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Home  »  Revistas  »  Edição 2151 / 10 de fevereiro de 2010


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Cinema

Uma atriz infeliz com seu papel

A protagonista de Preciosa é negra, pobre, obesa, semianalfabeta
e vítima de abuso sexual. Mas tem também um desejo forte, ainda que
vago, de recusar o personagem ruim que lhe coube no teatro social


Isabela Boscov

Everett Collection/Grupo Keystone
PEQUENOS PASSOS
A estreante Gabourey Sidibe, como Precious, e a assistente social interpretada por Mariah Carey
(à dir.): as cicatrizes são incanceláveis, mas a doença às vezes tem remédio


A protagonista de Preciosa (Precious - Based on the Novel Push by Sapphire, Estados Unidos, 2009), que estreia no país na próxima sexta-feira, poderia ser uma caricatura, pela maneira como reúne problemas epidêmicos nos guetos negros americanos. Claireece Precious Jones tem 16 anos, é semianalfabeta e obesa. Ela também é física e psicologicamente abusada pela mãe, que lança mão de fraudes para não trabalhar e receber benefícios. E está grávida pela segunda vez do próprio pai; da primeira vez, deu à luz uma menina com síndrome de Down. No entanto, no drama do diretor Lee Daniels - o primeiro cineasta negro a ter um trabalho indicado ao Oscar de melhor filme -, Precious é uma pessoa viva. Ainda que, de início, mal se possa notá-lo: com os olhos sempre semicerrados, o rosto congelado em uma expressão de alheamento e o modo como carrega seu corpo, ela é a imagem da brutalização. Em um desempenho de inspiração profunda, a estreante Gabourey Sidibe indica que essa imagem é também uma couraça. Precious é o que foi feito dela, mas aprendeu que corresponder a essa imagem é útil como barreira entre si e a violência de seu mundo. Trata-se de um método perverso, claro: alguém que necessita dele não está no controle da parte de si que é ator e da parte que é personagem. Uma se confunde com a outra. Nesse sentido, sim, Precious é menos do que uma pessoa para si mesma e para os que a cercam - até onde ela e os outros podem enxergar, ela não passa de mais uma figurante no drama repetitivo das crianças que crescem na miséria e na indiferença.

Expulsa da escola, Precious se junta a um grupo de alfabetização tardia e, empurrada pela professora, passa a escrever diariamente em um caderno. Articulando seus pensamentos, começa a articular também uma identidade - não aquela dos seus sonhos secretos, nos quais se vê como uma pop star exuberante (ou, às vezes, branca e magra), mas uma identidade possível. Ou seja, livre de sua mãe, uma mulher que é uma fornalha em que qualquer aspiração se consome antes até de tomar forma. Violenta, preguiçosa e ressentida - sua queixa contra o abuso da filha é o fato de a menina ter assim rivalizado com ela na cama -, ela é um emblema da acomodação a um papel ruim nesse teatro social. Mas, graças à convicção furiosa com que a comediante Mo’Nique a interpreta, ela não resulta um emblema fácil nem esquemático. É, ao contrário, uma personificação matizada e complicada de uma armadilha sempre pronta a apanhar as minorias vitimizadas por preconceito e inferiorização - o processo que as leva a assimilar essa inferiorização e manifestá-la em desprezo por si mesmas e rancor contra seus algozes, os reais e os supostos.

Sem a atuação estupenda de Mo’Nique, é possível que Preciosa se enredasse em tantas outras armadilhas. A personagem da assistente social que consegue extrair de Precious sua história (interpretada com discrição e eficácia surpreendentes pela cantora Mariah Carey) teria colhido um sucesso; mas, confrontada com o egoísmo voraz da mãe, fixa-se numa nota final bem mais provável, de impotência. Mesmo a superação de Precious tem um sabor distintamente amargo, já que suas cicatrizes psicológicas e a pobreza de suas circunstâncias permanecem incanceláveis. Nesse sentido, o filme é uma criação mais sutil e menos maniqueísta que Preciosa (tradução de Alves Calado; Record; 192 páginas; 29,90 reais), o romance da poeta Sapphire que lhe deu origem, em que tanto o brilho da trajetória de Precious como o negativismo dos personagens masculinos e ligados ao poder público são bem mais acentuados.

Parte desse travo se deve ao tempo. O livro foi publicado em 1996, e a história, tanto no romance como no filme, se passa em 1987, quando o então presidente Ronald Reagan já retalhara muito da rede de auxílio social. No filme, porém, esse é um dado periférico, se não irrelevante. Ainda hoje, algo como 25% dos negros americanos vivem abaixo da linha de pobreza. Seu déficit de educação, saúde e moradia é imenso. Eles ganham menos do que os brancos, são mais atingidos pelo desemprego, sofrem com taxas altíssimas de filhos nascidos fora de uniões estáveis e formam a maioria esmagadora da população carcerária, embora não sejam nem 14% da população geral. Esse quadro já seria o bastante para esvaziar muito da polêmica suscitada pelo filme nos Estados Unidos, onde alguns o acusam de reforçar estereótipos negativos. Soa mais razoável o argumento da fileira oposta, de que olhar de frente e sem assombro as desvantagens que persistem é imprescindível para remediá-las. Em que pese seu conhecido populismo, Oprah Winfrey e o dramaturgo e cineasta Tyler Perry, que assumiram a produção executiva de Preciosa, têm motivos sólidos para liderar esse lado da trincheira. Ambos tiveram de contornar a pobreza e o trauma do abuso sexual. E, embora seu sucesso seja exceção, não regra, a ideia de que se pode ao menos tentar um destino que não o que está prescrito já é, em si só, luminosa.


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