J. R. Guzzo
Nosso grande amigo
"Não
sou um indivíduo qualquer, disse o coronel
ainda
outro dia. Eu
sou o povo. A impressão
é que o governo Lula ouve essas coisas
e acredita"
Considerando-se
que o Brasil não pode escolher os vizinhos que tem, e que também
não pode decidir como eles devem se governar, uma das perguntas que o mundo
das realidades coloca no momento para o governo brasileiro é: o que fazer
a respeito da Venezuela? A questão vem ao caso porque a Venezuela se transformou,
para a maioria dos efeitos práticos, numa ditadura. É possível
discutir seu estilo, o grau a que chegou e até o nome que lhe seria mais
adequado, mas evitará grande perda de tempo, nesses casos, quem aplicar
uma regra descomplicada e eficaz: regimes em que há cada vez menos liberdades
públicas e privadas não podem ser chamados de democracia, e, se
não podem ser chamados de democracia, só podem ser chamados de ditadura.
Temos aí, portanto, uma ditadura na porta e esse tipo de situação
não ajuda o Brasil em nada, nem poderia mesmo ajudar. Regimes como o do
coronel Hugo Chávez são ruins a qualquer distância. De perto
ficam ainda piores.
Sendo as coisas o que são, a primeira
providência a tomar diante da Venezuela é fazer o possível
para viver em paz com ela; provavelmente não há prioridade maior
que essa, sobretudo quando se leva em conta o perfeito desastre que seria o contrário.
O segundo mandamento é não se meter, de jeito nenhum, nas questões
internas da Venezuela. O Brasil, aí, simplesmente não tem de dar
palpite. Não tem de dizer como deveria ser isso ou aquilo, se seria melhor
fazer assim ou assado, ou se o coronel Chávez está certo ou errado.
O governo brasileiro, enfim, não tem de se preocupar com a posição
de países que se entendem mal com o comandante e gostariam de ver o Brasil
distanciar-se dele. Basicamente, as relações entre o Brasil e a
Venezuela não são da conta de ninguém mais; elas devem ser
geridas de maneira a atender aos interesses brasileiros, e, de mais a mais, é
o Brasil, e não os outros, que vive a situação de dividir
2 200 quilômetros de fronteira terrestre com o presidente Chávez.
E a ditadura do homem? Paciência. O mundo está
cheio de ditaduras, e, se o critério para manter relações
corretas com outros países fosse o teor democrático dos seus regimes,
o Brasil estaria levando uma vida cada vez mais solitária. Ficaria de bom
tamanho, assim, se este país se contentasse em deixar a Venezuela quieta.
Mas este país não se contenta; está sempre à procura
de alguma nova oportunidade para errar, e, naturalmente, sempre acha. Onde o governo
do presidente Luiz Inácio Lula da Silva está errando, no caso, é
que ele se mete, sim, na vida da Venezuela só que se mete a favor,
o que é tão ruim quanto se meter contra. Ao fazer militância
ativa em favor da Venezuela, a política externa do governo brasileiro não
está passando à população uma mensagem de convivência
civilizada com um regime em que são praticados valores diferentes dos que
estão estabelecidos na Constituição do Brasil. A mensagem
real diz outra coisa: diz que os valores do coronel Chávez são ótimos.
Se o governo Lula não acha isso, então por que passa o tempo todo
dizendo que acha?
Para o presidente Lula, por exemplo, "o
que não falta na Venezuela é liberdade". Considera perfeitamente
normal que o comandante Chávez mude, sem parar, todas as leis que o incomodam,
ou que tire do ar canais de televisão dos quais não gosta, como
acaba de fazer mais uma vez, ou que solte gangues pagas pelo governo para acabar
com manifestações de rua. Não perde nenhuma ocasião,
junto com os estrategistas geopolíticos que tem ao seu redor, de mostrar
que Chávez não é apenas um vizinho é um aliado,
parceiro e amigo. Por que ficam tão encantados com ele? "Não
sou um indivíduo qualquer", disse o coronel ainda outro dia. "Eu
sou o povo." A impressão é que o governo Lula ouve essas coisas
e acredita. Não seria uma surpresa se acreditasse mesmo, já que
acredita, entre outros fenômenos, que a Venezuela é "um país
progressista". Como assim, "progressista", se o país regride
em vez de progredir? Pelas últimas notícias disponíveis,
o sistema Chávez de produção socialista está fazendo
faltar papel higiênico, ovos e açúcar. A inflação
real pode ter superado os 30%, a economia está em recessão e o país
tem duas moedas diferentes. Em vez de fazer aparecer os produtos que estão
em falta, o governo estatiza a escassez; já expropriou um supermercado,
assumiu a operação de uma usina de leite e ameaça com o Exército
quem não fornecer ao estado, a preço oficial, os produtos que quer
comprar. A energia elétrica, que já é estatal, está
racionada.
Um modelo de progresso, sem dúvida. |