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Diogo
Mainardi
O
meu panelaço
"A
convicção simplória de que todos os
políticos são enganadores precisa ser restaurada.
Sem isso, a democracia
brasileira continuará incompleta, viciada,
sujeita a surtos de histeria sebastianista"
Continuo
minha campanha pelo impeachment de Lula. Poucas adesões de
peso até agora. Faço um panelaço solitário
pelos aposentos da casa, apesar dos veementes protestos de meus
familiares. Bato panela no quarto. Depois bato panela na sala. Depois
bato panela no banheiro. O panelaço de uma panela só.
Por mais surpreendente que possa parecer, ainda não consegui
derrubar o governo. Cedo ou tarde, juro que consigo.
A
burrice que nos acometeu desde a eleição de Lula terá
de ser lembrada para sempre. Demos ao governo um crédito
que nenhum governo pode ter. Por mais de um ano, ignoramos seu populismo
ordinário, seus desvarios retóricos, seu empreguismo
desavergonhado, seu fisiologismo ostentoso, seu descaramento ético,
sua equipe indigente. Abdicamos estupidamente de nossa prerrogativa
básica, que é vaiar e atirar ovos nos políticos.
A convicção simplória de que todos os políticos
são enganadores precisa ser restaurada urgentemente. Só
ela pode estimular a criação de anticorpos na sociedade.
Sem esses anticorpos, a democracia brasileira continuará
incompleta, viciada, sujeita a surtos de histeria sebastianista
igual à que acompanhou a vitória de Lula.
Nenhum
político pode ter 96% de popularidade, como o presidente
teve ao assumir o poder. Isso é devoção religiosa.
Estatisticamente, havia mais gente acreditando em Lula do que em
Deus. Nenhuma literatura dedicou tanta atenção ao
estudo do caráter nacional quanto a nossa. E nenhuma literatura
se equivocou tanto sobre o assunto. O único aspecto relevante
de nossa personalidade é um exasperado servilismo. Nesse
sentido, nada pode ser mais revelador do que a eleição
de Lula, que desencadeou a maior onda de adesismo da história
do Brasil. Por seu passado oposicionista, Lula conferiu uma aura
de dignidade a todos aqueles que escolheram se sujeitar a ele, adulando-o
com a esperança de obter favores. Alguns ganharam cargos.
Outros ganharam aplausos. Anotei seus nomes num caderninho. Estão
na minha lista de proscrição. Quem também está
na minha lista de proscrição são as instituições
encarregadas de vigiar o poder e que, melifluamente, se aliaram
a ele: os sindicatos, os movimentos sociais, parte da imprensa,
a universidade, os artistas, os intelectuais, a Igreja. Somos nós
que financiamos essa turma. Se ela não serve para nos defender,
devemos parar de sustentá-la. Lula mostrou que nossa democracia
é pura fachada.
Muita
gente teme os efeitos de uma crise política. Não há
o que temer. Os políticos caem, mas o país fica. Ao
contrário do que se pensa, o destino do Brasil não
está atrelado a nenhum político. A desilusão
provocada por Lula pode ser altamente benéfica, se compreendermos
o perigo de abaixar a guarda contra os políticos. Os principais
instrumentos de que dispomos para controlá-los são
a descrença e a desconfiança. Quando dizem que o financiamento
público aos partidos pode diminuir a roubalheira, por exemplo,
estão mentindo. Para diminuir a roubalheira dos políticos,
basta diminuir a quantidade de dinheiro que passa pelas mãos
deles. E, agora, panelaço.
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