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Fronteiras
Suriname, o "Paraguai
do Norte"
A ex-colônia holandesa tornou-se
grande fornecedora de armas para os bandidos brasileiros, que trocam
a mercadoria
por drogas

Leonardo Coutinho, de Paramaribo
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Fotos Antonio Milena

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ESCAMBO
Cargueiros brasileiros chegam ao Porto
de Paramaribo com drogas e voltam com armas
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Independente há
apenas três décadas, o Suriname é conhecido,
entre as autoridades policiais brasileiras, como o "Paraguai do
Norte". O apelido não se deve ao fato de os países
compartilharem alguma qualidade pelo contrário. Além
de ser uma das bases do narcotráfico internacional, segundo
o último relatório da Organização das
Nações Unidas para a América Latina, a ex-colônia
holandesa é, como o Paraguai, um dos principais fornecedores
de armas ilegais para bandidos brasileiros. Assim como as munições,
elas vêm de países como Líbia, Rússia
e China. Chegam ao Brasil trocadas por cocaína. Embarcações
de madeira partem de pequenos portos localizados no litoral do Pará
e do Amapá e, carregadas da droga, seguem pela costa
onde o controle policial é inexistente até
atracar nas imediações do Porto de Paramaribo, capital
do Suriname. A carga ilegal vem escondida em meio a pescados congelados,
farinha e caixas de cigarro contrabandeadas. Esvaziadas, as mesmas
embarcações voltam ao Brasil carregadas de armas.
É dessa forma que, segundo a Polícia Federal, facções
criminosas como o Comando Vermelho, do Rio, ou o PCC, em São
Paulo, montam seus arsenais.
As armas e as munições
contrabandeadas para o Brasil são, inicialmente, armazenadas
na região conhecida como Triângulo do New River. Na
fronteira com a Guiana, o Triângulo é terra de ninguém,
com 15.000 quilômetros quadrados de floresta intocada e nenhum
policial. A área responde por 10% de todo o território
do Suriname. O fato de ser objeto de litígio com a Guiana
desde o século XVIII ajudou a deixá-la entregue à
própria sorte. Hoje, a região é dominada por
guerrilheiros colombianos das Farc, traficantes de armas e máfias
internacionais, como a chinesa e a russa. "É uma terra sem
lei que virou rota preferencial do crime internacional", define
um funcionário do governo americano que atua na região
e só aceitou falar com VEJA sob a condição
de que sua identidade fosse preservada.
O Suriname é um país
em construção. Em 31 anos de independência,
sofreu um golpe militar, esteve sob um regime ditatorial socialista
e enfrentou uma guerra civil. Com área pouco maior que a
do estado do Acre e população de apenas 450.000 habitantes,
seu produto interno bruto totalizou, em 2005, parco 1,1 bilhão
de dólares menos que o PIB de Teresina, a mais pobre
capital do Nordeste brasileiro. Praticamente sem indústria,
todos os bens consumidos lá são importados da Europa.
O país também não tem um único cinema
ou teatro. Os cassinos são a principal opção
de divertimento e a jogatina, uma das mais disseminadas formas
de lavagem de dinheiro. A prostituição, em especial
de garotas brasileiras entre 18 e 22 anos, é outra atividade
em ascensão no país. As mulheres são recrutadas,
principalmente, nos estados do Pará e do Maranhão.
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O REI DO OURO
Dono de quatro garimpos, o brasileiro
Rocha orgulha-se de andar com 1 quilo e meio de jóias
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Os brasileiros são hoje
uma comunidade em expansão no Suriname. A maioria tenta a
vida no garimpo. Oficialmente, eles são 3.500. Mas, segundo
o cadastro da Cooperativa de Garimpeiros no Suriname, pelo menos
35.000 brasileiros ingressaram no país nos últimos
dez anos. Estima-se que a metade ainda resida lá. Elenilson
Rocha é um deles. Ex-garimpeiro saído de Santarém,
no Pará, ele teve mais sorte do que a maioria de seus colegas
brasileiros, para quem os grotões de ouro na selva são
também um inferno onde proliferam malária, doenças
venéreas e criminalidade. Dono de quatro garimpos no interior
do Suriname, Rocha hoje chega a negociar 100 quilos de ouro por
mês. A mercadoria acabou incorporada ao seu figurino, em forma
de pulseiras, anéis e colares. Rocha orgulha-se de, freqüentemente,
andar enfeitado com quase 1,5 quilo de jóias. "Para nós,
imigrantes, o Suriname é um paraíso", diz. Já
para as autoridades policiais brasileiras, o país é
uma dor de cabeça constante com risco de virar enxaqueca.
COMO RESOLVER O PROBLEMA
Criar uma Guarda Costeira que fiscalize o fluxo de embarcações
no extremo norte do país. Hoje, embora o fluxo de armas e
drogas entre o Brasil e o Suriname seja feito, basicamente, por
via marítima, a Marinha faz apenas operações
esporádicas na região.
Abrir um posto bem equipado da Polícia Federal em
Abaetetuba, cidade portuária onde é desembarcada a
maior parte do carregamento ilegal originário do Suriname.
A cidade, que na década de 80 chegou a ser chamada de "a
Medellín brasileira", é a base dos principais grupos
de contrabandistas e traficantes em operação no Pará.
Instalar um posto de fiscalização na cidade
de Oiapoque, no Amapá. Embora a cidade esteja localizada
na fronteira com a Guiana Francesa, faz parte da rota utilizada
pelas quadrilhas que atuam naquela área.
Criar um posto bem equipado da Polícia Federal na
fronteira de selva com o Suriname, a fim de prevenir que as armas
passem a entrar no Brasil por via terrestre.
Instalar câmeras e sensores de movimento nos rios que
dividem os dois países, nos moldes do equipamento que já
existe na fronteira do Brasil com a Colômbia. Embarcações
suspeitas poderiam ser, assim, identificadas e revistadas.
Realizar forte pressão diplomática no sentido
de que o governo do Suriname coíba as práticas criminosas
que transbordam para o território brasileiro.
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