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Claudio de Moura Castro

Bisturi ou microfone?

"A próxima revolução na saúde virá pela comunicação mais do que na mesa de operações"


Ilustração Ale Setti


"Façamos um trato: você emagrece 20 quilos e eu não opero suascoronárias." Com essa frase, encerra-se o rápido diálogo de um conhecido cirurgião cardiovascular com um pançudo que o aborda na rua, perguntando se era mesmo necessário emagrecer. Aos 15 anos de idade, o futuro cirurgião já fazia transplantes em cachorro. Daí para a frente, sua carreira foi clara e linear. De sucesso em sucesso, consolidou sua reputação (nacional e internacional), criou uma clínica cardiológica, inova incessantemente e cuida das coronárias daqueles que cuidam da política e de um grande naco do PIB de seu Estado.

Com a fama, vieram os convites para ir à televisão. De um programinha acanhado, hoje está em dois. Com talento inato, a experiência foi progressivamente lapidando seus méritos de comunicador em assuntos de saúde.

Em conversa recente, veio à baila uma questão interessante: quem salva mais vidas, seu bisturi ou suas mensagens na televisão? O próprio cirurgião estava propenso a acreditar que suas aparições semanais na TV poderiam salvar mais que seu bisturi. Acha mesmo que a próxima revolução na saúde virá pela comunicação mais que na mesa de operações – mais insuspeita opinião é difícil.

Hoje não duvidam mais os epidemiólogos: a incidência de doenças e a esperança de vida são pouco influenciadas pelos hospitais, seus médicos e por tudo o que se passa lá dentro. Historicamente, a mortalidade e a morbidade caíram quando melhoraram a qualidade da água, o tratamento dos esgotos, a disponibilidade permanente de alimentos, o controle das endemias e a higiene em geral. Daí vieram os grandes saltos na expectativa de vida, passando de 40-50 para 70-80 anos. A contribuição mais direta da medicina é na promoção da saúde e na prevenção de doenças, sobretudo por via da vacinação, dos cuidados pré-natais, da erradicação de moléstias infecto-contagiosas e de tratamentos muito simples (tais como a reidratação oral).

Uma grande fonte de perplexidade para leigos é a ausência de correlação entre a medicina curativa mais sofisticada e variações nas estatísticas de saúde e doença. Em outras palavras, os fatores que decidem entre a vida e a morte acontecem predominantemente fora de hospitais e clínicas. São tão fortes que nas estatísticas obliteram os ganhos na mesa de operações.

Em boa parte do Brasil, as pessoas continuam morrendo antes da hora. Matam a desnutrição, a falta de higiene e de controle de endemias. O cidadão, individualmente, pouco pode fazer para mudar tais condições externas.

Mas, no Estado sulino do nosso cirurgião, os piores problemas de saúde pública estão quase resolvidos. Ultrapassada essa fase, o que determina a vida ou a morte é o próprio comportamento individual. Claro, os genes familiares ajudam, porém o impacto dos fatores ao alcance individual é decisivo. Cada um é dono de sua longevidade.

O grande matador são os maus hábitos de vida. Quando há recursos para comer, as pessoas comem errado. Abusam de gordura. Fumam, bebem demais (embora o vinhozinho no jantar seja bom para o coração). Ganham peso. Entram e saem de regimes, pior que ficar gordo. Não fazem exercícios regularmente, ou exageram sem ter o hábito. E, naturalmente, morrem pela má administração do stress. Enfrentar a tensão da vida cotidiana é uma questão de aprendizagem.

Quando chega a hora do cirurgião cardiovascular, o estrago já está feito. A saúde requer mudanças de estilo de vida. É preciso aprender a viver para a saúde, não para esperar a doença. É claro, ficar sabendo que cigarro faz mal não elimina o vício e a tentação do torresminho pode ser irresistível. Mas há muito comportamento nocivo à saúde devido à mera falta de informação. E hoje, aprendendo a lição errada ou a certa, a escola que todo mundo freqüenta é a televisão. Segurando o microfone em frente da câmara, o doutor Fernando Lucchese acha que poderá salvar mais vidas do que segurando seu certeiro bisturi.

Claudio de Moura Castro é economista
(claudiomc@attglobal.net)

 

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