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Música
A reação roqueira
Brasil afora, surgem novos núcleos de música
independente. Contra o axé, o forró
e o calipso 
Sérgio Martins
Fotos Lailson Santos
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| Terminal Guadalupe: visual de cobrador de ônibus, letras
de protesto e guitarras poderosas são as armas do grupo curitibano |
Nos últimos quinze anos, Goiânia
foi o grande berço da música sertaneja nacional. De lá saíram
as quatro duplas mais bem-sucedidas do país Chrystian & Ralph,
Zezé di Camargo & Luciano, Leandro & Leonardo e Bruno & Marrone.
Os goianos têm orgulho de seus sertanejos, e o gênero é quase
uma unanimidade no estado. Quase. A existência de uma numerosa dissidência
roqueira transparece em festivais como o Goiânia Noise e o Bananada (realizado
no mês de maio, durante a temporada de rodeios, por aqueles que desejam
"dar uma banana" para os amantes da viola). Goiânia tornou-se, efetivamente,
um dos principais centros do rock brasileiro na atualidade. Só não
se pode chamá-la de capital porque outras cidades, em outros estados, se
mostram igualmente animadas. Bandas de rock promissoras vêm surgindo em
Pernambuco, no Paraná ou no Acre freqüentemente em reação
à "hegemonia" de algum gênero popular como o axé ou o forró.
E o fenômeno tem outra característica notável: juntamente
com as bandas despontam selos independentes, casas de espetáculos e festivais,
que fazem com que essas várias cenas roqueiras ganhem um ar duradouro e
se sustentem sozinhas, sem precisar, como em outros tempos, do aval do público
do Rio de Janeiro ou de São Paulo.
Roqueiro goiano em geral tem cara de mau e faz som pesado. As bandas Mechanics
e MQN preenchem à risca esses requisitos. Para os adeptos do estilo punk
de dança que tem um quê de pugilismo , assistir a uma
apresentação desses grupos em Goiânia pode ser uma experiência
memorável. Principalmente se for no Martim Cererê, um antigo reservatório
de água que nos anos 70 teria sido usado pelos militares como centro de
tortura. São dois cones de concreto com arquibancadas de madeira e um palco
mambembe. Com alguns poucos intervalos, esse espaço abrigou o Goiânia
Noise por uma década. No fim do ano passado, o festival foi transferido
para o Centro Cultural Oscar Niemeyer, uma construção que custou
60 milhões de reais. Mas a irreverência roqueira continuou a mesma.
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| O MQN, de Goiás: rudes e com cara de maus
assim como o seu público | O
contraponto mais "doce" ao estilo duro de Mechanics e MQN é oferecido pelo
quinteto Valentina. Influenciado pela estética teatral e andrógina
do glam rock, o Valentina é alvo de brincadeiras dos roqueiros cascas-grossas.
Há dois anos, eles abriram um show da banda inglesa Placebo em Brasília.
No fim da apresentação, a secretária de Brian Molko, cantor
do Placebo, perguntou qual a marca de delineador que Rodrigo Feoli, vocalista
do Valentina, usou nos olhos. "Foi o momento de glória do menino", dizem
os músicos do MQN. Apesar das diferenças, não há hostilidade
entre os grupos. Ambos lançam discos pela mesma gravadora local, a Monstro.
Violins e Réu e Condenado são outros destaques do rock goiano. O
primeiro segue a linha de grupos como o inglês Radiohead. Seus fãs
são de uma fidelidade canina. Pouco tempo atrás, foi divulgado que
eles encerrariam as atividades. Pela reação mostrada em alguns sites,
parecia o fim dos Beatles e os Violins voltaram. Formada por Daniel Drehmer
e Francis Leech, a dupla Réu e Condenado satiriza o estilo sertanejo
no nome e no nonsense das letras. "Paulo Eduardo tinha tremedeiras / E não
conseguia se pentear / Ah, essa vida me maltrata tanto", cantam em Vida Severina.
O pai de Francis Leech é um ex-missionário americano que se envolveu
com uma freira goiana os dois, claro, foram expulsos da Igreja. "O resultado
do casamento fui eu, um autêntico anticristo", brinca o músico.
Outro pólo roqueiro é Curitiba,
que conta com uma centena de bandas. Uma delas está próxima de estourar.
O Terminal Guadalupe é seguidor do rock político dos roqueiros dos
anos 80, em especial Legião Urbana. Seus integrantes adoram renegar a fama
de "cidade-modelo" ostentada por Curitiba. No palco eles se vestem como cobradores
de ônibus e o nome da banda faz menção a um terminal
da cidade que à noite é reduto de punguistas, traficantes e moças
de má fama. "Falam tanto do progresso de Curitiba, mas somos o quinto município
brasileiro em número de favelas", dispara o vocalista e líder Dary
Jr. Bandas políticas sempre correm o risco de cair na pregação,
mas o grupo possui uma sonoridade à prova de chatice. Marcha dos Invisíveis,
o quarto disco do Terminal Guadalupe, com lançamento previsto para março,
tem aquele frescor que o roqueiro Ian McCulloch atribui ao "pop perfeito": canções
com apelo comercial, mas longe da banalidade, e um som de guitarra como pouco
se ouve no rock brasileiro. Já se formou até mesmo um certo folclore
em torno da turma roqueira local. Toda uma família de bandas é composta
dos chamados "curitibanos de Manchester" que, segundo os detratores, teimam
em acreditar que o frio de Curitiba basta para aproximá-los de grupos ingleses
como Smiths e Oasis.
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| Valentina: até o vocalista do Placebo gostou do
glam rock da banda | Desde
que a banda pernambucana Chico Science & Nação Zumbi fundiu
guitarras de heavy metal com tambores de maracatu, no começo dos anos 90,
um dos caminhos para os roqueiros brasileiros é explorar algum ritmo local.
O La Pupuña, grupo de Belém, se inspira na guitarrada uma
espécie de parente distante da lambada, que dominou os salões de
baile da cidade na década de 70. Wado, um catarinense radicado em Alagoas,
também segue uma linha semelhante à de Chico Science. A diferença
é que Wado optou pela combinação do samba com elementos eletrônicos.
Esse, porém, é apenas um caminho entre outros. Nos novos pólos
roqueiros, não há culpa em simplesmente aderir à "linguagem
universal" do rock, sem maiores qualificações. Para grupos como
Volver e Rádio de Outono, do Recife, e Karine Alexandrino, do Ceará,
fazer música é uma maneira de pertencer ao mundo. "Sou roqueiro,
canto em inglês e não estou nem aí para o que acontece na
MPB", resume o goiano Márcio Jr., do Mechanics. |