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Ponto
de vista: Claudio de Moura Castro
Autópsia de um fiasco
"Precisamos dissecar cuidadosamente
nosso ensino defunto e responder por
que nossos alunos não aprendem"
O fiasco da nossa educação
fundamental começa a ser percebido. Há cada vez mais
brasileiros sabendo que tiramos os últimos lugares no Programa
Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), uma
prova internacional de compreensão de leitura e de outras
competências vitais em uma economia moderna. Sabem também
dos resultados do Sistema Nacional de Avaliação da
Educação Básica (Saeb), confirmando plenamente
esse diagnóstico moribundo do ensino. Agora, cabe fazer a
autópsia do fracasso, dissecando cuidadosamente o defunto:
por que os alunos não aprendem?
Tão
retumbante fracasso tem múltiplas causas. Contudo, o presente
ensaio assesta suas baterias em uma causa fatal, mas pouco considerada.
Vejamos uma constatação surpreendente e assustadora:
o Pisa mostrou que os alunos das famílias brasileiras mais
ricas entendem menos um texto escrito do que os filhos de operários
da Europa e de outros países com educação séria.
Portanto, não é a pobreza dos alunos ou das escolas
que explica o vexame.
Por que nossos alunos não
entendem um texto escrito? Submeto aqui a hipótese de que
reina nos impérios pedagógicos e nos autores da moda
uma atmosfera que desvaloriza a tarefa de compreender o que está
escrito no papel. Veja-se a seguinte citação de B.
Charlot: "Os saberes científicos podem ser medidos em falsos
e verdadeiros, mas não os conteúdos de filosofia,
pedagogia e história... (Fora das ciências naturais)
o mundo do verdadeiro e do falso é do fanatismo, e não
da cidadania".
Ou esta outra, de E. Morin, afirmando
que, "em lugar da especialização, da fragmentação
de saberes, devemos introduzir o conceito de complexidade". Critica
também "o princípio consolidado da ciência,
o determinismo segundo o qual os fenômenos dependem
diretamente daqueles que os precedem e condicionam os que lhes seguem".
Ou ainda a afirmação de D. Lerner, de que "não
faz falta saber ler e escrever no sentido convencional... Quem interpreta
o faz em relação ao que sabe... Interpretações
não dependem exclusivamente do texto em si".
Nesses textos, há asneiras
irremediáveis e assuntos que coroariam um processo de amadurecimento
intelectual. Contudo, para jovens que iniciam seus estudos, são
fórmulas certeiras para uma grande balbúrdia mental,
em uma idade que pede a consolidação de idéias
claras e a compreensão rigorosa e analítica do texto
escrito. Embaçamos o ensino ao solicitar aos alunos que "reinterpretem"
o pensamento dos grandes cientistas e filósofos, segundo
Mortimer Adler, "pedindo sua opinião a respeito de tudo".
Continua correto o conselho de
Descartes de dividir o problema em tantas partes quantas sejam necessárias
para a sua compreensão. De fato, a física de Newton
é determinista. Nas melhores escolas, é com ela que
se afia a capacidade de análise dos alunos inclusive
na terra dos autores citados. As ciências sociais adotam outro
determinismo, expresso em distribuições de probabilidades.
A filosofia requer ainda mais exatidão no uso da linguagem.
Elegância e rigor precisam ser conquistados na língua
portuguesa, e as primeiras lições devem ser exercícios
de interpretação correta do que está escrito.
Ao se enamorarem das idéias turvas acima citadas, nossos
professores desviam as atenções que deveriam colimar
o uso judicioso das palavras e embrenham seus alunos na indisciplina
do relativismo, do subjetivismo e da "criatividade".
Wittgenstein foi ao âmago
da questão ao dizer que "os limites da minha linguagem são
também os limites do meu pensamento". Quem não aprendeu
a usar palavras não sabe pensar. Para Spinoza, "as desavenças
humanas são desavenças de palavras".
O grande desafio dos ciclos iniciais
de uma educação é entender as relações
entre sons, letras e significados, aprendendo a ler, para que se
possa passar a ler para aprender. Lembremo-nos da obsessão
de George Steiner, sempre em busca do sentido exato que os autores
quiseram dar às palavras. Sem isso, o que vem depois é
ruído, é o que respondem nossos alunos às questões
cuidadosamente formuladas nas provas do Pisa e do Saeb. Esses miasmas
intelectuais não oferecem os alicerces para um distanciamento
crítico e produtivo do texto original tarefa que só
pode vir mais adiante.
Claudio de Moura Castro é economista
(Claudio&Moura&Castro@attglobal.net)
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