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Em
foco: Sérgio Abranches
A
política do êxtase
"Ao
repetir o filme gasto, que faz os brasileiros
desconfiar
dos políticos e das instituições
políticas, com as manobras para evitar CPI,
o governo Luiz
Inácio cai na vala comum
da
pior versão sobre
a política brasileira"
O episódio
envolvendo comportamento irregular do senhor Waldomiro Diniz, que
foi subchefe do Gabinete Civil, tem dimensão suficiente para
gerar uma crise política e paralisar o governo. E teria em
qualquer país democrático do mundo. A negação
da importância do fato, feita por setores os mais distintos
da política brasileira, à esquerda, à direita
e ao centro, revigora um dos elementos mais destrutivos de nossa
incultura cívica. Esse misto de cinismo, hipocrisia e oportunismo,
que desqualifica os sintomas de graves disfunções
de nosso sistema político, fortalece os que se beneficiam
dos limites imprecisos da ética na política.
Ilustração com foto de Ed Ferreira/AE
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Diniz não era só um "cidadão que cumpria uma
função da relação entre o governo e
o Congresso", como o definiu o presidente Luiz Inácio. Era
detentor de um cargo de confiança no segundo escalão
da estrutura central do organograma oficial da Presidência
da República. Qualquer liderança parlamentar saberia
dizer qual era o peso da palavra e das ações do então
subchefe do Gabinete Civil encarregado das relações
com o Parlamento. Chegavam a chamá-lo de ministro, por adulação
e porque sabiam o grau de influência que tinha.
A
Casa Civil é poderosa no regime presidencial. Aqui como nos
Estados Unidos. Lá, essa estrutura político-administrativa
ficou conhecida como a "Presidência institucionalizada". Para
não recorrer à literatura técnica, dou um exemplo
da ficção política. Quem assistir a algum episódio
da série de TV West Wing, que retrata a Casa Branca,
verá que a figura central na articulação das
decisões do dia-a-dia é o chief of staff, que
corresponde à chefia do Gabinete Civil aqui. É o principal
auxiliar do presidente, em todos os aspectos do governo e da relação
com as forças políticas relevantes para o desempenho
da governança. Um cargo institucional de primeira grandeza.
Seu titular deve explicações sobre os critérios
pelos quais nomeia co-titulares dessa função institucional
e lhes delega os poderes a ela correspondentes. Portanto, a terceira
vítima da "operação abafa" é o ministro
José Dirceu.
A
segunda vítima é o governo Luiz Inácio, que
se torna refém da velha política, de Sarney, ACM,
Renan Calheiros e de tantos outros. Passa pelo vexame de nomear
diretores do Banco da Amazônia, indicados pelo deputado Jáder
Barbalho. O senador Calheiros é modelar: foi Collor, anti-Collor,
FHC, anti-FHC, e agora é Lula. Quando será anti-Lula?
A
opinião pública não perdoa. Os resultados do
último Datafolha deveriam alertar o governo de que nada há
a abafar, mas muito a esclarecer, para não perder a confiança,
o respeito e a esperança da sociedade brasileira.
Mas
quem é a primeira vítima? Quem perde mais? As instituições
e o capital cívico da democracia brasileira.
Ao
repetir o filme gasto, que desgasta as instituições
e faz os brasileiros desconfiar dos políticos e das instituições
políticas, com as manobras para evitar CPI, agenda positiva,
propaganda, reforma política, o governo Luiz Inácio
cai na vala comum da pior versão sobre a política
brasileira. Alimenta a sensação de que o país
não tem jeito. Ou que só anda de mau jeito. Já
havia contribuído para esse processo de destruição
do capital cívico ao imolar, diariamente, o governo Fernando
Henrique no altar da moralidade pública. Agora mostra uma
inédita tolerância para com desvios de conduta no próprio
meio. E falo de Waldomiro Diniz, até há pouco segundo
escalão da Casa Civil da Presidência, depois transferido
para o segundo escalão da Secretaria de Articulação
Institucional da Presidência. Tenta impedir que o Congresso
investigue sua participação em esquemas de financiamento
de campanha e favorecimento de terceiros, no exercício de
função pública relevante, com justificativa
igual às que jamais aceitou no passado, usadas para impedir
outras CPIs.
Os
meios sempre corrompem os fins. Essas atitudes consolidam na opinião
pública a visão de que todos os políticos são
iguais, para benefício dos fisiológicos, que sempre
estiveram lá e nada têm a perder. Essa maleabilidade
ética tática reforça em amplos segmentos sociais
o culto do "rouba mas faz", uma espécie de "lei de Gérson
político-eleitoral". Um raciocínio do tipo "se todos
são iguais, prefiro quem me traga mais vantagens", que desperta
a busca do benefício maior e mais imediato e o desprezo para
com os interesses dos outros e o futuro coletivo.
Sérgio
Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)
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