Edição 1844 . 10 de março de 2004

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Ponto de vista: Claudio de Moura Castro
A tal da demanda social

"Não há um critério prático para dizer se há
ou não demanda social para determinada graduação – de resto, nem para dizer
com rigor o que é isso"

Está para voltar ao MEC o critério da "demanda social" para a abertura de cursos superiores. Para um economista puro-sangue, é uma contradição de palavras. Demanda tem a ver com gente querendo pagar. Social teria a ver com o interesse coletivo. Juntando as duas coisas, só pode dar apagão intelectual. Mas deixemos as querelas teóricas.

A idéia de buscar "demanda social" para autorizar um curso é antiga e foi um dos grandes alimentos para o tráfico de influências que reinava no MEC. O critério é um sobrevivente anacrônico da época em que para cada novo graduado havia um emprego descrito por uma palavra com a mesma raiz. Para os médicos, haveria empregos de médico, para os advogados, de advogado, e por aí afora.

Mas já no Censo de 1991 bem mais da metade dos graduados do ensino superior tinha empregos distantes do que estava escrito no seu diploma. Hoje, é ainda maior a proporção dos "desprofissionalizados". A muitos, dá gosto pôr a culpa no governo, no FMI ou no Banco Mundial. Mas, se é assim também nos Estados Unidos e na Europa, é porque o número de diplomados do ensino superior tende a crescer bem mais rápido do que a economia.

No fundo, é simples. As profissões tradicionais crescem pouco. Em contraste, com as mudanças tecnológicas, é célere a expansão das "genéricas", em que é preciso cursar os quatro anos do ensino superior, mas não faz muita diferença o que nele se estuda. Envolvem comprar, vender, mandar, organizar, comunicar-se etc. As competências requeridas são ler, escrever, usar números, resolver problemas e trabalhar em grupo. Em suma, pensar analiticamente e aprender rápido o que quer que apareça pela frente.

Diplomas como os de medicina e odontologia continuam levando às ocupações correspondentes. Mas em outras matérias, como economia, nem sequer 10% dos graduados trabalham na função. Os filósofos têm apenas 5%. Saturação dos mercados? Longe disso, as estatísticas mostram que entre os diplomados nessas áreas as taxas de desemprego são pelo menos a metade da média nacional e os níveis de rendimento pelo menos o dobro dos auferidos por quem não tem o diploma. E, afora o choque inicial de descobrir que o emprego terá outro nome, se é que tem nome, não há evidência de que gere menos satisfação profissional.

Diante disso, como poderemos dizer se há ou não demanda social? Se definirmos o termo pela existência de empregos com o nome do diploma, há várias décadas não há demanda social nem para 10% dos cursos superiores. Se admitirmos que pode sobrar gente sem um determinado emprego, qual a proporção mágica acima da qual não haveria demanda social? Por outro lado, e as outras ocupações que requerem diploma superior, mas não curso específico? São muitas centenas. Teríamos de criar um curso para cada uma?

As conclusões são inevitáveis. Não há um critério prático para dizer se há ou não demanda social – de resto, nem para dizer com rigor o que é isso. Temos de entender que a educação superior para a maioria das pessoas é mais educação, não importando muito em quê. A idéia não é nova. A administração pública do Império Britânico escolhia graduados em história, grego e latim. Wall Street e as multinacionais contratam graduados de humanidades para as posições com mais horizontes de ascensão. Quando o nível educacional máximo era o 2º grau, estudávamos geometria, canto e geografia, sem que fôssemos virar geômetras, cantores ou geógrafos. O mesmo ocorre hoje com o ensino superior.

Todos os cursos das humanidades e áreas sociais estão nessa categoria de "educação geral", para a vasta maioria dos seus graduados. Igualzinho está o bacharelado em direito, um curso que também forma advogados. O curso de direito, pela sua ênfase na linguagem, nas leituras e pelo rigor analítico, é uma excelente preparação para uma miríade de ocupações que absorvem alegremente os seus graduados. Pelo menos três quartos dos graduados não serão advogados. Como existe um exame da OAB para filtrar a qualidade dos que estarão autorizados a advogar, não há razão alguma para o alarido que se criou. Por que filosofia e economia podem virar educação geral e direito não?


Claudio de Moura Castro é economista
(claudiodmc@attglobal.net)

 
 
 
 
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