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Entrevista:
Carlos Ghosn
Carro bom e barato
Carlos Ghosn, presidente da Renault
e
da Nissan, diz que a indústria ocidental
é viciada em desperdícios e tem muito
que aprender com China e Índia

Marcio Aith
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Robeto Setton

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"Não há
mais ilusão ou espaço para complacência.
Mais de 50 milhões de carros são vendidos
por ano no mundo. Qualquer montadora pode desaparecer
e ninguém vai notar" |
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Enquanto a
General Motors e a Ford tropeçam na maior crise econômica
de suas histórias, a montadora indiana de carros Tata dá
os retoques finais para lançar o automóvel mais barato
do mundo. Ele terá quatro portas, várias peças
de plástico, poderá ser montado pelo próprio
consumidor e custará 2 000 dólares. Será uma
versão automotiva para o computador popular de 100 dólares.
O que isso significa para a indústria e para os consumidores?
"Uma revolução", diz Carlos Ghosn, filho de mãe
francesa e pai libanês, nascido em Porto Velho, em Rondônia,
e formado em engenharia pela École Polytechnique, em Paris:
"O mundo precisa fabricar carros com a mesma mentalidade frugal
dos chineses e indianos, e isso já é uma questão
de sobrevivência". Ghosn, 52 anos, conhece as rotas da sobrevida.
Enviado ao Japão em 1999 pela montadora francesa Renault,
ele tirou a Nissan da beira do abismo e, em menos de cinco anos,
a transformou numa das companhias mais rentáveis do mundo.
Hoje presidente e CEO dos grupos Renault e Nissan, Ghosn é
o mais respeitado líder da indústria automotiva mundial.
Em um português perfeito, aprendido na infância brasileira,
temperado por um sotaque francês, ele falou a VEJA.
Veja Qual a maior
contribuição da indústria automobilística
mundial nestes quase 100 anos de existência?
Ghosn As
montadoras alteraram por duas vezes a maneira pela qual o ser humano
produz bens. E, com isso, quero acreditar que tenham mudado também
hábitos culturais e de consumo. A primeira inovação
foi a linha de montagem de Henry Ford, depois da I Guerra Mundial.
Essa invenção eliminou o caráter artesanal
da indústria e foi imediatamente mimetizada por outros setores.
A segunda revolução veio com o conceito de produção
enxuta introduzido pelas montadoras japonesas depois da II Guerra
Mundial. Não há companhia atual, em setor algum, que
consiga enfrentar o desafio da globalização sem a
racionalização de custos introduzida por Eiji Toyoda
e Taiichi Ohno, da Toyota.
Veja O que explica
o pioneirismo da indústria automotiva?
Ghosn
Montadoras são laboratórios permanentes nos quais
a eficiência é diariamente testada. Isso porque a produção
de um automóvel exige diferentes formas de organização
e uma miríade de tecnologias. Também envolve empregos
e investimentos maciços. A instalação de uma
fábrica que produza 250.000 carros por ano custa de 300 milhões
a 400 milhões de dólares. Já o desenvolvimento
de um carro novo não sai por menos de 300 milhões
a 500 milhões de dólares. Uma pequena inovação
faz enorme diferença e passa a ser absorvida por indústrias
de outros segmentos. Os carros também mexem com um aspecto
emocional das pessoas. Poucos produtos são tão fascinantes
quanto eles. Consumidores cultuam suas marcas preferidas e recorrem
a modelos que já tiveram para pontuar fatos de sua vida.
Veja As dificuldades
financeiras da General Motors e da Ford não são indícios
de que a indústria automotiva perdeu a capacidade de liderar
a inovação?
Ghosn
Não. A crise é condição inata à
fabricação de carros. Faz parte da natureza do produto.
A Nissan estava em sérias dificuldades quando assumi seu
comando, em 1999. A companhia perdia 1.000 dólares em cada
carro vendido nos Estados Unidos. Além disso, tinha dinheiro
investido em suas próprias concorrentes. Muita coisa estava
errada. Os europeus também já tiveram seu período
de dificuldades. Várias marcas, como Land Rover, Aston Martin,
Jaguar, Bugatti, Lamborghini e Rolls-Royce, foram incorporadas por
grandes montadoras. O vital é que, enquanto algumas companhias
vão mal, outras crescem e inovam.
Veja Por que tantas
montadoras entram em crise financeira ou até quebram?
Ghosn
Porque, embora fabricar carros exija planejamento e investimentos
maciços, esse esforço enorme é feito em ambientes
cada vez mais dinâmicos. Os anseios do consumidor mudam com
rapidez, assim como as regras de emissão de poluentes, a
tecnologia, o material, os mercados e os custos. Há cinco
anos, por exemplo, o mercado chinês, o indiano e o russo não
existiam. Hoje são os mercados em que as vendas de carros
mais crescem no mundo, nos quais é preciso investir em inovação
de produtos e formas de comercialização. Mas é
preciso fazer isso com uma rapidez às vezes inatingível
para companhias de estrutura rígida e acomodada. Esse é
o desafio. Algumas montadoras vão ficar no caminho. É
natural nessa nova realidade. Não há mais ilusão
ou espaço para complacência. Mais de 50 milhões
de carros são vendidos por ano no mundo. Qualquer montadora
pode desaparecer e ninguém vai notar.
Veja No que consiste
essa nova realidade?
Ghosn
Montadoras na China e na Ín- dia planejam colocar no mercado
automóveis de baixo custo por 2.000 dólares. E fazem
isso com uma mentalidade frugal, com poucos recursos. Nós,
e me refiro às montadoras tradicionais, nos esquecemos de
criar sem gastar em excesso. Por acomodação, exigimos
muito dinheiro, muita engenharia e muita tecnologia para fazer carros.
Com isso nos acostumamos a desperdiçar dinheiro e tempo.
Não sei dizer se é possível colocar um modelo
popular à venda por apenas 2.000 dólares, mas temos
de caminhar também nesse sentido. Não é uma
opção, mas um imperativo. O mercado americano, o japonês
e o europeu estão saturados e não vão crescer
muito. O crescimento virá de algumas economias novas, principalmente
Rússia, China, Índia, Oriente Médio e Sudeste
Asiático. A China já é o terceiro maior produtor
de carros no mundo, acabou de passar a Alemanha e perde apenas para
os Estados Unidos e o Japão. Sua produção atingiu
7 milhões de unidades em 2006 (o Brasil produziu 2,6 milhões
no mesmo período).
Veja Na década
de 80 as montadoras japonesas roubaram parte considerável
do prestígio de Detroit. Os chineses e os indianos serão
os japoneses do século XXI?
Ghosn
Não é tão simples assim. Em primeiro lugar,
a história nunca se repete. Depois, não basta contentar-se
em fornecer produtos para a base da pirâmide de renda quando,
na China e na Índia, se observa uma mobilidade social intensa.
O primeiro automóvel do consumidor indiano e do chinês
pode ser barato, mas, assim que eles progredirem na vida, vão
exigir modelos mais sofisticados. Por isso, uma montadora precisa
manter-se em todos os segmentos com o objetivo de fidelizar o novo
consumidor e acompanhá-lo em sua ascensão. Nisso ainda
somos melhores. Também é preciso lembrar que o mercado
de carros de luxo e modelos esportivos já cresce vertiginosamente
na China e na Rússia. Uma montadora deve oferecer a esses
países tanto modelos 4 por 4 quanto populares. As montadoras
chinesas e indianas nos colocam um desafio, não uma ameaça.
Os japoneses ainda lideram em produtividade e eficiência administrativa.
Os europeus estão com boa saúde financeira. Os americanos
vêm reagindo. Ninguém conhece o final desse filme.
Veja A indústria
de carros ainda é capaz de inovar em matéria de gestão?
Ghosn
Sim. Estamos entrando num sistema de administração
moldado para o século XXI. Não é mais possível
manter, dentro de uma organização que fabrique o mesmo
produto, departamentos segmentados que não conversem entre
si. Algumas montadoras foram as primeiras a entender isso. Engenheiros
tendiam a resolver seus problemas só com engenheiros, sem
conversar com os responsáveis pelos departamentos de vendas
ou finanças. Os empregados americanos não conversavam
com os colegas japoneses da mesma empresa, e assim por diante. O
novo modelo de administração exigirá colaboração
cruzada permanente para otimizar o conhecimento. A parceria Renault-Nissan
é um símbolo desse novo tempo.
Veja Como isso funciona
na prática?
Ghosn Quando
estava na Nissan, estipulei uma meta de redução de
20% nos custos do departamento de compras. Defini que essa redução
viria por meio de mudanças nas especificações
das peças, já que usávamos critérios
rígidos e caros demais. De início, os engenheiros
disseram que seria impossível. Forçados a interagir
com profissionais de outras áreas, no entanto, reconheceram
que a Nissan pagava mais por lâmpadas que, embora fossem mais
caras, tinham o mesmo desempenho das usadas pela concorrência.
Os consumidores não viam diferença alguma entre elas.
Deixados à própria sorte, os engenheiros nunca fariam
essa mudança.
Veja Muitos duvidam
que seja possível administrar duas companhias ao mesmo tempo.
Qual a sua rotina para tentar fazer essa mágica?
Ghosn
Na primeira semana de cada mês estou em Paris. É quando
as decisões sobre a Renault são tomadas. Passo a terceira
semana do mês em Tóquio, cuidando da Nissan. A segunda
e a quarta semanas ficam em aberto. Posso estar em Tóquio,
em Paris ou nos Estados Unidos. Isso porque não dá
para fixar tudo: é preciso criar janelas para a flexibilidade.
E montar uma estrutura para trabalhar no avião da companhia
(um Gulfstream V intercontinental), onde minhas viagens duram,
em média, doze horas. Além disso, tenho uma assistente
de muito alto nível no Japão que administra o meu
tempo para tudo. É ela a encarregada hoje de fazer com que
todo mundo em torno de mim seja feliz.
Veja O senhor já
disse que demitir 21 000 pessoas não foi fácil, mas
que era crucial para a sobrevivência da Nissan. Mesmo assim,
o senhor não viveu um drama pessoal ao assinar essas demissões?
Ghosn
Esse tipo de conflito você tem de viver não depois
de assumir a empresa, mas antes. Eu sabia que a Nissan estava doente
e revitalizá-la iria me trazer decisões difíceis,
que meus predecessores nunca assumiram. Mas, quando aceitei ir para
o Japão, fui convencido de que minha missão seria
fazer a empresa renascer. O pior problema do século XXI é
que muitas pessoas querem funções de liderança,
mas não querem problemas difíceis. Assumi uma postura
difícil, mas me comprometi com ela. Se não desse certo,
teria me demitido.
Veja O sucesso do
carro Prius realçou os esforços da Toyota na inovação
de carros híbridos. Mas o senhor sempre foi muito cético
com relação a esse tipo de veículo. Por quê?
Ghosn
Não sou cético quanto à tecnologia. Ela é
promissora. Meu ceticismo diz respeito à lógica econômica.
O custo do híbrido é bem mais elevado do que aquilo
que o consumidor está disposto a pagar. É o caso dos
híbridos vendidos em países como os EUA. Talvez sua
comercialização em massa ainda não seja viável.
Os consumidores são exigentes em matéria ambiental,
mas não estão dispostos a pagar o preço dessa
conta. A solução dos carros flex é melhor,
pois não se trata de um carro híbrido, com duas estruturas,
mas de um único motor movido por dois combustíveis.
Veja Qual será
o futuro do etanol?
Ghosn A
experiência brasileira será única. O país
desenvolve essa tecnologia há décadas e possui condições
climáticas e agrárias particulares que lhe permitem
produzir etanol de forma muito competitiva. Não é
o caso de outros países. Por isso, é mais provável
que um número crescente de governos introduza o etanol apenas
como mistura na gasolina, o que já será ótimo
para o Brasil. Conheci a experiência brasileira de perto.
Tive um Monza a álcool quando trabalhava para a Michelin,
no Rio, em 1995. Funcionava direitinho.
Veja Quando os carros
elétricos e movidos a hidrogênio vão se tornar
economicamente viáveis?
Ghosn
Os carros elétricos evoluíram muito, mas não
o suficiente para justificar sua produção em massa.
O custo da bateria ainda é alto e sua autonomia, baixa. Além
disso, não há benefícios ambientais se a energia
dos carros elétricos for gerada de uma maneira ambientalmente
incorreta. Ou seja, não adianta tirar o problema ambiental
do carro e jogá-lo na etapa anterior, na produção
de eletricidade. Algumas alternativas estão sendo estudadas
para solucionar esse problema. A geração de eletricidade
por energia nuclear é uma delas. Já o hidrogênio
terá uma importância enorme em algum momento, ainda
muito distante, do século XXI. Por décadas será
apenas uma tecnologia de nicho. A produção de hidrogênio
ainda é cara e será preciso criar uma rede de abastecimento
completamente nova.
Veja Dada a ascensão
da China e da Índia no cenário econômico mundial,
qual é a relevância do Brasil para companhias como
a Renault-Nissan?
Ghosn O
mercado interno brasileiro é muito cobiçado e o país
exporta cada vez mais. Mas sua relevância econômica
estará diretamente relacionada à capacidade de estabelecer
novos acordos comerciais. O Mercosul foi um alento, assim como o
acordo comercial do Brasil com o México. Hoje exportamos
(Renault e Nissan) carros do Brasil para o México
e importamos (a Nissan) carros do México para o Brasil.
É bom para o país porque aumenta o fluxo comercial,
e é bom para o consumidor brasileiro porque lhe é
oferecido um carro originalmente desenhado para o mercado americano.
Quanto mais parceiros comerciais o Brasil tiver, mais produtiva
se tornará sua economia. Isso é um imperativo no mundo
atual. A produtividade das montadoras brasileiras já melhorou
muito, mas as asiáticas ainda estão mais bem posicionadas.
Veja A Renault pretendia
ter 10% do mercado brasileiro, mas hoje tem apenas 3%. O senhor
está feliz com esse desempenho?
Ghosn
Não. E nem com o da Nissan no Brasil. Mas estou confiante.
As grandes lições dos primeiros anos no Brasil são
que, primeiro, vamos ter de trazer mais produtos, tanto da Nissan
quanto da Renault. Isso vai acontecer. Segundo, as taxas de nacionalização
da produção não são suficientemente
agressivas. Precisamos aumentar a taxa de componentes feitos e comprados
aqui, para diminuir despesas usando o potencial de competitividade
de custos que existe no Brasil. Isso significa que é preciso
trazer mais responsabilidade para a engenharia local e ter fornecedores
locais. Depois, é preciso mais qualidade de serviços.
Podemos fazer melhor. Estamos na média da indústria,
mas temos de ficar acima da média.
Veja Vale a pena
gastar cerca de 300 milhões de dólares por ano para
a Renault competir na Fórmula 1?
Ghosn
Só quando ganhamos o campeonato, como no ano passado.
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