A paciente zero

A partir de macaca que resistiu à infecção da
Aids, cientistas descobrem a origem da doença

Karina Pastore

"Marilyn" era apenas mais uma entre os 98 chimpanzés da Base Aérea Americana de Holloman, no Novo México. No final da década de 50, ainda filhote, foi capturada na África e levada para os Estados Unidos. Lá, serviria de cobaia nas experiências relativas aos efeitos das viagens espaciais sobre os primatas. Marilyn não teve a honra de se tornar o primeiro macaco a entrar em órbita — mérito que coube a "Ham", outro símio, em 1961. Também jamais voou. Durante 26 anos, não passou de uma chimpanzé parideira. Deu à luz uma dúzia de macaquinhos até morrer, em 1985, vítima de complicações de mais um parto. Catorze anos depois, Marilyn conquistou enfim a notoriedade. No domingo dia 31, contaram sua história na abertura da 6ª Conferência Anual de Retroviroses e Infecções Oportunistas, realizada em Chicago. A macaca está também na última edição da prestigiada revista científica Nature. Marilyn é a chave de um dos maiores enigmas da medicina do século XX. Graças aos restos mortais da chimpanzé, esquecidos num freezer de laboratório por dez anos, descobriu-se a origem do vírus HIV-1, responsável por 99% dos 35 milhões de doentes de Aids em todo o mundo. O 1% restante dos casos se deve ao HIV-2.

Liderada pela virologista Beatrice Hahn, da Universidade do Alabama, uma equipe de onze pesquisadores, entre americanos, franceses e ingleses, identificou a subespécie de chimpanzé que é a hospedeira natural do vírus da Aids. Marilyn era uma genuína Pan troglodytes troglodytes, habitantes do centro-oeste africano (veja acima) de onde vem também a evidência do primeiro caso de Aids em ser humano, datado de 1959. Ao analisar o sangue e os tecidos de Marilyn, a virologista encontrou um exemplar do SIV cpz (SIV, de vírus da imunodeficiência símia, e cpz, de chimpanzé), com um grau de semelhança com o HIV-1 jamais visto — superior a 90%. A notícia entusiasmou médicos e cientistas. "A descoberta abre uma nova frente de pesquisas sobre a doença", defende Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, dos Estados Unidos, e um dos maiores estudiosos de Aids.

Mesmo quando infectados pelo vírus da Aids, os chimpanzés não adoecem. Um micróbio geralmente não causa doença em seu hospedeiro natural. Os agentes infecciosos da gripe, por exemplo, vivem em aves e porcos, mas pássaros e suínos não ficam gripados. O otimismo com Marilyn se explica. Do ponto de vista genético, os chimpanzés são quase idênticos aos seres humanos. Apenas 1,6% de seus genes diferem daqueles do Homo sapiens (veja quadro ao lado). "O próximo passo é determinar o que nesse 1,6% de diferença genética faz com que o sistema imunológico dos chimpanzés resista ao vírus e o humano não", diz o infectologista Artur Timerman, do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, e um dos participantes da conferência de Chicago. É uma nova esperança na luta contra a Aids.

A contaminação humana ocorreu, apostam os especialistas, por causa do antigo hábito africano de comer carne de chimpanzé. A matança é feita de modo rudimentar, expondo os caçadores ao sangue contaminado dos macacos. A empolgação dos cientistas esbarra, contudo, num futuro sombrio. Para que se possa avançar nas pesquisas sobre a Aids é preciso que haja um número grande de chimpanzés em seu habitat. Animais de laboratório são inadequados, porque não estão expostos à ação do vírus, tal como ele se apresenta na natureza. Mas os Pan troglodytes troglodytes estão em extinção. "Em vinte anos, não haverá chimpanzés soltos na África", prevê Eduardo Ottoni, professor de etologia da Universidade de São Paulo. Salvem os parentes de Marilyn!




Copyright © 1999, Abril S.A.

Abril On-Line