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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Vem aí o PAC
É assim
que opera o governo
Lula: antes
de mais nada, chama o publicitário
Ânimo, brava gente brasileira.
Tudo vai melhorar. Vem aí o PAC. Se o leitor não sabe
o que é PAC é porque, tal qual o presidente da Câmara,
Aldo Rebelo, morreu de sono durante o discurso de posse de Lula
no Congresso. A certa altura, disse o presidente que, para atingir
o ansiado crescimento, o governo lançará "um conjunto
de medidas englobadas no Programa de Aceleração do
Crescimento, o PAC". Foi uma surpresa saber que o programa já
tem nome e, não bastasse o nome, já vem com sigla.
Até então, o que circulava é que o governo
lançará um pacote de medidas para desonerar a produção
e "destravar" o país, como gosta de dizer o presidente. O
pacote era para ser lançado no mês passado. Não
houve acordo quanto ao que deveria conter e foi adiado. Até
onde se sabia, na semana passada, ainda não havia acordo
e portanto não havia pacote algum. Mas nome já tem,
e mesmo uma sonora sigla, para ajudar na conquista da intimidade
e do afeto dos brasileiros, sinal de que já chamaram o publicitário.
É assim que opera o governo
Lula: antes de mais nada, chama o publicitário. Publicitários
são ótimos para batizar as iniciativas da administração.
"Fome zero" é uma de suas criações. Não
se tinha idéia de onde buscar os recursos, de como definir
quem eram os famintos, como cadastrá-los e como fazer os
alimentos chegar às devidas bocas. Aliás, continua
não se tendo. Mas como resistir a um nome desses? O "zero"
estava na moda. Vinha de "tolerância zero", um programa de
segurança pública em Nova York que, até ser
desmascarado por Millôr Fernandes, com a lembrança
de que "tolerância zero" equivale a "intolerância cem",
fez furor. "Fome zero" foi um achado. Tinha de ser usado, mesmo
sem o mapa da mina dos famélicos e muito menos as estratégias
para satisfazê-los.
Ressalve-se, a favor de Lula,
que todo governo gosta de nomes bonitos e chamativos para seus programas.
O governo de São Paulo tem (ou teve) o "Poupatempo", o "Sonho
Meu", o "Dose Certa". Um estrangeiro que julgasse os governos brasileiros
pelo nome dos programas só teria razões para aplaudir.
Eis um governo no caso do paulista que poupa à
população o tempo que de outra forma seria malversado
na burocracia, que transforma em realidade o sonho da casa própria,
que distribui remédios na dose certa. O que diferencia o
governo Lula é, primeiro, que ele gosta dos nomes bonitos
mais do que os outros e, segundo e principalmente ,
que lança mão deles mesmo quando o programa não
existe. O governo ainda se esforça em fazer crer que o Fome
Zero existe. No mesmo discurso, Lula referiu-se ao Bolsa Família
(outro nome bonito) como o "principal instrumento do Fome Zero".
É um truque para salvar a face. O Bolsa Família é
a unificação e ampliação de programas
criados por Fernando Henrique. O Fome Zero pretendia ser outra coisa.
Programa de Aceleração
do Crescimento, PAC, não é um nome bonito. Mas não
é menos marqueteiro, nem se pense que achá-lo deu
menos trabalho. A questão agora era encontrar um nome que,
com burocrática sobriedade, transmitisse propósitos
solidamente maturados. Não era o caso de recorrer às
marcas-slogans, como Fome Zero. Podem-se imaginar as dificuldades
enfrentadas pelos cérebros que o engendraram. A primeira
palavra que lhes ocorreu só pode ter sido "destravamento",
tão do gosto presidencial. "Programa de Destravamento do
Brasil", que tal? Ou "Programa da Retirada das Travas"? Ruim. As
cabeças ferviam, queimavam-se as pestanas. "Programa de Crescimento
Rápido"? Melhor. Mas como extrair daí uma sigla fácil?
PCR parece nome de partido. Aliás, já foi nome de
partido. Precisamos de uma vogal no meio. Meu reino por uma vogal!
"Programa de Incremento do Crescimento, PIC"? Quase. "Programa Unificado
de Crescimento, PUC"? PUC é Pontifícia Universidade
Católica. E "aceleração"? "Programa de Aceleração
do Crescimento"? Você é um gênio! Achamos.
Uma consulta ao Google, na quinta-feira,
resultou em 791 000 citações de PAC, em textos em
português. Permita-se ficar com as vinte iniciais. A primeira
refere-se ao "Programa Administrador do Cadastro", do Ministério
da Educação. A mais freqüente leva à "Política
Agrícola Comum", da União Européia. Figuram
ainda o PAC dos Correios (um serviço de encomenda econômica),
o Pronto Atendimento ao Cidadão do Detran do Amazonas, o
Programa de Avaliação Continuada da Uniderp (Universidade
para o Desenvolvimento do Estado e da Região do Pantanal),
o Pac-Man, popular jogo eletrônico, e até o
Posto de Atendimento ao Cidadão do simpático município
português da Guarda. Nada do Programa de Aceleração
do Crescimento. Talvez ele figure entre as 790 980 citações
restantes, mas o fato de não figurar entre as vinte primeiras
já é um sinal de desprestígio. O PAC de Lula
ainda não pegou. Não importa. O programa prometido
pode vir a revelar-se vazio ou pífio, mas, se o PAC teve
acolhida no discurso do presidente, no solene momento de sua posse,
é porque veio para ficar. O governo vai jurar que ele existe,
até o fim.
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