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Governo
A
crise rouba a cena

Lauro
Jardim e André Petry
Bruno Stuckert/Folha Imagem
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DEPOIS
DE UM LONGO SUMIÇO
Waldomiro Diniz, o ex-assessor flagrado pedindo propina, depôs
na semana passada mas não disse nada aos investigadores
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Quem
entra no amplo gabinete situado no 4º andar do Palácio
do Planalto, de onde se avista a encantadora placidez do Lago Paranoá,
experimenta uma sensação de calmaria. Esse estado
de espírito é realçado pela paisagem e, também,
pelo dono do gabinete, o ministro da Casa Civil, José Dirceu.
Sentado a uma mesa redonda, ele mostra-se absolutamente confiante,
tranqüilo, sereno. Ali, tudo transcorre com normalidade. Em
duas horas de conversa com VEJA, o ministro José Dirceu explicou
as razões de sua serenidade: o país está gradativamente
resolvendo seus problemas de natureza econômica, tanto que
já temos o juro real mais baixo dos últimos dez anos,
e a cena política desenrola-se sem atropelos, à exceção
de uma "crise artificial" que a oposição tenta criar
a pretexto do escândalo protagonizado por Waldomiro Diniz,
seu ex-assessor, que foi flagrado num vídeo achacando um
contraventor. Ali, no gabinete do ministro, não existe crise.
Existe apenas "um episódio político" que, no entanto,
não maculou sua autoridade nem reduziu sua estatura política.
A
sensação de calmaria acaba quando se deixa o gabinete
do ministro José Dirceu. No Brasil que cerca o Palácio
do Planalto, existe um governo atingido em cheio em sua mais propalada
bandeira o compromisso com a ética. O país
está sendo convidado a acreditar que José Dirceu
cometeu
apenas um erro de procedimento ao contratar Waldomiro ainda
que o ex-assessor fosse seu amigo fazia mais de uma década,
tendo ambos, inclusive, dividido o mesmo apartamento. "Eu tenho
pelo menos o direito à dúvida", disse José
Dirceu a VEJA. Numa pesquisa do instituto Datafolha, divulgada na
semana passada, 67% dos entrevistados desejam que o ministro seja
afastado do cargo em definitivo ou apenas durante a investigação.
Para 81%, deveria ser instalada uma CPI para investigar o caso.
Governo, petistas e aliados não querem nem ouvir falar no
assunto. Como se vê, há uma realidade de acordo com
a interpretação oferecida dentro do Palácio
do Planalto e outra baseada na visão que os brasileiros têm
de fora do palácio. Prensada entre as duas visões,
a vida política brasileira entrou num circuito esquizofrênico.
Na semana passada, aprovou-se a CPI dos Bingos, com a quantidade
necessária de assinaturas para que o assunto seja investigado
no Congresso. Haverá a CPI dos Bingos? Não, quase
certamente. Os governistas estão combinados no Congresso
acerca disso. Boicotarão a CPI e ela, embora aprovada, não
deverá sair do papel.
É
compreensível que uma autoridade pública procure minimizar
uma crise. Em alguns casos, talvez até seja seu dever, para
evitar a disseminação da balbúrdia ou da instabilidade
no país. No atual caso, porém, o governo não
apenas procura minimizar a crise, como também se comporta
como se o episódio estivesse 100% superado. A realidade mostra
que as coisas estão longe dessa tranqüilidade. Na segunda-feira
passada, o Brasil ficou com a respiração suspensa
quando um senador do PDT de Sergipe, Almeida Lima, anunciou um discurso
para o dia seguinte no qual apontaria ligações inconfessáveis
entre Waldomiro Diniz e José Dirceu. Feito o discurso, constatou-se
que era pura espuma. Irresponsável, Almeida Lima somente
requentara velharias. Nas horas que precederam seu pronunciamento,
no entanto, o Brasil contou os minutos. Mas há outro dado:
Almeida Lima é um parlamentar folclórico, tem o hábito
de anunciar bombas atômicas que não passam de traques
e usa a tribuna como parlatório particular, fazendo longos
e tediosos discursos que habitualmente esvaziam o plenário.
Por que o país a bolsa, o dólar, o Parlamento,
o governo ficou tão assustado com as bravatas de um
notório parlapatão?
A
resposta é inequívoca: porque existe uma crise, a
crise rouba a cena, e não tem nada de artificial. Por mais
que, do ponto de vista do Palácio do Planalto, a crise pareça
uma marola, ela pode ainda ter energia política para provocar
uma tsunami, a onda gigante que se forma silenciosamente no fundo
do mar e, de repente, irrompe varrendo a costa. Para segurar a onda,
o governo petista, um partido orgulhoso de sua ética, sua
história e sua independência, está ficando refém
de velhas agremiações, lideradas por raposas cabeludas,
algumas das quais representam o que há de mais negativo na
política brasileira. Até Jader Barbalho, aquele do
Banpará, do ranário, da Sudam, até ele está
de volta à vida. No governo, o PT tem reproduzido com espantosa
similaridade os comportamentos menos recomendáveis de antigas
legendas. Por exemplo: por que o governo barra a CPI? "A CPI não
é para investigar, é para me tirar da Casa Civil,
é para desgastar o governo, é para imobilizar o governo",
reage o ministro José Dirceu. A oposição, sabe-se,
tem por hábito fazer isso, e o PT, aliás, foi exemplar
nesse tipo de atuação. Mas sabe-se também que
exploração política não se faz com perfumaria.
É preciso base sólida, pois do contrário a
manobra cai no descrédito. Das inúmeras CPIs que o
Congresso já instalou, a maioria ficou no vazio exatamente
porque só fazia barulho.
Em
conversas com seus aliados mais próximos, o presidente Luiz
Inácio Lula da Silva diz que só considera a hipótese
de José Dirceu deixar o governo na eventualidade da instalação
da CPI de Waldomiro Diniz. O presidente acha que a CPI dos Bingos,
que os aliados estão boicotando, não tem potencial
para inviabilizar a permanência de Dirceu no governo. O Palácio
do Planalto trabalha para que se materialize no cenário um
elemento que costuma ser o grande desarmador de crises o
crescimento econômico. A estratégia é barrar
todas as CPIs e segurar José Dirceu no cargo até que
sejam divulgados os salvadores "números de abril". Fala-se
aqui do desempenho trimestral do PIB que, pela avaliação
atual do governo, será um índice que pode variar entre
3% e 4%. Caso as estimativas se materializem, os números
do crescimento, mesmo não sendo empolgantes, tendem a reforçar
o otimismo e a diminuir o fôlego da crise política.
É uma aposta. Apenas isso. Por ora, o que sobressai nos bastidores
do governo é uma certa irritação do presidente,
que, na semana passada, ficou particularmente amuado com o escasso
destaque dado às suas conversas telefônicas com líderes
internacionais dos Estados Unidos, França, Alemanha,
Inglaterra, Espanha para flexibilizar algumas normas do Fundo
Monetário Internacional. "Na Argentina, deram mais valor
para isso do que aqui no Brasil", reclamou. São os ossos
da crise.
"Não
vou sair do governo", garante José Dirceu, na entrevista
a VEJA, ao contar que, no auge do caso Waldomiro, colocou o cargo
à disposição, mas o presidente não o
aceitou e não se falou mais no assunto. No núcleo
duro do governo, composto pelos auxiliares mais prestigiados do
presidente, não há cogitação sobre a
saída do ministro. "Isso, simbolicamente, seria um desastre
para o governo e para o PT", diz um desses ministros, explicando
que a demissão de José Dirceu acabaria por confirmar
a perda do "patrimônio ético" do partido. O "patrimônio
ético" do PT não foi extinto pelo caso Waldomiro,
mas nunca é demais lembrar que essa riqueza, por sua natureza,
é difícil de amealhar e fácil de perder. Há
sinais fortes de que algumas administrações do PT
podem ter se envolvido de forma heterodoxa com bicheiros e, agora,
descobre-se uma conexão petista com donos de casas de bingo.
Fica-se com a impressão de que esses episódios talvez
não sejam isolados e estejam, portanto, sugerindo que um
setor do partido tem o hábito de arrastar uma asa para a
jogatina ou melhor: para o dinheiro da jogatina, o que não
faz bem à ética de nenhum partido. O problema maior,
na verdade, é simbólico. Vai além dos fatos
narrados nas histórias recentes. Esse problema é a
suspeita, por parte de muita gente, de que o PT não é
o que dizia ser e nisso se enfiaria, como farinha azeda,
no mesmo saco de todos os partidos.
Waldomiro
Diniz era um cardeal do governo. Representava o ministro José
Dirceu nas negociações com o Congresso. Era tratado
por alguns parlamentares como "ministro". Depois da fita em que
ele aparece pedindo propina a um bicheiro, Carlinhos Cachoeira,
o Planalto tratou de apresentá-lo apenas como um funcionário
contratado por erro de avaliação. Era mais do que
isso. Na semana passada, descobriu-se que também tinha ligação
com José Orcirio dos Santos, o Zeca do PT. Uma correspondência,
de julho de 2000, assinada por Hélio de Lima, assessor executivo
do governador, informa aos secretários estaduais que qualquer
projeto encaminhado ao governo federal seria centralizado pelo escritório
de Mato Grosso do Sul em Brasília. Na carta, o assessor do
governador dá a identidade de Waldomiro Diniz como um dos
contatos autorizados e o número de seu celular. Isso não
significa irregularidade alguma. Mas mostra que o ex-assessor era
um homem mais enfronhado com o partido do que se imaginava.
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