Armínio e os palpiteiros

Por que o mundo financeiro está
de olho no novo presidente do BC

Antenor Nascimento Neto

Armínio Fraga, o novo presidente do Banco Central, tem duas qualidades imprescindíveis para o cargo. Ele é um dos mais hábeis operadores do mercado financeiro do país, sobretudo na área de câmbio. Conhece todos os truques com intimidade. Sua outra qualidade é conhecer também os que operam do outro lado do balcão, ou seja, aqueles que podem especular contra o governo, e geralmente o fazem. Assim, quando os movimentos do dólar se transformaram no nervo exposto da economia brasileira, o governo contratou alguém que, só pelo seu currículo, inspira respeito. "No mínimo, haverá mais cautela no jogo com o BC daqui por diante", afirma Jair Ribeiro, diretor do Banco Chase, ex-companheiro de Fraga no banco americano Salomon Brothers.

"Ele sabe antecipar os movimentos do mercado."
Álvaro Simões, diretor do banco Indosuez

Seus problemas, no entanto, são muito maiores do que operações corriqueiras na mesa de câmbio. Ele assume o BC num momento em que o enrosco econômico brasileiro é de tais proporções que o país virou cobaia para as receitas dos mais famosos doutores em economia. Os juros têm de subir, diz Stanley Fischer, diretor do FMI. Precisam cair, declara Jeffrey Sachs, professor de Harvard. O Brasil deve centralizar o câmbio, aconselha Paul Krugman, vedete do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, MIT. Se fizer isso, quebra, rebate Alain Touraine, sociólogo francês. Fala-se em fechar a economia, ou dolarizá-la, ou criar um sistema de dupla moeda para o país, sendo uma para uso externo e outra para uso interno. O receituário gratuito dos acadêmicos tem de tudo. Na semana passada, a palpitaria subiu ao máximo no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, uma importante conferência econômica que ocorre anualmente. O que eles não forneceram até agora foi uma fórmula completa e plausível para resolver a crise do país de Armínio.

Sob essa tremenda tempestade elétrica, o presidente do BC tem uma tarefa imediata. Ele precisa restabelecer a confiança dos estrangeiros que financiam o Brasil e dos brasileiros que nos últimos tempos têm tido dúvidas sobre a segurança de seus investimentos e tirado dinheiro do país. Nesse ponto, não há muito mistério nem soluções mágicas. É necessário insistir no ajuste fiscal, ou até acelerá-lo, e não fornecer a menor impressão de que o governo tomará o caminho da insensatez, com medidas como confisco ou moratória. "Nesse instante em que a sensibilidade de todos a respeito do Brasil está tão machucada, fugir da ortodoxia seria um erro", diz José Alexandre Scheinkman, professor de economia da Universidade de Chicago.

Além das medidas ortodoxas, o governo poderia tomar algumas providências para corrigir seu temperamento. Elas ajudariam Armínio em sua tarefa de amansar a praça. Até a semana passada, Brasília não parecia muito firme quanto à linha econômica a adotar. Embora o ministro Pedro Malan, que é o patriarca da postura ortodoxa, tenha ficado no cargo e obtido prestígio, quase pediu demissão diante da possibilidade de economistas do time desenvolvimentista serem chamados para o governo. Nesse caso, haveria duas pressões contrárias agindo sobre as decisões econômicas. Uma querendo ajustar as contas públicas para só depois retomar o desenvolvimento e outra fazendo força para um retorno imediato ao crescimento econômico, aconteça o que acontecer com a inflação ou a dívida pública.

O fato é que nos instantes mais críticos da fuga de dólares e da alta irracional da moeda americana o mercado só via ambigüidade nas atitudes do governo. E todos os que percebem a força do componente psicológico no comportamento econômico sabem quanto a indecisão de um governo piora o que já está ruim. Nos momentos em que a queda do real parecia não ter fim, o Planalto convocou um grupo de economistas para aconselhá-lo, o que gerou a suposição de que tinha dúvidas sobre a direção a tomar ou não confiava na equipe econômica. Na semana passada, Brasília parecia ter-se acertado nos trilhos. A própria convocação de Armínio, amigo de Malan, foi um sinal. Outro foi a renegociação do acordo com o FMI. Nesse item, confirmou-se a promessa de que o país continuará a lutar para corrigir seu problema principal, que é o desequilíbrio entre receita e despesa.

Antes da implosão do real, o governo havia se comprometido a conseguir uma sobra de caixa de 2,6% do produto interno bruto em 1999, usando o dinheiro para abater a dívida interna. Na revisão do acordo, o ajuste ficou mais profundo. O superávit terá de ficar entre 3% e 3,5% do PIB. Não se sabe ainda como obter esse resultado. "Estamos vendo o que fazer", diz o secretário do Tesouro Nacional, Eduardo Guimarães. A meta de inflação ainda não foi definida, mas provavelmente o país não poderá ultrapassar o teto de 12% no ano. As taxas de juros continuarão altas, as privatizações serão aceleradas e haverá um acerto quanto às formas de intervenção do BC no mercado de câmbio.

O Fundo Monetário Internacional sempre foi criticado pela inflexibilidade de suas receitas. Quando ele é convidado a entrar sente-se fumaça de recessão e de desemprego. Ele não abandonou a condição de que um país acerte suas contas em troca de empréstimos. Mas, diante de erros de dose que cometeu recentemente na Ásia, pode-se dizer que está mais disposto a refletir no caso brasileiro (veja quadro). "Eles estão vindo dispostos a conversar com o governo, o que não ocorreu nos países asiáticos", afirma o ex-ministro Mailson da Nóbrega.

Armínio Fraga já passou pelo Banco Central num momento delicado. Era diretor da área internacional em 1991, durante o governo Collor, quando o país tomava o caminho da hiperinflação, a economia estava se dolarizando e o mercado black do dólar era uma espécie de vedete dos investidores. Em setembro, o então ministro da Fazenda, Marcílio Marques Moreira, decidiu desvalorizar o cruzeiro em 15% e, com isso, disparou uma corrida em direção ao dólar. Armínio foi para a mesa e conseguiu reverter o processo. O ágio da moeda americana acabou caindo e, segundo recordam alguns banqueiros, o prejuízo para quem apostou contra o cruzeiro foi alto. "Ele sabe antecipar os movimentos do mercado e é capaz de neutralizar os especuladores", diz Álvaro Simões, diretor do banco Indosuez do Brasil, que conviveu com Fraga na época da renegociação da dívida externa brasileira, em 1992. Simões conta que foi Fraga quem teve a idéia de lançar os C-Bonds, os papéis brasileiros mais negociados no exterior.

Essa perícia pode pesar bastante a favor da estabilização do real. Agora, é preciso ver se Armínio será hábil também numa questão correlata, tão ou mais importante do que a cotação da moeda. É a questão da calibragem dos juros. Ela tem a forma assustadora da serpente que engole a cauda. O déficit fiscal produz juros altos que aumentam a dívida pública. E sempre que a dívida pública aumenta, o governo é obrigado a pagar mais para refinanciá-la, aumentando o déficit, que aumenta a dívida.

Os juros pesam atualmente não apenas pelo efeito que estão causando na economia real, na forma de pouco consumo, desaquecimento econômico e aumento do desemprego. Eles estão também enfraquecendo dia a dia a credibilidade do governo. É um paradoxo apontado pelo professor José Alexandre Scheinkman, economista de Chicago. Países com problemas cambiais, como o Brasil, são obrigados a manter as taxas altas para segurar o investidor estrangeiro. Mas, com isso, aumentam sua dívida, criam a suspeita de que pode haver um calote na próxima curva e colhem o efeito contrário. Temeroso, o investidor sai.

É esse o país destemperado em que Armínio trabalhará, numa posição crucial. Ao buscar um especialista com uma bagagem prática e teórica admirável na mochila, aparentemente se fez uma excelente escolha. No lugar de Gustavo Franco e de Francisco Lopes, o brevíssimo, chega um profissional que conhece o BC. Além disso, é doutor em economia pela universidade de Princeton, em Nova Jersey, e lecionou na Wharton School, da Universidade da Pensilvânia, conhecida como a melhor do mundo na área de finanças, e na Universidade de Colúmbia. E já trabalhou em grandes bancos de investimentos: o Garantia, brasileiro, o Salomon Brothers, americano.

Essa experiência do novo presidente do BC no ninho lucrativo de bancos privados gerou na semana passada a suspeita surrada de sempre — segundo a qual ele vai é ajudar os amigos com informações confidenciais do Banco Central. "É o mesmo que a Polícia Federal fazer um acordo com contraventores", disse Lula na semana passada. "Será como uma raposa tomando conta do galinheiro", imagina o senador Roberto Freire, do PPS pernambucano. O desastre verdadeiro seria entregar o BC a um amador, ainda que bem-intencionado.

Armínio Fraga tem 42 anos, é casado e tem dois filhos. Morava até agora num subúrbio elegante de Nova York, Short Hills. Trabalhava em Manhattan com o investidor mais famoso do momento, o húngaro naturalizado americano George Soros. É um viciado no mundo financeiro. Mesmo em casa, de madrugada, costuma acompanhar pelo computador o movimento das bolsas no mundo. É um sujeito que tem bom humor, gosta de jazz e de golfe. Bom conselho para quem lidará com ele, no mercado ou no Banco Central, é observar a coloração de seu rosto. Fica vermelho como pimentão sempre que perde a calma.

Juros

"Juros altos elevam a dívida interna e há o risco de moratória."
Jeffrey Sachs, professor de Harvard

"Os juros têm de subir. Quando a moeda se estabilizar a taxa cairá."
Stanley Fischer, vice-diretor do FMI

Dolarização

"Todo o Mercosul deveria adotar uma moeda com paridade com o dólar."
Carlos Menem, presidente da Argentina

"A chance de sucesso não é grande."
Joseph Stiglitz, vice-presidente do Banco Mundial

Centralização do câmbio

"É uma saída de emergência para conter a fuga de dólares."
Paul Krugman, professor do MIT

"É uma medida pré-falência. Pode ser eficaz por três semanas."
Alain Touraine, sociólogo francês

Economia fechada

"Alguns países que tomaram essa decisão se deram bem."
Paul Volcker, ex-presidente do Fed, o banco central americano

"Em termos globais, vai contra o capitalismo progressista."
Albert Fishlow, economista americano

Com reportagem de Virginie Leite e Vladimir Netto




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