucesso em outro papel potencialmente antipático, o da executiva de A Proposta. A seguir, trechos da entrevista que a atriz concedeu a VEJA.
A maioria das atrizes americanas se queixa
do sexismo e do preconceito de idade em Hollywood. E, no entanto, mulheres como
você, agora com 45 anos, e Meryl Streep, com 60, viraram sucesso na bilheteria.
Algo mudou?
O sexismo e o preconceito de idade eram, sim, prevalentes, mas de
uns cinco anos para cá essa noção é mais um clichê
do que uma realidade. Hollywood é um negócio; se alguns filmes com
mulheres dão dinheiro, outros como eles serão feitos. Os dois bons
papéis que tive no último ano, em A Proposta e Um Sonho
Possível, foram escritos por homens. Não nasceram de um desejo
feminino de criar uma oportunidade para as mulheres em um ambiente chauvinista.
Você parece nunca ter se sentido
tão segura quanto agora. É resultado da idade?
Acho que há
muito tempo já me sinto confortável comigo mesma. Se existe algo
de diferente, é porque talvez se reflita no meu trabalho quanto estou feliz
na minha vida pessoal. Ser criativa e me empregar de maneira produtiva é,
claro, importante para mim. Mas minha vida íntima e minha família
são a prioridade; sem paz nelas, não há trabalho que traga
satisfação. Acho que as duas coisas, os bons projetos e a tranquilidade
pessoal, convergiram.
Suas personagens
em A Proposta e Um Sonho Possível são ambas decididas e autossuficientes.
Elas se parecem com você?
A executiva de A Proposta e Leigh Anne
Tuohy, a dona de casa de Um Sonho Possível, têm um histórico
muito diverso do meu. Para mim, isso as torna não só mais atraentes
como também, paradoxalmente, mais acessíveis. Não sou boa
em emprestar partes de mim mesma a personagens. Gosto de figuras muito bem definidas,
nas quais posso mergulhar inteira.
Você
disse que, nos primeiros dias de filmagem de Um Sonho Possível, estava
tão mal no papel que considerou largar o filme.
Passei muito tempo com
Leigh Anne, tentando assimilar a maneira como ela fala e se veste, seu jeito de
ser. Mas as primeiras cenas que rodamos foram de uma frustração
indescritível. Não consegui juntar esses elementos em uma personagem
crível. John Lee Hancock, o diretor, passou dois anos preparando esse filme,
e eu cogitei abandoná-lo para não destruí-lo: achei que o
papel de fato estava além de mim. Mas, quando começamos a fazer
as cenas com as crianças, tudo repentinamente entrou nos eixos.
Você
já se vira nessa situação antes, de tatear em busca de um
papel?
Muitas vezes. Sempre torço para que o clique que faz as coisas se
encaixarem venha logo. Mas nem sempre os meus desejos são atendidos.
O
público americano adorou Um Sonho Possível, mas o mesmo não
se pode dizer da crítica, que objetou, acima de tudo, ao que ela considerou
paternalismo a ideia de um personagem negro que é salvo por uma
família branca.
Cresci numa família muito misturada, tanto do ponto
de vista étnico quanto cultural. Não sou de direita e não
sou religiosa, como a protagonista. Mas compreendo o valor de ajudar uma criança,
de amar um filho que não tenha nascido de você e de não medir
esforços para proteger sua família. Estou habituada a ganhar resenhas
ruins, e sei também que é inevitável que julguemos os outros
por tudo e qualquer coisa eu faço isso constantemente, e me sinto
mal por isso. Mas acho que objetar a um filme por ele mostrar amor e generosidade
não é um exemplo de boa argumentação.
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| A
INSPIRAÇÃO Sandra, com Leigh Anne Tuohy: "Se as pessoas veem hipocrisia no gesto dela, não sei nem como reagir" |
Você
diria que os liberais se irritam ao ver um papel positivo como esse encarnado
em uma mulher republicana, e ainda por cima defensora do porte de armas?
Estou
atônita. Não sei como responder a essa pergunta. Leigh Anne é
uma mulher absolutamente honesta, que calha também de ser republicana e
favorável ao porte de armas. A casa dela está aberta a qualquer
um que necessite, como Michael Oher, o menino que ela adotou, necessitava. Se
as pessoas são míopes a ponto de enxergar hipocrisia no gesto dela,
não sei como reagir.
Há
cinco anos, você se casou e ganhou uma família pronta, como madrasta
dos três filhos de seu marido. Que tipo de ajuste essa mudança exigiu?
Todo tipo. Mas foram os ajustes mais gratificantes e abençoados que já
tive de fazer na vida. É um lugar-comum dizer isso, mas essa família,
que me recebeu de braços abertos, foi a melhor coisa que me aconteceu.
Você
procura se manter longe de Hollywood e protege com unhas e dentes a privacidade
dos seus filhos. O que você diria se um deles se interessasse pelo showbiz
por sua causa?
Eu diria: cresça, vá à escola e torne-se um
adulto. Se então você ainda quiser entrar no showbiz, a decisão
será sua. Mas não se deve entrar nesse meio antes de saber o que
se está fazendo.
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