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Edição 1990 . 10 de janeiro de 2007

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Fronteiras
Suriname, o "Paraguai
do Norte"

A ex-colônia holandesa tornou-se grande fornecedora de armas para os bandidos brasileiros, que trocam a mercadoria
por drogas


Leonardo Coutinho, de Paramaribo

 

Fotos Antonio Milena

ESCAMBO
Cargueiros brasileiros chegam ao Porto de Paramaribo com drogas e voltam com armas

Independente há apenas três décadas, o Suriname é conhecido, entre as autoridades policiais brasileiras, como o "Paraguai do Norte". O apelido não se deve ao fato de os países compartilharem alguma qualidade – pelo contrário. Além de ser uma das bases do narcotráfico internacional, segundo o último relatório da Organização das Nações Unidas para a América Latina, a ex-colônia holandesa é, como o Paraguai, um dos principais fornecedores de armas ilegais para bandidos brasileiros. Assim como as munições, elas vêm de países como Líbia, Rússia e China. Chegam ao Brasil trocadas por cocaína. Embarcações de madeira partem de pequenos portos localizados no litoral do Pará e do Amapá e, carregadas da droga, seguem pela costa – onde o controle policial é inexistente – até atracar nas imediações do Porto de Paramaribo, capital do Suriname. A carga ilegal vem escondida em meio a pescados congelados, farinha e caixas de cigarro contrabandeadas. Esvaziadas, as mesmas embarcações voltam ao Brasil carregadas de armas. É dessa forma que, segundo a Polícia Federal, facções criminosas como o Comando Vermelho, do Rio, ou o PCC, em São Paulo, montam seus arsenais.

As armas e as munições contrabandeadas para o Brasil são, inicialmente, armazenadas na região conhecida como Triângulo do New River. Na fronteira com a Guiana, o Triângulo é terra de ninguém, com 15.000 quilômetros quadrados de floresta intocada e nenhum policial. A área responde por 10% de todo o território do Suriname. O fato de ser objeto de litígio com a Guiana desde o século XVIII ajudou a deixá-la entregue à própria sorte. Hoje, a região é dominada por guerrilheiros colombianos das Farc, traficantes de armas e máfias internacionais, como a chinesa e a russa. "É uma terra sem lei que virou rota preferencial do crime internacional", define um funcionário do governo americano que atua na região e só aceitou falar com VEJA sob a condição de que sua identidade fosse preservada.

O Suriname é um país em construção. Em 31 anos de independência, sofreu um golpe militar, esteve sob um regime ditatorial socialista e enfrentou uma guerra civil. Com área pouco maior que a do estado do Acre e população de apenas 450.000 habitantes, seu produto interno bruto totalizou, em 2005, parco 1,1 bilhão de dólares – menos que o PIB de Teresina, a mais pobre capital do Nordeste brasileiro. Praticamente sem indústria, todos os bens consumidos lá são importados da Europa. O país também não tem um único cinema ou teatro. Os cassinos são a principal opção de divertimento – e a jogatina, uma das mais disseminadas formas de lavagem de dinheiro. A prostituição, em especial de garotas brasileiras entre 18 e 22 anos, é outra atividade em ascensão no país. As mulheres são recrutadas, principalmente, nos estados do Pará e do Maranhão.

 

O REI DO OURO
Dono de quatro garimpos, o brasileiro Rocha orgulha-se de andar com 1 quilo e meio de jóias

Os brasileiros são hoje uma comunidade em expansão no Suriname. A maioria tenta a vida no garimpo. Oficialmente, eles são 3.500. Mas, segundo o cadastro da Cooperativa de Garimpeiros no Suriname, pelo menos 35.000 brasileiros ingressaram no país nos últimos dez anos. Estima-se que a metade ainda resida lá. Elenilson Rocha é um deles. Ex-garimpeiro saído de Santarém, no Pará, ele teve mais sorte do que a maioria de seus colegas brasileiros, para quem os grotões de ouro na selva são também um inferno onde proliferam malária, doenças venéreas e criminalidade. Dono de quatro garimpos no interior do Suriname, Rocha hoje chega a negociar 100 quilos de ouro por mês. A mercadoria acabou incorporada ao seu figurino, em forma de pulseiras, anéis e colares. Rocha orgulha-se de, freqüentemente, andar enfeitado com quase 1,5 quilo de jóias. "Para nós, imigrantes, o Suriname é um paraíso", diz. Já para as autoridades policiais brasileiras, o país é uma dor de cabeça constante – com risco de virar enxaqueca.

COMO RESOLVER O PROBLEMA

Criar uma Guarda Costeira que fiscalize o fluxo de embarcações no extremo norte do país. Hoje, embora o fluxo de armas e drogas entre o Brasil e o Suriname seja feito, basicamente, por via marítima, a Marinha faz apenas operações esporádicas na região.

Abrir um posto bem equipado da Polícia Federal em Abaetetuba, cidade portuária onde é desembarcada a maior parte do carregamento ilegal originário do Suriname. A cidade, que na década de 80 chegou a ser chamada de "a Medellín brasileira", é a base dos principais grupos de contrabandistas e traficantes em operação no Pará.

Instalar um posto de fiscalização na cidade de Oiapoque, no Amapá. Embora a cidade esteja localizada na fronteira com a Guiana Francesa, faz parte da rota utilizada pelas quadrilhas que atuam naquela área.

Criar um posto bem equipado da Polícia Federal na fronteira de selva com o Suriname, a fim de prevenir que as armas passem a entrar no Brasil por via terrestre.

Instalar câmeras e sensores de movimento nos rios que dividem os dois países, nos moldes do equipamento que já existe na fronteira do Brasil com a Colômbia. Embarcações suspeitas poderiam ser, assim, identificadas e revistadas.

Realizar forte pressão diplomática no sentido de que o governo do Suriname coíba as práticas criminosas que transbordam para o território brasileiro.

 
 
 
 
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