Maílson da Nóbrega
Estado forte
"A crise demandou maiores gastos públicos
e vai gerar
uma nova regulação do sistema financeiro, mas não
a
ressurreição dos mortos do velho intervencionismo"
O atual governo adora falar em "estado forte". A
ministra Dilma Rousseff, que almeja a Presidência, quer um "estado
forte", mote também presente nos preparativos de sua campanha. Ela
critica o "estado mínimo". Lula faz o mesmo desde o primeiro
mandato, como no discurso de Ouro Preto em 21 de abril de 2003.
Ali, o presidente aludiu a duas ideias que "revelaram
sua inconsistência e estão sendo superadas em boa parte do mundo".
E sentenciou: "A primeira é que o Estado nacional deve ser mínimo
e, em consequência, fraco; a segunda é que tudo pode ser deixado
por conta do mercado, que resolve automaticamente todos os problemas".
A primeira afirmação não se comprova.
O "estado mínimo" é proposta apenas de libertários
quem têm fé cega no mercado. É o caso do deputado republicano
Ron Paul, que em livro recente (End the Fed) prega a extinção
do banco central americano. O padrão-ouro voltaria. A emissão
de moeda seria tarefa do mercado.
A segunda afirmação é falsa. Ninguém
com tutano crê que o mercado resolve tudo. Equivaleria a abolir o estado.
Isso era ideia de anarquistas e de Karl Marx. Os primeiros consideravam o estado
criador de problemas e desnecessário. Para Marx, assim que a luta de
classes terminasse e elas desaparecessem, o estado perderia a razão de
existir.
A proposta de um estado mínimo jamais vingou. Mesmo
na Inglaterra de Margaret Thatcher, que promoveu profunda reforma do estado,
os gastos sociais se expandiram. O estado de bem-estar social continuou grande
e importante, e sobreviveu à restauração do ideário
liberal pelos conservadores britânicos.
"Estado forte" e "estado fraco" podem ter
distintos significados. No Haiti, o estado é fraco para exercer funções
básicas, como se viu no recente terremoto. Era forte para oprimir na
ditadura de François Duvalier (1957-1971), quando os tontons macoutes intimidavam ou matavam. O estado totalitário é forte na capacidade
de tiranizar.
O estado moderno resultou da Paz de Vestfália, o período
que se seguiu aos tratados europeus de 1648 e ao consequente fim da Guerra dos
Trinta Anos. Detém o monopólio da violência e do poder de
tributar, e tornou-se norma na Europa (e depois no mundo).
Esse estado tem soberania sobre o território. Garante
a ordem, a segurança e o respeito ao direito de propriedade e aos contratos.
Defende a concorrência no mercado. Regula o sistema financeiro, os monopólios
e os oligopólios. É relevante na educação, na ciência
e na tecnologia. É o verdadeiro estado forte, base do capitalismo contemporâneo.
Mais tarde, tornou-se fundamental na área social, particularmente em
previdência e saúde.
No século XIX, a Inglaterra, beneficiária dessa
realidade, rompeu a estagnação malthusiana. Enriqueceu rapidamente.
A Europa continental buscou o mesmo via intervenção estatal. Empresas
estatais, crédito oficial, protecionismo e investimentos em infraestrutura
reproduziram o papel exercido naturalmente pelas instituições
inglesas. No século XX, foi a vez da América Latina e da Ásia.
Essa ação promoveu desenvolvimento, mas teve
seus defeitos. Em muitos países, burocratas foram capturados pelos segmentos
beneficiados. Surgiu um capitalismo de compadres, enquanto políticas
industriais davam poder de mercado às empresas eleitas, prejudicando
a produção e os consumidores.
O desafio era saber quando rever a ação do estado
e atribuir a liderança ao mercado. Assim o fizeram a Alemanha, o Japão
e o Chile. Em outros lugares, grupos de interesse e visões ideológicas
inibiram a mudança, em prejuízo do ritmo de desenvolvimento.
O Brasil chegou a esse ponto por volta dos anos 1980 e começou
a revisão, que se acelerou após o Plano Real. A colheita dos respectivos
frutos se iniciou com Fernando Henrique e se ampliou na era Lula, mas este praticamente
interrompeu o processo.
O estado forte de Lula e Dilma seria aquele em que a burocracia
escolhe os vencedores e lhes concede privilégios, em nome de um nacionalismo
démodé e do "desenvolvimentismo". Para eles, a crise
atual justificaria a volta do dirigismo estatal.
A crise demandou maiores gastos públicos e vai gerar
uma nova regulação do sistema financeiro, mas não a ressurreição
dos mortos do velho intervencionismo.
Maílson da Nóbrega
é economista |