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Livros
Jogos
de sedução
A
estréia literária provocante e
envolvente de Mario Sabino em
O
Dia em que Matei Meu Pai

Carlos
Graieb
Claudio Rossi
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| Mario
Sabino: o complexo de Édipo revisitado |
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Dois tipos de sedução aguardam o leitor de O
Dia em que Matei Meu Pai (Record; 221 páginas; 25,90
reais). Primeiro, a sedução do bom texto literário,
à qual ele pode se entregar sem medo. O romance de estréia
do jornalista Mario Sabino, editor executivo de VEJA, é daqueles
que se devoram rápido, de preferência de uma vez só,
porque a história é envolvente e a linguagem, cristalina.
Sabino possui atributos fundamentais para um ficcionista, como o
poder de criar imagens precisas: em seu texto, ao ser atingido pelas
costas um personagem não apenas se curva antes de desabar;
ele se curva como se fosse "para amarrar os sapatos". Sabino também
apresenta ao leitor uns tantos conceitos para ruminar, na tradição
do romance de idéias, mas faz isso com leveza e sem um pingo
de obscuridade. A segunda espécie de sedução
em O Dia em que Matei Meu Pai é exercida pelo protagonista,
só que agora de maneira perigosa. Sabino, claro, empresta
as armas de encantamento ao seu personagem, mas nunca é demais
lembrar que criador e criatura não se confundem. O anti-herói
do romance rompeu o tabu primário de qualquer sociedade.
Preso num sanatório, ele tenta convencer uma psicanalista
e o leitor por tabela de que o seu crime de parricídio,
anunciado logo nas primeiras frases, tem justificativa.
O
protagonista do livro de Sabino é um exemplo de "narrador
não-confiável". Seu protótipo na ficção
brasileira é o Dom Casmurro de Machado de Assis, que torce
sutilmente os fatos, dissimula e manipula para convencer os outros
de que sua mulher, Capitu, foi adúltera. Em O Dia em que
Matei Meu Pai, o narrador quer nos persuadir de que seu pai
foi um monstro. Muito rico, esse homem não nutriria nenhum
respeito pelas leis ou pelos outros. O principal alvo de sua perversidade
seria o próprio filho, atormentado desde a infância.
O narrador chega a sugerir que o pai o molestou sexualmente quando
criança. Mas nada é assim tão certo.
A
acusação de molestamento é feita, retirada,
feita novamente. Da mesma forma, outras crueldades podem ou não
ser reais. Será que por trás do parricídio
não está apenas o orgulho de alguém que nunca
saiu da sombra do pai, alguém que passou a vida sentindo-se
diminuído e recorreu a um ato extremo para abrir seu espaço
no mundo? Se o motor do crime foi mesmo o narcisismo, a última
coisa que o narrador deseja agora que se sente livre pela
primeira vez é ver-se reduzido a categorias que outros
inventaram, e que poderiam ser usadas para descrevê-lo. É
por isso que ele discute psicanálise, filosofia e ciência,
e vai desclassificando as aplicações de cada uma ao
seu caso com muita verve e humor, e por isso da forma mais
perigosa. A certa altura, ele grita para sua analista: "Não
quero saber de interpretações. Faça-as longe
de mim, e sem a minha colaboração. De que elas servem,
meu Deus? Você, aqui, não passa de coadjuvante, está
entendendo? Por isso, não tente ser protagonista por meio
de suas interpretações".
Todos
os malabarismos do narrador são para construir uma grande
teoria sobre a moral e o livre-arbítrio e justificar o assassinato
que cometeu. Ele lança mão inclusive de um romance
que iniciou e nunca concluiu, e que trata "da origem do Mal em nossas
almas". Esse romance dentro do romance é um dos bons achados
de O Dia em que Matei Meu Pai. Ao mesmo tempo, o narrador
parece considerar Sigmund Freud, o criador da psicanálise,
o seu principal "rival". Não é por acaso que ele resolve
contar sua história a uma analista. Foi Freud, afinal de
contas, quem criou conceitos como "complexo de Édipo" (que
fala sobre o desejo que toda criança teria, num estágio
inicial de desenvolvimento, de aniquilar seu pai) e "narcisismo",
que parecem se aplicar tão bem a tudo que está em
jogo para ele. Sabino, obviamente, é um leitor assíduo
de Freud e escondeu em seu livro até mesmo uma curiosa reinterpretação
da tese central do livro Totem e Tabu. Nessa obra, Freud
argumenta que o surgimento da civilização estaria
ligado ao complexo de Édipo. Em tempos imemoriais, diz ele,
nossos ancestrais, em suas "hordas primitivas", teriam realizado
o parricídio. Os sentimentos decorrentes desse feito
sobretudo a culpa levaram à formação
de tabus que organizaram a vida em grupo e impediram a guerra de
todos contra todos. O narrador de O Dia em que Matei Meu Pai
também acredita que recriou o universo à sua volta
ao matar seu pai. Mas nesse universo cuidado, leitor
não há lugar para os outros, a não ser como
sombras da vontade e da imaginação desse grande manipulador.
O livro de Mario Sabino, repita-se, é uma leitura fluida
e divertida. Não tem nada de "difícil" mas
dá muito o que pensar.
| "MATEI
COMO QUEM RESPIRA" |
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"O
dia em que matei meu pai era um dia claro, de uma claridade
difusa, sem sombras, sem relevos. Ou talvez tenha sido
cinzento, daquele cinza que tinge até as almas
menos propensas à melancolia. É estranho
que esse seja o único detalhe de que não
me lembre, todos os outros ainda bem vívidos
dentro de mim. E que importa? A moldura, ela foi só
isso moldura. Por que tentar tirar a natureza
de sua indiferença em relação a
nós, homens? Vamos ao fato, então. Matei
meu pai como quem mata um inseto. Não, a imagem
é falsa, já que na maioria das vezes há
irritação, quando não medo, em
ação tão ordinária. Divago,
desculpe-me. Mais exato seria dizer que matei meu pai
como quem respira. A respiração regular,
que não exige grande esforço para levar
o ar aos pulmões."
Trecho
de O Dia em que Matei Meu Pai
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