Edição 1844 . 10 de março de 2004

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Em foco: Sérgio Abranches
A política do êxtase

"Ao repetir o filme gasto, que faz os brasileiros
desconfiar dos políticos e das instituições
políticas, com as manobras para evitar CPI,
o governo
Luiz Inácio cai na vala comum da
pior versão
sobre a política brasileira"

O episódio envolvendo comportamento irregular do senhor Waldomiro Diniz, que foi subchefe do Gabinete Civil, tem dimensão suficiente para gerar uma crise política e paralisar o governo. E teria em qualquer país democrático do mundo. A negação da importância do fato, feita por setores os mais distintos da política brasileira, à esquerda, à direita e ao centro, revigora um dos elementos mais destrutivos de nossa incultura cívica. Esse misto de cinismo, hipocrisia e oportunismo, que desqualifica os sintomas de graves disfunções de nosso sistema político, fortalece os que se beneficiam dos limites imprecisos da ética na política.

Ilustração com foto de Ed Ferreira/AE


Diniz não era só um "cidadão que cumpria uma função da relação entre o governo e o Congresso", como o definiu o presidente Luiz Inácio. Era detentor de um cargo de confiança no segundo escalão da estrutura central do organograma oficial da Presidência da República. Qualquer liderança parlamentar saberia dizer qual era o peso da palavra e das ações do então subchefe do Gabinete Civil encarregado das relações com o Parlamento. Chegavam a chamá-lo de ministro, por adulação e porque sabiam o grau de influência que tinha.

A Casa Civil é poderosa no regime presidencial. Aqui como nos Estados Unidos. Lá, essa estrutura político-administrativa ficou conhecida como a "Presidência institucionalizada". Para não recorrer à literatura técnica, dou um exemplo da ficção política. Quem assistir a algum episódio da série de TV West Wing, que retrata a Casa Branca, verá que a figura central na articulação das decisões do dia-a-dia é o chief of staff, que corresponde à chefia do Gabinete Civil aqui. É o principal auxiliar do presidente, em todos os aspectos do governo e da relação com as forças políticas relevantes para o desempenho da governança. Um cargo institucional de primeira grandeza. Seu titular deve explicações sobre os critérios pelos quais nomeia co-titulares dessa função institucional e lhes delega os poderes a ela correspondentes. Portanto, a terceira vítima da "operação abafa" é o ministro José Dirceu.

A segunda vítima é o governo Luiz Inácio, que se torna refém da velha política, de Sarney, ACM, Renan Calheiros e de tantos outros. Passa pelo vexame de nomear diretores do Banco da Amazônia, indicados pelo deputado Jáder Barbalho. O senador Calheiros é modelar: foi Collor, anti-Collor, FHC, anti-FHC, e agora é Lula. Quando será anti-Lula?

A opinião pública não perdoa. Os resultados do último Datafolha deveriam alertar o governo de que nada há a abafar, mas muito a esclarecer, para não perder a confiança, o respeito e a esperança da sociedade brasileira.

Mas quem é a primeira vítima? Quem perde mais? As instituições e o capital cívico da democracia brasileira.

Ao repetir o filme gasto, que desgasta as instituições e faz os brasileiros desconfiar dos políticos e das instituições políticas, com as manobras para evitar CPI, agenda positiva, propaganda, reforma política, o governo Luiz Inácio cai na vala comum da pior versão sobre a política brasileira. Alimenta a sensação de que o país não tem jeito. Ou que só anda de mau jeito. Já havia contribuído para esse processo de destruição do capital cívico ao imolar, diariamente, o governo Fernando Henrique no altar da moralidade pública. Agora mostra uma inédita tolerância para com desvios de conduta no próprio meio. E falo de Waldomiro Diniz, até há pouco segundo escalão da Casa Civil da Presidência, depois transferido para o segundo escalão da Secretaria de Articulação Institucional da Presidência. Tenta impedir que o Congresso investigue sua participação em esquemas de financiamento de campanha e favorecimento de terceiros, no exercício de função pública relevante, com justificativa igual às que jamais aceitou no passado, usadas para impedir outras CPIs.

Os meios sempre corrompem os fins. Essas atitudes consolidam na opinião pública a visão de que todos os políticos são iguais, para benefício dos fisiológicos, que sempre estiveram lá e nada têm a perder. Essa maleabilidade ética tática reforça em amplos segmentos sociais o culto do "rouba mas faz", uma espécie de "lei de Gérson político-eleitoral". Um raciocínio do tipo "se todos são iguais, prefiro quem me traga mais vantagens", que desperta a busca do benefício maior e mais imediato e o desprezo para com os interesses dos outros e o futuro coletivo.

Sérgio Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)

 
 
 
 
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