PUBLICIDADE

Home  »  Revistas  »  Edição 2151 / 10 de fevereiro de 2010


Índice    Seções    Panorama    Brasil    Economia    Internacional    Geral    Guia    Artes e Espetáculos    ver capa
Livros

Vida real, com tempero

Nelson Motta se revela um bom contista ao misturar
ficção e verdade nas histórias de Força Estranha


Okky de Souza

Eduardo Monteiro
EMOÇÕES TURBULENTAS
Motta: mergulho na alma das mal-amadas de Copacabana nos anos 60
 


VEJA TAMBÉM

Ainda celebrando os 140 000 exemplares vendidos de Vale Tudo, sua impagável biografia de Tim Maia, o escritor e produtor musical Nelson Motta mudou o foco de sua literatura e decidiu apostar nos contos. É sua segunda incursão no gênero, embora a primeira ele prefira esquecer - o pueril O Piromaníaco, lançado nos anos 70. O conto contém em si uma armadilha. Autores jovens costumam lançar mão dele como ensaio para voos mais ambiciosos no terreno do romance. Esse é um erro comum. É preciso experiência e malícia para contar em poucas páginas uma boa história, daquelas que permanecem na memória do leitor e o fazem saborear as situações contadas por dias a fio. Motta, autor de três romances entre os treze livros que já publicou (sem contar aquele, o maldito), mostra que alcançou, em seu trabalho, a maturidade necessária para enfrentar a prova de fogo do conto. É o que revelam as dez histórias de Força Estranha (Suma de Letras; 152 páginas; 29,90 reais).

Nos contos de Motta, a ficção vem combinada a situações da vida real, algumas protagonizadas pelo próprio autor. Assim descrito, pode-se supor que a ficção entra em cena sempre que Motta julga necessário apimentar a realidade, um recurso fácil. Não é assim. Uma das histórias mais surpreendentes do livro, em que uma senhora da alta sociedade larga o marido para se juntar ao viúvo da filha, morta há pouco, relata um caso que aconteceu de verdade no Rio de Janeiro.

No conto Os Sentidos da Vida, o pano de fundo é um episódio que, de tão mirabolante, parece fruto da imaginação. Mas a história aconteceu com Motta. No período em que morou em Nova York, o autor perdeu o sentido do olfato durante sete anos, e só o recuperou quando fez sessões de acupuntura para curar dores nas costas. Os contos se passam em várias cidades do mundo, mas os cenários do Rio de Janeiro, onde o paulistano Motta foi criado e vive hoje, são aqueles descritos com maior encanto. Como na história de Alzira e Ivonete, duas mal-amadas de Copacabana nos anos 60, uma viúva e a outra desquitada. Certo dia, elas travam amizade com um garotão na praia, o que desencadeia nelas um turbilhão de emoções. Sim, há um toque sutil de Nelson Rodrigues nas situações imaginadas pelo autor. Mais conhecido por seus trabalhos ligados à música, como compositor, produtor e descobridor de talentos como a cantora Marisa Monte, Nelson Motta mostra com seus contos que também sabe fazer boa literatura.

EDIÇÃO DA SEMANA
ACERVO DIGITAL
PUBLICIDADE
OFERTAS



Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados