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Cuba Amor incendiárioCartas
apaixonadas dos anos 50 mostram Havana, 1953. Noite após noite, um jovem advogado de rosto escanhoado e bigode fininho chamado Fidel Castro reunia-se com outros conspiradores numa mansão no bairro grã-fino de Vedado. Ali, na casa de Natalia Revuelta, socialite de faiscantes olhos verdes, casada com um conhecido cardiologista, traçaram os planos para o ataque ao quartel de Moncada, o primeiro tiro da revolução que derrubaria o ditador Fulgencio Batista em 1959. A oposição à ditadura tinha fincado raízes na alta classe média, mas para Naty, como Natalia era conhecida nas colunas sociais, o compromisso era muito mais radical. A Fidel, ela entregou a chave da casa e seu coração. Para sempre. Enquanto a paixão não se consumava, ajudou a financiar a rebelião, empenhando as próprias jóias e raspando a conta bancária. Por fim, eles tiveram um ardente, mas rápido, caso de amor e uma filha, que hoje vive no exílio. A recente publicação das cartas de amor trocadas entre Fidel e Naty revela muito sobre essa paixão em tempos de revolução e permite uma rara espiada na vida íntima de "El Comandante". Depois do fracasso em Moncada, Fidel ficou preso quase dois anos na Ilha de Pinos. Para informá-lo de que estava em segurança, Naty enviou-lhe um livro com uma foto entre as páginas. Foi o início de uma apaixonada troca de cartas, nas quais falavam de literatura, filosofia e amor. É difícil hoje reconhecer no ditador setuagenário que exaure a paciência de seus concidadãos com intermináveis discursos recheados de estatísticas o galã que escrevia à amada estar preparado a "dar a vida com prazer por sua honra e seu bem". Ou que diz existir "um tipo de mel que nunca enjoa" e "este é o segredo das suas cartas" tudo para pedir-lhe que, em vez de à máquina, escrevesse à mão, com sua letra "tão delicada, feminina, inconfundível". Em maio de 1954, as cartas de Fidel para Naty e para a esposa, Mirta, foram misteriosamente trocadas. Indignada, ela pediu o divórcio dois meses depois. O namoro epistolar transformou-se num rápido mas tórrido relacionamento sexual nos dois meses decorridos entre a libertação da prisão e a partida de Fidel para o exílio no México, em 1955. Antes de embarcar devolveu a Naty as cartas que ela lhe enviara na prisão, o que explica sua preservação. Alina, a filha gerada nesse breve interlúdio, nasceu no ano seguinte. Naty, então com 30 anos e uma filha com o marido, escreveu uma última carta a Fidel: "Parece que digo adeus o tempo todo, mas na realidade nunca me despeço". Com o marido, Orlando Fernández, foi mais fácil romper: ele partiu para os Estados Unidos em 1961, levando a filha do casal. Logo depois da vitória da revolução, Fidel esteve na casa de Naty para conhecer Alina. A menina só soube a identidade do pai biológico aos 10 anos. Virou modelo e, em 1993, fugiu do país disfarçada de turista espanhola. No exílio escreveu Alina, Memórias da Filha de Fidel Castro (Editora Ática), um livro ácido sobre a revolução no qual pela primeira vez apareceram algumas das cartas. Outras foram publicadas em Havana Dreams, da americana Wendy Gimbel, ainda sem tradução para o português. Do pai, Alina guarda o ressentimento de criança abandonada, mas jamais censura Naty. "Minha mãe só teve um amor na vida", explicou Alina a VEJA na semana passada. "Fidel não era apenas um homem, mas uma causa. A época era de grande romantismo e minha mãe apaixonou-se profundamente pelas idéias e pelo homem." Tad Szulc, o biógrafo americano de Fidel, escreveu que Naty foi muito mais que uma amante. "Tornou-se uma pessoa muito importante na vida de Fidel e fez parte de um extraordinário contingente de mulheres bonitas e ou altamente inteligentes que, na verdade, dedicaram a vida a ele e a sua causa." Naty nunca pensou em deixar Cuba, apesar de seu namoro com Fidel ter-se tornado passado. O ditador deu-lhe algumas tarefas revolucionárias. Aposentada, aos 72 anos, trabalha numa biografia de José Martí, o herói da independência cubana. Nunca mais amou ninguém (ao contrário de Fidel, que tem nove filhos com várias mulheres). Falando a VEJA por telefone, de Havana, ela repetiu uma resposta que tem pronta para essas ocasiões: "Estou só, mas não solitária".
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