Fim do bolero de FHC

Indeciso sobre a direção a seguir, o presidente
hesitava entre dois planos. Agora, fez sua opção

Stanley Fischer e
Pedro Malan ao fim
das primeiras conversas:
juros altos e ajuste maior
Foto: Juca Varella/Folha Imagem  

O encerramento da primeira rodada de conversas da equipe do ministro Pedro Malan com os técnicos do Fundo Monetário Internacional, FMI, liderados pelo economista Stanley Fischer, deu um rumo claro à política econômica que será adotada daqui para a frente. Pelo que já foi acertado, haverá alta de juros para controlar a inflação e um aperto ainda mais severo nos gastos públicos. Esse caminho, ao contrário do que se poderia suspeitar, não era a única alternativa. Fazia três meses que o presidente Fernando Henrique estava usando a estratégia de trabalhar, simultaneamente, com dois planos paralelos — e opostos —, mas só pretendia escolher o rumo definitivo em meados deste ano. O agravamento da crise sepultou de uma vez a ambigüidade do presidente. Um dos dois planos, o que acabou vitorioso na semana passada, era seguir a linha "monetarista" do ministro Malan, mantendo-o no cargo com um aliado no Banco Central — no caso, o jovem economista Armínio Fraga Neto, que acaba de ser convidado a assumir a presidência do banco. O outro plano, enterrado pelo pânico financeiro dos últimos dias, consistia em prestigiar a corrente do grupo "desenvolvimentista", liderado pelo ministro José Serra, da Saúde. Nesse caso, o presidente manteria Francisco Lopes no Banco Central, trocaria Malan por André Lara Resende e, se possível, traria de volta para o governo o ex-ministro Luiz Carlos Mendonça de Barros.

"A idéia era trabalhar com essas duas saídas até o meio do ano. Só então, com o cenário mais claro, é que o presidente iria definir o rumo", diz um assessor de FHC. O jogo de sinais duplos que o presidente adotou, ora prestigiando um grupo, ora outro, começou em outubro passado. Na época, Fernando Henrique ficou convencido da necessidade de mudar a política cambial. Arrastou asa para Francisco Lopes, economista que, apesar de seus pendores monetaristas, assim como Malan, é um atento e freqüente interlocutor de José Serra, representante da corrente oposta. Encomendou a Francisco Lopes um plano para mudar o câmbio. Enlevado em seu bolero de dois pra lá, dois pra cá, FHC fez o mesmo pedido ao então presidente do Banco Central, Gustavo Franco. Desde então, nas coxias do Palácio do Planalto, Fernando Henrique tocou essa música de movimentos pendulares sem que ninguém, além dele próprio, conhecesse a partitura inteira. Ele vinha agindo assim porque não estava convicto do caminho que deveria seguir depois da crise da Rússia, que deixou desprotegida a moeda brasileira. Como é próprio de seu estilo, queria decidir só quando os fatos estivessem suficientemente claros. Mas, até lá, manteria a seu lado os dois grupos para na hora H ter a opção escolhida à mão.

A idéia do presidente era só definir o rumo no meio do ano

Pode-se chamar esse comportamento de vacilante, ambíguo ou prudente. O fato é que o presidente só fez sua opção, decretando o fim do jogo de sinais duplos, na noite da sexta-feira negra, quando o dólar bateu em 2,17 reais e o país foi tomado por boatos e por uma onda de pânico. Naquela noite, aconteceu um fato inesperado: o ministro Pedro Malan escreveu seu pedido de demissão e entregou-o pessoalmente a FHC. Não era um blefe. Dessa vez, Malan estava disposto a voltar para casa mesmo. Achava que, diante da crise da sexta, a equipe perdera credibilidade para comandar a economia e chegara a hora de trocar todos — "a começar por mim", disse. No Alvorada, o ministro encontrou um presidente irritadíssimo. Estava menos preocupado com a alta cotação do dólar, contudo não suportava a idéia de ter sido forçado a ir duas vezes à televisão, num mesmo dia, para desmentir boatos, usando aquele vocabulário de catástrofe — confisco, moratória, corrida bancária — do qual tenta manter a maior distância possível.

Erro de amador Mesmo assim, o presidente pediu que Malan ficasse no cargo. Temendo que, com sua permanência, Fernando Henrique mantivesse o jogo de ora dar sinais para um lado, ora para outro, Malan afirmou que ficaria no ministério, mas queria saber claramente a direção que o governo iria seguir. Para sepultar suas dúvidas, declarou que não gostaria de trabalhar mais ao lado de Francisco Lopes, com quem mantinha uma relação tumultuada. FHC encerrou ali seu balanço pendular. Ficou com Malan e, dois dias depois, convidou Armínio Fraga para assumir o comando do Banco Central. Amigo de Armínio Fraga, de quem foi professor na PUC do Rio de Janeiro, Malan não apenas queria Lopes fora do BC como desejava que Armínio Fraga fosse seu sucessor. São tão íntimos que, durante sua passagem por Brasília, Armínio ficou hospedado na casa de Malan.

Chico Lopes não aceitava orientação de Malan nem para dar entrevista

A decisão do presidente, na prática, não foi difícil — apenas antecipada. Ele já decidira que Francisco Lopes não ia ficar no Banco Central, onde o economista passou apenas três semanas, num recorde nacional. O desastre que Lopes comandou logo depois de assumir a presidência do BC foi um erro de amador. Havia na praça a expectativa de que o real se desvalorizasse diante do dólar e tudo o que ele fez foi "alargar a banda cambial". Ou seja, em vez de deixar o mercado fazer o preço da moeda conforme a oferta e a procura, tentou segurar a desvalorização num patamar muito baixo. O resultado foi a explosão que se viu. Problema: Francisco Lopes havia garantido a FHC que a manobra tinha mínima chance de dar errado. Com essa garantia, o presidente topou a idéia. A "banda larga" não sobreviveu 48 horas e foi sepultada com a adoção do câmbio flutuante. Esse malogro na estréia gerou um mal-estar tão grande que, com Malan na linha de frente, o governo tentou, sem sucesso, até adiar a sabatina de Chico Lopes no Senado, já temendo que os senadores aprovassem um nome que, dias depois, pudesse estar fora dos quadros do governo.

Videogame — Entre os amigos de Chico Lopes circula a história de que ele foi decapitado por interferência do FMI, pois, como acadêmico respeitado e dono de idéias próprias, se recusava soberanamente a seguir as orientações do Fundo. Alguns fatos dão certa base a essa conclusão, que, no entanto, não explica a demissão do economista. O governo inteiro sabia que Chico Lopes nunca gostou dos técnicos do Fundo. Há três meses, chamou-os de "cavalaria excitada". Achava que eles deviam dar orientações gerais, e não monitorar o dia-a-dia da economia dos países para os quais o FMI abriu seu cofre. Recusava-se a discutir pessoalmente com Teresa Ter-Minassian, a chefe da missão do Fundo, sob alegação de que ele, como presidente do Banco Central, só podia sentar-se com gente da mesma estatura. Ou seja: só falava com Stanley Fischer para cima. Logo que assumiu o cargo, numa rodada de negociações com o FMI em Washington, Chico Lopes trombou de frente com o diretor-gerente do Fundo, o francês Michel Camdessus, que queria um aumento imediato das taxas de juros para 35%. Chico Lopes informou que o país tinha um órgão encarregado de discutir o assunto, o Comitê de Política Monetária, Copom, e que só se podia mexer na taxa numa reunião dos seus membros. Camdessus pediu então que Chico Lopes reunisse o Copom dali mesmo, de Washington, por telefone. Ele se negou a fazer isso.

Voltou ao Brasil, reuniu o Copom, conforme manda a burocracia federal, e subiu os juros para 32%, e não os 35% desejados por Camdessus. Sua atitude irritou tanto os caciques do FMI que, ao deixar Washington, os técnicos do Fundo já começavam a comentar que Chico Lopes estava com a cabeça a prêmio e, mais cedo ou mais tarde, seria decapitado. Um desses técnicos, ao desembarcar no Brasil na semana passada para examinar as contas do governo, se sentiu na liberdade de comentar com um assessor da diretoria do BC: "Já sabíamos que seu chefe ia ser demitido". Ele estava certo, mas pela razão errada. Chico Lopes caiu, na verdade, porque a sexta-feira precipitou o pedido de demissão de Malan e forçou o presidente a antecipar uma escolha — o triunfo de Malan e sua equipe. Os atritos de Chico Lopes com os técnicos do FMI certamente contribuíram para torná-lo mais facilmente descartável, mas suas relações com Malan já tinham chegado a um ponto insuportável.

Chico Lopes e Pedro Malan se conhecem há anos, desde que criaram o curso de economia da Pontifícia Universidade Católica, PUC, do Rio de Janeiro, origem acadêmica de ambos. Mas, no governo, nunca trocaram amabilidades. No Ministério da Fazenda, reclama-se que Chico Lopes ignorava as ordens de Malan, desde orientações importantes até questões da rotina burocrática. A coisa chegou a tal ponto que, há duas semanas, o próprio Malan deixou o prédio do Ministério da Fazenda e foi ao Banco Central sentar-se diante da mesa de operações de câmbio, já que suas orientações eram ignoradas. Na sexta-feira negra, o desentendimento chegou ao auge. Chico Lopes elaborara um plano para intervir no câmbio, mas Malan não concordou com a estratégia. Chefiados por duas autoridades que não se entendiam, os operadores da mesa de câmbio do Banco Central protagonizaram uma cena inacreditável: passaram a sexta-feira inteira apenas sentados diante das telinhas, só assistindo, como num inocente videogame, ao mercado deliciar-se vorazmente com a especulação do dólar.

Há poucos dias, os dois se desentenderam até quando Malan recomendou que Chico Lopes falasse com a imprensa. "Se o Tietmeyer não dá entrevista, por que eu vou dar?", respondeu Chico Lopes, comparando-se com o presidente do banco central alemão. Além disso, Malan nunca se sentiu confortável com a ligação existente entre Chico Lopes e o ministro José Serra, seu maior rival no governo. Também não gostava do canal direto que Chico Lopes tinha com o presidente Fernando Henrique, o que gerava quebras de hierarquia e deixava-o um tanto inseguro. Com todo esse currículo de atritos, Malan sentiu que não poderia ficar ao lado de Chico Lopes quando pediu demissão na sexta-feira negra.

O clube dos aflitos

O Fundo Monetário Internacional, FMI, é o telhado de vidro do capitalismo. Na época da Guerra Fria era descrito como braço endinheirado da CIA. Liquidado o comunismo, o FMI seguiu sendo tachado de agente do imperialismo. Recentemente, andou despertando críticas de gente mais gabaritada. Analistas muito ouvidos, como o investidor George Soros e o professor da Harvard Jeffrey Sachs, clamaram por sua destruição. Pura demagogia. O FMI não é infalível, mas suas receitas são, no geral, medidas que os países deveriam estar seguindo há muito tempo, não por imposição, mas como regras salutares de higiene fiscal.

O volume e a estridência das críticas contra o Fundo cresceram nos últimos meses. Analistas acham que o FMI errou a mão nos pacotes de ajuda à Rússia, Tailândia, Coréia do Sul e Indonésia. O próprio Fundo reconheceu que andou aplicando receitas idênticas para países e situações que requeriam poções personalizadas. Quando se faz uma análise do resultado recente dos remédios receitados pelo FMI, a constatação, no entanto, é de que o tratamento funcionou. Coréia e Tailândia devem voltar a crescer neste ano. Indonésia estaria pior sem a ajuda do FMI. A própria Rússia vem implorando por doses adicionais do medicamento que os analistas dizem que a está matando.

O Fundo nada mais é do que um clube dos aflitos. Ele empresta dinheiro a países em crise, mas em troca exige que algumas regras sejam cumpridas. A receita é quase sempre a mesma: aumento de impostos, corte de gastos do governo e elevação temporária dos juros para conter a inflação. São medidas amargas que recaem sobre sociedades que já enfrentam problemas de sobra. Por isso provocam protestos. "É como fazer quimioterapia. O paciente sabe que vai emagrecer, sofrer, mas não quer morrer e por isso faz o tratamento", diz Eliana Cardoso, economista brasileira do Fundo. Os países se associam a esse clube por vontade própria. Eles até pagam para ficar sócios. Alguns dos 182 países vinculados ao FMI são fregueses antigos da sua farmacopéia. Índia, Egito e Turquia são vitalmente dependentes de seus empréstimos há mais de quarenta anos. Outros dezesseis países sobrevivem graças ao socorro do Fundo há mais de três décadas. O pacote de 41,5 bilhões de dólares liberado ao Brasil no ano passado é um dos maiores nos 53 anos de existência do Fundo.

Expedito Filho e Felipe Patury




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