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Governo
"Cometi um erro,
não um crime"
Ana Araújo
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PREÇO
POLÍTICO
Dirceu, em seu gabinete no Planalto: "Evidentemente, vou pagar
um preço político por isso. Estou com quarenta anos de vida
pública. Nunca me aconteceu algo assim. Então acredito que tenho
pelo menos de ter o direito à dúvida pela minha história" |
Desde
que, há quase um mês, a crise política se instalou
no coração do governo, o ministro-chefe da Casa Civil,
José Dirceu, manteve-se calado. Evitou dar declarações
públicas a respeito do caso Waldomiro Diniz. Sobre o episódio,
só conversava com companheiros de governo e com alguns parlamentares.
Na manhã de sexta-feira passada, às vésperas
de completar 58 anos, Dirceu quebrou o silêncio. Em seu gabinete
do 4º andar do Palácio do Planalto recebeu por duas
horas os jornalistas Lauro Jardim e André Petry, chefes das
sucursais de VEJA no Rio de Janeiro e em Brasília, para sua
primeira entrevista sobre o assunto.
Veja
Por que o senhor não se afastou de Waldomiro
Diniz quando surgiram as primeiras denúncias contra ele no
ano passado?
Dirceu
Porque o próprio Waldomiro solicitou uma investigação
formalmente à Polícia Federal, ao Ministério
Público e à Controladoria-Geral da União. Eu
acreditei nele, com base num fato real, que é o pedido de
investigação. Tomei uma atitude adequada para as circunstâncias,
já que eu não tinha conhecimento de nada e não
havia no comportamento dele aqui no governo nenhum indício
de irregularidade. É evidente que, olhando para trás,
pode-se chegar à conclusão de que o ideal era tê-lo
afastado enquanto durassem as investigações.
Veja
Ninguém o havia avisado sobre a atuação
irregular dele?
Dirceu
Eu não tinha notícia sobre isso. E, infelizmente,
não tinha notícia sobre esse inquérito sigiloso
que o senador Almeida Lima levou ao conhecimento do país
daquela maneira irresponsável. Se eu soubesse, por exemplo,
daquele inquérito sigiloso, evidentemente meu comportamento
teria sido outro. Como também não é fato que
o Waldomiro não tenha sido investigado antes de ser nomeado.
Ele foi, mas nada constava contra ele. Porém, quem pode dar
essa informação é o Gabinete de Segurança
Institucional, que faz as investigações.
Veja
Mas não caberia, então, ao chefe do
Gabinete de Segurança Institucional avisá-lo? Não
falharam os mecanismos de controle?
Dirceu
Quem devia ter me avisado era o delegado da Polícia
Federal, que fez o inquérito sigiloso, e o Ministério
Público, que participou do inquérito. Não entendi
por que não fizeram. Aliás, você tem de fazer
essa pergunta à oposição. Por que essa fita
apareceu agora em fevereiro se, ao que tudo indica, ela estava em
mãos da oposição, que tinha conhecimento dela
desde a campanha eleitoral de 2002?
Veja
Por que o senhor suspeita que a oposição
tinha essa fita? E por que não teria usado antes?
Dirceu
Não faço idéia. Nem estou preocupado
com isso. A fita fala por si só e mostra o suficiente para
todos ficarmos indignados e para tomarmos as providências
legais cabíveis. Há quase um mês o governo está
sendo investigado. Nunca houve uma devassa como a que está
havendo no governo do presidente Lula, inclusive sobre a minha pessoa
e sobre a minha família, o que é mais grave. Considero
isso uma vilania. São investigações paralelas.
E até hoje não foi encontrado nada. Depois de um mês
fica evidente que o governo não rouba, não deixa roubar.
Isso é muito importante. Não há nenhuma denúncia
de corrupção no governo do presidente Lula. Há
um fato gravíssimo, que foi o que Waldomiro Diniz fez, no
Rio de Janeiro, e a fita fala por si mesma. Por isso mesmo, o governo
o exonerou.
Veja
O senhor conversou com Waldomiro Diniz depois desse
episódio?
Dirceu Não. Nunca mais. Nem através de
intermediários. Para mim, basta o que aconteceu.
Veja
Com que freqüência o senhor despachava
com Waldomiro ou falava com ele por telefone?
Dirceu
Ele coordenava e articulava minha relação
com os deputados e senadores para as votações, para
as articulações políticas. Eu despachava com
ele regularmente, toda semana. E falava com ele todos os dias. O
Waldomiro Diniz não assinava atos administrativos, não
tinha poderes legais para isso. Era um assessor político.
E não é verdade que ele fosse o principal assessor
da Casa Civil.
Veja
Não era o seu braço direito?
Dirceu
Não.
Veja
Então, quem é o principal assessor da Casa Civil?
Dirceu
Aqui não tem principal assessor.
Veja
O senhor não contribuiu para ser visto como
o homem forte do governo?
Dirceu
Não, minha história contribuiu para isso.
Não eu.
Veja
Como assim?
Dirceu
Sou uma pessoa que tem humildade suficiente para saber
de minhas limitações e sei reconhecer meus erros,
como tenho feito publicamente. Em 2003, fiz o que tinha de fazer.
E acho que cumpri bem. Não sou de falsa modéstia.
Só que, agora, tenho outro papel no governo. Deixei a articulação
política e federativa do governo. Sei trabalhar em equipe,
tenho disciplina. É por isso que eu organizei o PT, transformei
o PT, junto com todos os companheiros, numa instituição
política. Nós estamos reorganizando o Estado e o governo
ao contrário do que diz a oposição.
E isso salta à vista. É só pegar qualquer ministério
e ver as transformações que está sofrendo.
Todos os ministérios estão sendo reorganizados com
objetivos claros.
Veja
Como continuar fazendo esse trabalho em meio a uma
crise política instalada há quase um mês e com
o crescimento zero da economia?
Dirceu
Não há crise econômica. O país
está melhorando a olhos vistos. Primeiro, porque o país
está fazendo superávit em suas contas. Segundo, porque
está reorganizando sua dívida interna. São
duas coisas importantes: o dólar está estabilizado
e a inflação, baixa. Isso é importante porque
sofremos pela dependência que o país tem há
dezenas de anos dos capitais externos e que o presidente
Lula não pôde resolver em catorze meses. Há
ainda a dívida interna, que foi multiplicada por dez no governo
Fernando Henrique. O presidente Lula adotou uma política
econômica correta e está equacionando esses problemas
com o tempo.
Veja
A sensação do país é que
o governo parou a reboque do caso Waldomiro...
Dirceu
Nada.
Em duas manhãs eu parei minha agenda para cuidar especificamente
dessa questão. Todos os ministros estão trabalhando.
O governo continua andando.
Veja
Uma pesquisa divulgada pelo Datafolha na terça-feira passada
revelou que 67% das pessoas acham que o senhor deveria se afastar
do cargo...
Dirceu
Mas
eu não vou sair do governo. Eu não tenho nenhuma relação
com esse caso, não tenho nenhuma dúvida com relação
a isso. Não participei, não apoiei, não tinha
conhecimento. Não devo sair. Devo continuar fazendo meu trabalho.
Tenho a confiança do presidente, do meu partido e dos partidos
que apóiam o governo. Tenho certeza de que a sociedade, com
as investigações da Polícia Federal e do Ministério
Público, chegará a essa conclusão. Confio que
a opinião pública vai separar o joio do trigo, vai
discernir o que aconteceu.
Veja
Por
que o senhor pediu demissão, então?
Dirceu
Porque
era meu dever. O cargo de ministro não é um emprego
como qualquer outro. É um cargo de confiança, um cargo
do presidente da República. Eu tinha de entregar o cargo
ao presidente. Mas ele, evidentemente, não aceitou, senão
eu não estaria aqui. E pedi apenas uma vez. Não havia
razão para pedir outra vez. Passei a trabalhar e enfrentar
o problema.
Veja
Esse
episódio o deprimiu?
Dirceu
Estou com quarenta anos de vida pública. Nunca na minha vida
me aconteceu algo como isso. Então, acredito que tenho o
direito de ter pelo menos o direito à dúvida pela
minha história. Sempre tive uma vida absolutamente pública,
e aberta e transparente. Não tem pessoa com a vida mais conhecida
do que a minha. Até porque minha vida já foi cantada
em prosa e em verso. Não temo prestar contas ao país.
O que eu não posso aceitar é, por exemplo, o senador
Antero Paes de Barros dizer que, se eu me afastar da Casa Civil,
o PSDB não faz mais a CPI. Então, a CPI não
é para investigar, é para me tirar da Casa Civil...
É para imobilizar o governo. O que é isso? A que nível
de irresponsabilidade vamos chegar? O que se pretende com isso?
Temo que alguns setores da oposição estejam namorando
com o perigo, com teses de desestabilização. Alguns
movimentos indicam isso.
Veja
Quais, ministro?
Dirceu
Os movimentos cujo objetivo é desorganizar o governo. Cometi
um erro e posso admiti-lo. Agora, não fiz nenhum ato ilícito.
Veja
Se algum fato novo vier à tona, o senhor admite
deixar o cargo?
Dirceu
Não
existe mais isso. Eu não vou raciocinar sobre hipóteses.
Não vejo como transformar essa questão numa crise
institucional.
Veja
O senhor acha que esse episódio abalou sua
autoridade?
Dirceu
Não percebo nenhum abalo na minha relação.
Agora, evidentemente eu vou pagar um preço político
por isso. Mas faz parte da vida política. Claro que isso
me afeta. Não do ponto de vista ético, porque estou
com a minha consciência absolutamente tranqüila. Mas
porque sou muito exigente comigo mesmo.
Veja
O senhor poria a mão no fogo pelos seus outros
assessores da Casa Civil?
Dirceu
Eles são pessoas de minha confiança. Não
há nada que afete a retidão deles. Se houver problemas,
evidentemente eles terão de responder por isso.
Veja
Essa série de denúncias ligando o PT
a donos de bingos e bicheiros afeta em que medida a imagem da legenda,
tida como um partido acima dos demais nas questões éticas?
São todos agora "farinha do mesmo saco"?
Dirceu
Não. É só analisar as prefeituras
do PT, os governos de Estado, o próprio governo federal:
há um padrão de comportamento ético e transparência
e de controle e fiscalização. Nosso governo está
há catorze meses no poder. Não há uma denúncia
de corrupção no governo. Repito isso porque é
um fato. Estamos trabalhando com coisas que significam interesses
grandes e não há uma denúncia sequer.
Veja
O senhor acha recomendável que o tesoureiro
do partido, Delúbio Soares, integre a comitiva do presidente
Lula numa viagem ao exterior? Ou que peça a liberação
de verbas para as obras em seu município natal? Ou que participe
de alguma reunião no ministério, como aconteceu no
Ministério dos Transportes?
Dirceu
Não vejo problema de o tesoureiro do PT participar
de uma viagem do presidente. O Delúbio foi dirigente sindical,
dirigente da CUT, militante do PT, é uma pessoa pública.
Não está impedido por ser tesoureiro. A presença
dele no Palácio do Planalto, na Casa Civil, é muito
rara. Ele não vem aqui tratar comigo questões de tesouraria.
Vem discutir política. São questões que poderiam
ser até tratadas na sede do PT. Mas aqui se ganha em agilidade.
E, quando éramos oposição, pedíamos
liberação de verbas. Agora, que somos governo, vamos
parar de pedir? Não vejo como pressão.
Veja
O senhor se vê fora do governo? Como o governo
ficaria sem o senhor?
Dirceu
Se eu sair do governo não acontece nada, absolutamente
nada. O PT e o país têm quadros suficientes para me
substituir e o governo continuar na mesma maneira. No governo não
exerço nada além do que é o meu papel. Se as
coisas começam a parar, faço andar. Para isso o presidente
me pôs aqui. Estou com ele no Palácio do Planalto,
como advogado, parlamentar, ministro. Não tenho crise existencial
se deixar de ser ministro. Já passei por experiências
suficientes na vida para saber recomeçar. Tenho a consciência
tranqüila. Confio em mim, confio na minha história.
Não sou uma pessoa que caiu aqui no Palácio do Planalto,
virou chefe da Casa Civil por acaso. Tenho quarenta anos de vida
pública, entendeu? E não é um fato como esse,
que, repito, é grave e cujas providências legais cabíveis
foram tomadas, que vai manchar minha biografia.
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